A 21ª Primeira Mostra de Cinema de Ouro Preto, que se encerra hoje, 30 de maio, trouxe desde a última quinta-feira (25) o tema “Um país existe nas imagens que preserva” e focou na representatividade feminina no audiovisual ao homenagear a cineasta Helena Solberg. Além das homenagens e debates sobre preservação audiovisual, o evento contou também com mostras de cinema, diversas oficinas e palestras com especialistas.
Homenagem às mulheres

Helena Solberg é cineasta brasileira, produtora e a única diretora mulher a participar do Cinema Novo, movimento brasilero que visava usar a cinematografia como ferramenta de transformação social.
Com seu auge entre as décadas de 60 e 70, o Cinema Novo foi responsável por, pela primeira vez, discutir e mostrar a realidade brasileira através do audiovisual e nos presenteou com grandes obras, como Vidas Secas, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Rio 40 Graus.
Helena Solberg lançou seu primeiro filme aos 28 anos, “A Entrevista”, em 1966 onde ela traz relatos de mulheres da burguesia carioca sobre casamento sexo e política, assuntos considerados verdadeiros tabus à época.
O outro filme dela também escolhido para exibição na mostra foi “Meio-Dia” (1970), primeiro filme de ficção da carreira da homenageada que retrata a revolta de um grupo de crianças na escola durante a ditadura militar. A cinematografia de Helena é marcada por mulheres ocupando espaços e movimentos sociais brasileiros e a escolha de exibir esses dois filmes na mostra reflete exatamente isso.
Ainda sobre sua lista de filmes que moldam sua carreira, a diretora ajudou e ainda ajuda a inspirar jovens cineastas através de “Um Filme para Beatrice” segundo a cineasta, a melhor obra para apresentar quem ela é para quem ainda não a conhece.
O filme foi lançado recentemente, em 2025, quando Helena completou seus 87 anos. Tentando responder a pergunta que veio de uma jornalista italiana, Beatrice Andreose: “Como vão as mulheres no Brasil?”, a cineasta cria uma obra para tentar entender e registrar histórias de mulheres brasileiras.
'“Um filme para a Beatrice”, porque ele é um filme que tem um episódio interessante que eu recebi o telefonema de uma jornalista italiana que me ligou da Itália dizendo que ela estava no carro em Pádua. E no armário de uma escola elementar fechada, encontraram dentro do armário uma cópia do meu filme, “A Entrevista” e que eles pegaram essa cópia e passaram e gostaram muito do filme. E ela queria saber como é que estavam as mulheres no Brasil hoje. E esse meu filme chama-se “Um filme para Beatrice”, que é uma resposta para ela de uma revisão do passado, entendeu? Acho que “Um Filme Para Beatrice conta mais ou menos a minha trajetória.'
No filme, a diretora revisita seu passado e faz um “filme-testamento”, mas que se mistura com a história de outras mulheres no Brasil e na América latina. O documentário ainda tenta responder a pergunta trazendo a voz de outras mulheres, como: Anielle Franco e Heloísa Teixeira, além de Guilherme Terreri que é ator e drag queen como Rita von Hunty e se monta ao longo do documentário.
Junto de Helena, Lúcia Murat também subiu aos palcos da CineOP, a cineasta carioca e ex-integrante da luta armada contra a ditadura militar brasileira, exibiu na mostra seu filme “Que Bom Te Ver Viva” (1989), primeiro longa metragem de sua carreira.
Em uma mistura de documentario com ficção, Lúcia costura a história a partir do depoimento de 8 ex-presas políticas brasileiras que sofreram tortura na ditadura militar e ainda pagam o preço por isso 20 anos depois, as histórias são entrelaçadas e contadas a partir de uma personagem única, ficcional e anonima.
Essas exibições e palestras das convidadas reforçam a intenção da mostra de ceder o espaço a mulheres cineastas tão importantes na história do cinema brasileiro.
“Um país existe nas imagens que preserva”
A Mostra de Cinema de Ouro Preto se consolidou ao longo de duas décadas de existência, segundo o ministério da cultura, como o principal espaço brasileiro dedicado ao debate sobre preservação audiovisual, história e educação no cinema. Esse ano, a mostra contou com as oficinas como: “Preservação digital na prática para acervos e projetos audiovisuais” e “Preservar para quê? Recuperação audiovisual e direitos autorais na prática”, focadas nos desafios da preservação de arquivos audiovisuais na atualidade.

Marco Dreer, preservador audiovisual e oficineiro da mostra afirma que a importância de preservar arquivos audiovisuais vai além de poder assistir filmes antigos e sim uma forma de preservar também a história, a memória e as vivências culturais do nosso país.
“O audiovisual é tão ou mais importante do que os documentos tradicionais.”

José Maria, restaurador audiovisual, consultor técnico do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e oficineiro, teve sua história marcada pela ditadura militar. Enquanto trabalhava na TV Tupi, lidava com a censura de arquivos que ele mesmo tinha que apagar e hoje só existem em sua memória.
'Eu acho que é importante isso falar e preservar arquivos para mostrar para essa nova geração que não conhece bem a nossa história politicamente.'
Fabíola Cavalcanti, produtora cultural, advogada e oficineira da CineOP também reforçou a importância de um evento que promova a ideia da preservação no imaginário popular.
“Você tá passando isso à frente. Então, não importa o objeto. O preservar é isso, ... cada um conta uma história e colabora com a história que a gente está vivendo hoje. Você está preservando uma história, você está preservando uma cultura da época, uma história da época”
Cartas ao cineasta

No último dia de Mostra, a CineOp reuniu preservadores, arquivistas, cientistas, professores, estudantes, pesquisadores e participantes, para junto dos membros da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e da Associação Brasileira de Profissionais de Museus da Imagem e do Som e Correlatos (ABPMIS), para leitura das Cartas de Preservação e Educação.
Na carta de preservação foi celebrado a criação do curso de Preservador Audiovisual gratuito e que será a base da profissão no Brasil. Esse curso nasceu da parceria entre o Centro Técnico Audiovisual (CTAv) com o Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).
Também foi defendido que o Depósito Legal, obrigatoriedade do envio de cópias de produtos audiovisuais produzidos com financiamento público à Cinemateca Brasileira, não seja encarado apenas como uma burocracia e sim uma parte do processo que estrutura o audiovisual na nossa sociedade. Além disso, pedem que esse processo seja descentralizado e conte com uma rede de instituições credenciadas e regionais que possam facilitar a burocracia.
“Diante do exposto, percebe-se um paradoxo contemporâneo: nunca se produziu tanto audiovisual, mas sua permanência no tempo vem se tornando cada vez mais incerta. Reafirmamos que o arquivo audiovisual é matéria viva de soberania”
Já a carta de educação lamenta que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não reconheça o cinema como linguagem, o que dificulta a destinação de recursos, a formação de professores com um saber próprio de cinema e deixa o audiovisual em segundo plano nas salas de aula. Além de exigir que a Lei 13.006/14, que obriga a exibição de filmes brasileiros nas escolas, seja cumprida.
“Quando o cinema finalmente chegar a todas as escolas, que o faça como se fosse sempre a primeira vez, preservando o espanto, a delicadeza do encontro e a potência de transformação que habita cada imagem.”
Ambas as cartas dedicam uma atenção especial ao projeto de 1986 “Vídeo nas Aldeias” pedindo que o Estado Brasileiro se responsabilize pela preservação e circulação desse patrimônio. O projeto apoia lutas dos povos indígenas por meio de recursos audiovisuais e hoje em dia contam com 8000 horas de material bruto guardado e 70 filmes preservados.
Encerramento
Na noite desta terça, a partir das 20h acontece o encerramento da mostra, na Praça Tiradentes. Na ocasião o público irá conhecer o vencedor da mostra competitiva e a noite se encerra com o Cine Concerto, que tem a concepção e roteiro de Titane, Túlio Mourão, Franciane Curi, Papoula Bicalho.
















