O torcedor é um narciso às avessas
A pandemia comprova: o torcedor pode sim liquidar um time. Se tivéssemos público, algumas equipes teriam ido tão longe nos campeonatos e aguentado a pressão que vem da arquibancada?
- Luiza Boareto (*)
- 29/01/2021
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Uma vez Nelson Rodrigues escreveu que “a torcida pode salvar ou liquidar um time” e, durante a pandemia da COVID19, eu passo a concordar mais ainda com ele.
Bom, o futebol e os demais esportes tiveram que adaptar algumas coisas e criar alguns protocolos para continuarem entretendo os torcedores durante a quarentena. Assim, a primeira mudança anunciada acabou sendo que nenhum jogo teria público.
Dias e meses passaram e, agora, nem sabemos mais como entrar em um estádio.
Se pegarmos para analisar financeiramente, para o clube, foi horrível, perdeu o dinheiro da bilheteria. Para o torcedor, até que foi bom, deu pra dar uma economizada. Mas acho que o peso maior disso tudo é que realmente a torcida pode aniquilar um time.
Analisa comigo. O Palmeiras é finalista da Copa Libertadores de 2020 e da Copa Do Brasil, mas você acha mesmo que com torcida chegaria até as finais?
Os palmeirenses são uma espécie rara, pessoas que fundaram o clube do amendoim e começaram com as cornetas. Sim, nós somos os primeiros corneteiros.
Na esquina das ruas Caraíbas e Turiassu, lá na época de 1930, quando o Palmeiras ainda era chamado de Palestra Itália, conselheiros se reuniam em um bar que era vizinho da empresa Corneta Ferramentas. Esse pessoal era a famosa oposição na Diretoria.
Em uma entrevista para o Portal UOL, em maio de 2015, o historiador do Palmeiras, Jota Christianini, conta que, rapidamente, associaram esse grupo de palmeirenses que só gritava e reclamava com a Corneta Ferramentas.
“Alguém, em um dia, disse algo assim: “lá vem a turma da corneta”.
Segundo Jota, essa galera gritava muito nas reuniões e assim, naturalmente, o pessoal da corneta virou os corneteiros.
Agora, imagina se, na cabeça do Abel Ferreira, tivesse algum corneteiro, alguém do clube do amendoim gritando: tira o Rony! Bigode titular, não!
Essa leitura de jogo não é só minha. Mais palmeirenses já questionaram a chatice de algumas pessoas da digníssima torcida alviverde. Vou desenhar aqui: jogo de ida da semifinal. Palmeiras 3 x 0 River Plate, lá na Argentina. Ok, resultado lindo, ótimo. Seria por falta dos Los Borrachos del Tablón?
Temos agora o jogo de volta, no Allianz Parque. Palmeiras jogando muito mal e perdendo por 2×0. Time adversário marcas mais vezes, VAR anula. O que a torcida estaria gritando das arquibancadas? Vaias?
Claro que não seriam palavras de apoio, afinal, mais um gol válido do River e iríamos para a disputa de pênaltis.
Isso, é um fato. A torcida do Palmeiras precisa cornetar alguma coisa. Mesmo com o time sendo finalista da Copa do Brasil e da Libertadores, sobra para o menino de 18, que acabou de subir da base, ouvir xingamentos por ter perdido um gol. Uma verdadeira torcida impaciente e chata.
Como diria Nelson Rodrigues: “Se vence de cinco, se dá uma lavagem, o torcedor acha que o adversário não presta. Se empata, quem não presta somos nós”.
Por agora, eu só espero que meu time ganhe o próximo jogo. E nem precisa ser de cinco.
(*) Luiza Boareto é jornalista formada pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), comentarista profissional de programas de TV e apaixonada por esportes. Espero que “o teu desejo seja sempre o meu desejo”. Mas se não for, é culpa do meu sol em Leão