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Hoje é domingo, 6 de abril de 2025

Vítima de estupro em república espera justiça há quase 2 anos

Estudante relata abuso, desamparo da polícia e cultura de violência nas repúblicas.

*A reportagem contém descrição de violência sexual, o que pode ser um gatilho para pessoas mais sensíveis.

Ilustração da reportagem sobre estupro na República Bangalô, em ouro Preto.
"Enquanto essa cultura republicana que desumaniza as mulheres e as colocam como um objeto não parar, vamos continuar sendo abusadas e silenciadas" - Arte: Lui Pereira/Agência Primaz

Estudante da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), foi estuprada em uma república federal em julho de 2023. Porém, quase dois anos após o ocorrido, ela ainda aguarda respostas concretas da universidade e da polícia. O caso aconteceu após uma festa em uma república próxima à Bangalô, onde Lara (nome fictício) decidiu dormir por estar alcoolizada e não conseguir voltar para casa sozinha. Na manhã seguinte, já na Bangalô, ela teria sido abusada por um visitante, da república Engenho, de Ouro Branco. Quase dois anos depois, ela ainda enfrenta a lentidão das investigações e a falta de medidas concretas da universidade contra os envolvidos.

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Entenda o caso

Em julho de 2023, Lara participou de uma festa junto com colegas de sua antiga república. A festa acontecia próximo da República Bangalô, local que Lara tinha acesso frequente, pois era uma república “amiga” de sua própria república. Na cultura republicana, as repúblicas que mantém esse tipo de laço de amizade, frequentemente permitem a entrada de moradores das repúblicas amigas, para descanso ou lazer.

Como estava muito alterada, mesmo sem se recordar de ter bebido em exagero, Lara não seguiu para casa como as demais moradoras e preferiu descansar na República Bangalô, por ser mais próxima. “Eu morava em uma república muito amiga da Bangalô, então me sentia à vontade com eles. Quando era quase de manhã, eu estava muito bêbada e decidi dormir por lá para não ir embora sozinha”, relata.

Lara entrou e foi até o quarto de um dos moradores que estava vazio, pois ele não estaria em casa e lá dormiu. Por volta de 5h da manhã, um homem que Lara não conhecia entrou no quarto: “Lembro dele entrar no quarto, se deitar ao meu lado, pedi pra ele sair de cima de mim e logo não me lembro de mais nada, apenas vultos”, narrou.

Horas depois, Lara acordou, ela estava seminua, com dor e sangramento, suas roupas estavam rasgadas. Do lado de fora do quarto ela reconheceu a voz de um dos moradores da república que perguntava: “E aí? Comeu?”, outra voz respondeu que sim, em seguida ela ouviu risadas de cumplicidade, foi aí que ela entendeu o que tinha acontecido.

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Algum tempo depois, um outro morador entrou no quarto onde estava Lara e pediu para que ela fosse embora: “Ao acordar senti forte dores, minha roupa estava rasgada e não conseguia andar direito. Fui abordada grosseiramente por um antigo morador da república dizendo que se eu não me levantasse para ir embora ele me daria um ‘capote’ (virar a cama junto com a pessoa que estiver deitada)”, conta a estudante.

Com medo, Lara se levantou e ligou para uma colega de república para buscá-la, já que não encontrou qualquer apoio na república “amiga”. “Como eu não conseguia andar sozinha, me apoiei nela e ela me carregou para fora da casa. Ficamos em torno de 20 minutos na calçada da república deles (esperando um táxi), com eles entrando e saindo e mesmo assim nenhum ofereceu ajuda ou perguntou se algo tinha acontecido”, revela a vítima.

O homem que teria invadido o quarto onde Lara dormia para violentá-la, seria também estudante, mas da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), ele estaria junto com sua república, “Engenho”, da cidade de Ouro Branco, em visita à Bangalô. Lara diz se lembrar que foi apresentada aos estudantes da República Engenho durante a festa, mas que em nenhum momento teria tido interesse ou intimidade com nenhum deles.

Falta de apoio imediato

Segundo Lara, os moradores da Bangalô não apenas falharam em ajudá-la, como zombaram de seu estado físico após o ocorrido. “Entravam no quarto e riam de mim”, afirma. Ela só conseguiu sair do local com a ajuda de uma amiga e, em seguida, foi ao hospital para realizar exames. Dias depois registrou um Boletim de Ocorrência (BO) na Delegacia da Mulher.

Além de não auxiliar Lara após a violência, ela descobriria posteriormente ter sido alvo de “brincadeiras” e comentários depreciativos em grupos de whatsapp pelos moradores da república: “Caçoaram e riram da minha situação, além de conversarem em grupos de Whatsapp sobre mim, minha aparência e ferirem minha dignidade”, explica a estudante.

Lara reconheceu o suposto estuprador por fotos após o ocorrido. “O cara eu não conheço, nunca o vi, então a ele desejo a cadeia, e desejo as pessoas que são coniventes com isso que saiam da comunidade estudantil, pois não servem para estar em um meio acadêmico”, desabafa.

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Cultura de estupro

Lara critica a cultura das repúblicas, que, segundo ela, naturaliza a violência contra mulheres. “Enquanto essa cultura republicana que desumaniza as mulheres e as colocam como um objeto, e não falo só de violência, não parar, vamos continuar sendo abusadas e silenciadas”, desabafa. Ela espera que sua história incentive outras vítimas a denunciarem e pressione por mudanças.

Em agosto de 2022, o estudante Ayrton Veras denunciou os abusos físicos e sexuais que sofreu dentro da República Sinagoga que o deixaram em coma. Em relato à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Ouro Preto, a mãe do estudante chegou a declarar que aquilo não se trataria de um trote, mas de uma “tentativa de homicídio”.

Demora nas Investigações

Apesar das provas coletadas, incluindo exames médicos e o BO, a estudante reclama da demora nas investigações. “Ano passado, fui à delegacia e descobri que nem as testemunhas foram chamadas para depor”, conta.

Na UFOP, ela abriu um processo administrativo contra a república, mas também reclama de nunca ter recebido atualizações. A estudante elogia a Ouvidoria Feminina da universidade que lhe ofereceu apoio psicológico, por outro lado, as medidas disciplinares contra os envolvidos nunca avançaram.

Sobre a situação das investigações, a Polícia Civil de Minas Gerais informou que “tramita na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher em Ouro Preto uma investigação que visa apurar eventual crime de estupro ocorrido em uma república estudantil da Universidade Federal do município”. Ainda de acordo com a Polícia, “a vítima e uma testemunha já foram ouvidas e os laudos já foram juntados ao procedimento”.

 Além disso, segundo a PCMG “a Universidade se dispôs a prestar as informações necessárias para a elucidação dos fatos e aguarda o cumprimento de algumas diligências necessárias para a conclusão do inquérito” a comunicação da Polícia Civil também esclareceu que “devido ao caráter sigiloso da investigação, outras informações serão repassadas em momento oportuno”.

Nota da República Bangalô

Questionada pela reportagem, a República Bangalô nos respondeu com uma nota que reproduzimos abaixo:

Diante da grave denúncia envolvendo um crime ocorrido em nossa residência, a República Bangalô reforça que, na época do fato, oferecemos toda a assistência necessária à vítima, nos colocando à disposição para garantir seu amparo e respeito à sua privacidade. Importante ressaltar que, na manhã seguinte ao ocorrido, a vítima deixou a república sem relatar o que havia acontecido, e os moradores só tomaram conhecimento dos fatos mais tarde, através de terceiros. Assim que soubemos da situação, buscamos agir da maneira mais responsável possível, inclusive nos oferecendo para depor sobre o caso, prestando apoio e respeitando as decisões da vítima quanto às providências cabíveis.

A instituição ainda esclarece que as sanções disciplinares para discentes, no âmbito da UFOP, estão previstas no art. 5o da Resolução Cuni no 2060/2018 (Código de Convivência Discente da Universidade Federal de Ouro Preto), sendo a mais leve a advertência oral e a mais grave o desligamento da Instituição. As motivações para cada tipo de penalização estão discriminadas no art. 6o da mesma resolução.

Como denunciar

A discente da UFOP que sofrer violência de gênero deve procurar a Ouvidoria Feminina da Universidade para fazer a denúncia. A Ouvidoria recebe as manifestações dos cidadãos pelo Fala.BR ou por meio da página www.ufop.br/ouvidoria. A partir da denúncia, a Ouvidoria analisa, orienta, encaminha às áreas responsáveis pelo tratamento ou apuração, responde à manifestante e conclui a manifestação. Ainda, estudantes que forem vítimas de violência de gênero ou qualquer outra prática violenta podem procurar acompanhamento e orientação na Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (Prace), presente nos três campi da UFOP

Foto de Lui Pereira
Jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Cronista do cotidiano marianense.