Mariana (MG), 19 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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21ª CineOP homenageia única mulher do Cinema Novo

Com o tema “Um país existe nas imagens que preserva”, evento resgata memória, educação e preservação audiovisual

Fotografia em plano médio de uma mulher madura de pele clara, cabelos castanhos avermelhados na altura do queixo e uma expressão serena com um leve sorriso. Ela está ligeiramente voltada para a direita e segura um microfone com a mão direita próxima ao queixo. Ela usa um anel detalhado no dedo anelar, uma jaqueta preta aberta com capuz sobre uma blusa verde-oliva escura. O fundo consiste em uma cortina de tecido pesado na cor azul-petróleo com dobras verticais. A iluminação é suave e direcionada, vinda da esquerda, destacando as feições de seu rosto e deixando o lado oposto em uma sombra sutil.

Antes de ser tema de um livro de pesquisa que levou quatro anos para ser feito por Mariana Tavares, Helena Solberg não via seus próprios filmes há décadas, pois estava sempre preocupada com o próximo projeto. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

A 21ª Primeira Mostra de Cinema de Ouro Preto, que se encerra hoje, 30 de maio, trouxe desde a última quinta-feira (25) o tema “Um país existe nas imagens que preserva” e focou na representatividade feminina no audiovisual ao homenagear a cineasta Helena Solberg. Além das homenagens e debates sobre preservação audiovisual, o evento contou também com mostras de cinema, diversas oficinas e palestras com especialistas.

Homenagem às mulheres

Mariana Tavares, Juliana Gusman, Helena Solberg e Lúcia Murat, respectivamente, em debate temático - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Helena Solberg é cineasta brasileira, produtora e a única diretora mulher a participar do Cinema Novo, movimento brasilero que visava usar a cinematografia como ferramenta de transformação social.

Com seu auge entre as décadas de 60 e 70, o Cinema Novo foi responsável por, pela primeira vez, discutir e mostrar a realidade brasileira através do audiovisual e nos presenteou com grandes obras, como Vidas Secas, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Rio 40 Graus.

Helena Solberg lançou seu primeiro filme aos 28 anos, “A Entrevista”, em 1966 onde ela traz relatos de mulheres da burguesia carioca sobre casamento sexo e política, assuntos considerados verdadeiros tabus à época.

O outro filme dela também escolhido para exibição na mostra foi “Meio-Dia” (1970), primeiro filme de ficção da carreira da homenageada que retrata a revolta de um grupo de crianças na escola durante a ditadura militar. A cinematografia de Helena é marcada por mulheres ocupando espaços e movimentos sociais brasileiros e a escolha de exibir esses dois filmes na mostra reflete exatamente isso.

Ainda sobre sua lista de filmes que moldam sua carreira, a diretora ajudou e ainda ajuda a inspirar jovens cineastas através de “Um Filme para Beatrice” segundo a cineasta, a melhor obra para apresentar quem ela é para quem ainda não a conhece. 

O filme foi lançado recentemente, em 2025, quando Helena completou seus 87 anos. Tentando responder a pergunta que veio de uma jornalista italiana, Beatrice Andreose: “Como vão as mulheres no Brasil?”, a cineasta cria uma obra para tentar entender e registrar histórias de mulheres brasileiras.

'“Um filme para a Beatrice”, porque ele é um filme que tem um episódio interessante que eu recebi o telefonema de uma jornalista italiana que me ligou da Itália dizendo que ela estava no carro em Pádua. E no armário de uma escola elementar fechada, encontraram dentro do armário uma cópia do meu filme, “A Entrevista” e que eles pegaram essa cópia e passaram e gostaram muito do filme. E ela queria saber como é que estavam as mulheres no Brasil hoje. E esse meu filme chama-se “Um filme para Beatrice”, que é uma resposta para ela de uma revisão do passado, entendeu? Acho que “Um Filme Para Beatrice conta mais ou menos a minha trajetória.' 

Helena Solberg

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No filme, a diretora revisita seu passado e faz um “filme-testamento”, mas que se mistura com a história de outras mulheres no Brasil e na América latina. O documentário ainda tenta responder a pergunta trazendo a voz de outras mulheres, como: Anielle Franco e Heloísa Teixeira, além de Guilherme Terreri que é ator e drag queen como Rita von Hunty e se monta ao longo do documentário.

Junto de Helena, Lúcia Murat também subiu aos palcos da CineOP, a cineasta carioca e ex-integrante da luta armada contra a ditadura militar brasileira, exibiu na mostra seu filme “Que Bom Te Ver Viva” (1989), primeiro longa metragem de sua carreira. 

Em uma mistura de documentario com ficção, Lúcia costura a história a partir do depoimento de 8 ex-presas políticas brasileiras que sofreram tortura na ditadura militar e ainda pagam o preço por isso 20 anos depois, as histórias são entrelaçadas e contadas a partir de uma personagem única, ficcional e anonima.

Essas exibições e palestras das convidadas reforçam a intenção da mostra de ceder o espaço a mulheres cineastas tão importantes na história do cinema brasileiro.

“Um país existe nas imagens que preserva”

A Mostra de Cinema de Ouro Preto se consolidou ao longo de duas décadas de existência, segundo o ministério da cultura, como o principal espaço brasileiro dedicado ao debate sobre preservação audiovisual, história e educação no cinema. Esse ano, a mostra contou com as oficinas como: “Preservação digital na prática para acervos e projetos audiovisuais” e “Preservar para quê? Recuperação audiovisual e direitos autorais na prática”, focadas nos desafios da preservação de arquivos audiovisuais na atualidade.

Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Marco Dreer, preservador audiovisual e oficineiro da mostra afirma que a importância de preservar arquivos audiovisuais vai além de poder assistir filmes antigos e sim uma forma de preservar também a história, a memória e as vivências culturais do nosso país.

“O audiovisual é tão ou mais importante do que os documentos tradicionais.”

  Marco Dreer

Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

José Maria, restaurador audiovisual, consultor técnico do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e oficineiro, teve sua história marcada pela ditadura militar. Enquanto trabalhava na TV Tupi, lidava com a censura de arquivos que ele mesmo tinha que apagar e hoje só existem em sua memória.

'Eu acho que é importante isso falar e preservar arquivos para mostrar para essa nova geração que não conhece bem a nossa história politicamente.'

José Maria

Fabíola Cavalcanti, produtora cultural, advogada e oficineira da CineOP também reforçou a importância de um evento que promova a ideia da preservação no imaginário popular.

“Você tá passando isso à frente. Então, não importa o objeto. O preservar é isso, ... cada um conta uma história e colabora com a história que a gente está vivendo hoje. Você está preservando uma história, você está preservando uma cultura da época, uma história da época”

Fabíola Cavalcanti

Cartas ao cineasta

As cartas mencionam que as gerações passadas eram "viciadas em utopia", o que servia como uma bússola e que hoje é importante resgatar a capacidade de "projetar sonhos" contra o "presente perpétuo" das redes digitais - Foto:Gisele Santoli/Agência Primaz

No último dia de Mostra, a CineOp reuniu preservadores, arquivistas, cientistas, professores, estudantes, pesquisadores e participantes, para junto dos membros da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e da Associação Brasileira de Profissionais de Museus da Imagem e do Som e Correlatos (ABPMIS), para leitura das Cartas de Preservação e Educação.

Na carta de preservação foi celebrado a criação do curso de Preservador Audiovisual gratuito e que será a base da profissão no Brasil. Esse curso nasceu da parceria entre o Centro Técnico Audiovisual (CTAv) com o Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

Também foi defendido que o Depósito Legal, obrigatoriedade do envio de cópias de produtos audiovisuais produzidos com financiamento público à Cinemateca Brasileira, não seja encarado apenas como uma burocracia e sim uma parte do processo que estrutura o audiovisual na nossa sociedade. Além disso, pedem que esse processo seja descentralizado e conte com uma rede de instituições credenciadas e regionais que possam facilitar a burocracia.

“Diante do exposto, percebe-se um paradoxo contemporâneo: nunca se produziu tanto audiovisual, mas sua permanência no tempo vem se tornando cada vez mais incerta. Reafirmamos que o arquivo audiovisual é matéria viva de soberania”

Carta de Preservação

Já a carta de educação lamenta que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não reconheça o cinema como linguagem, o que dificulta a destinação de recursos, a formação de professores com um saber próprio de cinema e deixa o audiovisual em segundo plano nas salas de aula. Além de exigir que a Lei 13.006/14, que obriga a exibição de filmes brasileiros nas escolas, seja cumprida.

“Quando o cinema finalmente chegar a todas as escolas, que o faça como se fosse sempre a primeira vez, preservando o espanto, a delicadeza do encontro e a potência de transformação que habita cada imagem.”

Carta de Educação

Ambas as cartas dedicam uma atenção especial ao projeto de 1986 “Vídeo nas Aldeias” pedindo que o Estado Brasileiro se responsabilize pela preservação e circulação desse patrimônio. O projeto apoia lutas dos povos indígenas por meio de recursos audiovisuais e hoje em dia contam com 8000 horas de material bruto guardado e 70 filmes preservados.

Encerramento

Na noite desta terça, a partir das 20h acontece o encerramento da mostra, na Praça Tiradentes. Na ocasião o público irá conhecer o vencedor da mostra competitiva e a noite se encerra com o Cine Concerto, que tem a concepção e roteiro de Titane, Túlio Mourão, Franciane Curi, Papoula Bicalho. 

Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

 

Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz
Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz
Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz
Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
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Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz
Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

 

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