Aldravia: a via poética brasileira

É possível dizer que Mariana pediu licença, convidando as pessoas a abrir as portas para um novo caminho nas artes. E inspirada na concepção de Ezra Pound, propôs a experiência poética de fazer poesia com o mínimo de palavras. A aldravia, portanto, é a via poética brasileira que trabalha majestosamente a linguagem num processo de interação ativa com o leitor.

Atualizado em 17/09/2021 às 10:09, por Giseli Barros.

Minas Gerais é terra que respira arte. Ainda no período da colonização portuguesa, teve destaque no cenário político, social, econômico e cultural, sendo berço de ilustres pensadores e artistas. Vila do Carmo e sua irmã Vila Rica despontaram, nos séculos XVII e XVIII, construindo um patrimônio material e imaterial de valores imensuráveis. Não é exagero afirmar que são protagonistas no processo da formação da história e da arte brasileira, incluindo nesta última, a nossa literatura.

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Se entendemos que a nossa cultura teve, claramente, influências estrangeiras, sobretudo da portuguesa, do século XVI a meados do século XIX, é importante considerar também que nesse processo fomos nos constituindo como povo. Assim, o nosso Barroco não é mera cópia estrangeira, como também o nosso Arcadismo. É preciso saudar os diversos mestres que assinaram seus nomes na história brasileira, tais como Aleijadinho, Manuel da Costa Ataíde, Cláudio Manuel da Costa, Frei Santa Rita Durão e Tomaz Antônio Gonzaga, por exemplo. Vale também pensar na contribuição de tantos outros nomes que não figuram nos livros de História. Nomes que o tempo vai apagando, deixando esquecidos num canto dos nossos monumentos e em arquivos pouco estudados, à espera de um olhar curioso, pois há sempre a possibilidade de descobrir mais um filho ilustre da terra.

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A História caminha. Vila do Carmo é elevada à cidade e passa a ser chamada Mariana. A poucos quilômetros, a sua irmã Vila Rica é registrada Ouro Preto. Novos filhos ilustres, agora, simbolistas. Imerso nas brumas do interior das Minas Gerais, o ouro-pretano Alphonsus de Guimaraens escolheu Mariana para a sua última casa. Fez amizade com o inquieto José Severiano de Rezende, o marianense que se exilou na França, poeta ainda a ser verdadeiramente descoberto. Vira o século, a industrialização se desponta e encanta a juventude. A tradição centenária permanece forte nas telas, nos entalhes em madeira e na cultura popular. Os jovens modernistas, visionários, quebram paradigmas. Minas aceita o diálogo. Suas ruas centenárias olham para o passado, mas encaram também o futuro. Minas caminha barroca, árcade, simbolista e decide propor, no século XXI, uma nova via. Audaciosa? Sim. Audácia acolhedora, porque não traz consigo a prepotência de quem precisa se afirmar a partir da negação do passado. Não é essa a proposta, já que Minas é múltipla, diversa. É audaciosa, sobretudo por apostar no leitor. É justamente por isso que se faz também acolhedora. Nesse sentido, não poderia mesmo ter escolhido outro símbolo que não fosse a aldrava. E é interessante pensar na escolha inteligente por essa ferramenta, considerando a sua presença nas portas centenárias e, ao mesmo tempo, o convite para a novidade.

Essa nova forma poética, gestada na Primaz de Minas, tem como fundadores Andreia Donadon Leal, José Benedito Donadon Leal, Hebe Rôla Santos, Gabriel Bicalho e J. S. Ferreira. Esses intelectuais deram um passo fundamental no cenário das artes ao propor o Movimento Aldravista, que vem, ao longo de mais de uma década, expandindo-se também através das artes plásticas, pelas mãos talentosas da Andreia Donadon. A artista é a responsável pela criação do nome aldravia, que intitula a nova poesia brasileira.

A poesia que se adequa ao tempo ágil e provocativo:

pedra
que
pariu
a
desumana
indiferença
(Gabriel Bicalho)

O desejo de expressar o máximo quase em silêncio:

aldravia
poetar
mundo
em
seis
palavras
(Andreia Donadon)

O erotismo sugerido na sutileza de versos metonímicos:

morangos
passeiam
sob
blusa
de
algodão
(J. B. Donadon Leal)

A inquietação do sujeito na pós-modernidade:

quando
folhas
farfalham
nossas
ideias
vazias
(J. S. Ferreira)

A cena poética de cotidianos diluídos:

café
medroso
clarividência
marianenses
em
inconfidências
(Hebe Rôla)

A aldravia ligeira, provocativa, múltipla, que se expande e floresce em novas vias, ao gosto do que a arte deve ser: livre.


Giseli Barros

Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana