Águas subterrâneas: Botafogo será sede do HidroGeoDia 2026
Comunidade de Botafogo, em Ouro Preto, se prepara para novo ato em defesa das águas subterrâneas, após ano marcado por crime ambiental e denúncias de fraudes no licenciamento de mineradoras
A edição de 2025 também aconteceu no Botafogo e foi marcada pela destruição de uma caverna - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
No sábado, dia 18 de abril, a Capela de Santo Amaro do Botafogo será novamente ponto de encontro de cientistas, moradores e ativistas. Eles se reúnem para a quarta edição do HidroGeoDia – evento global criado pela Associação Internacional de Hidrogeologistas para dar visibilidade à importância das águas subterrâneas e aos conflitos que as ameaçam.
A concentração está marcada para as 9h, e a caminhada percorrerá nascentes, cachoeiras e áreas de preservação ambiental da Serra do Botafogo, região estratégica que abastece cerca de 15 mil pessoas e contribui para as bacias dos rios das Velhas e Doce.
O evento acontece em um cenário de alerta. Há um ano, na madrugada do Dia Mundial da Água de 2025, a Mineradora Patrimônio foi flagrada por drones ao soterrar uma caverna natural dentro de sua área de exploração. O crime ambiental expôs as fraturas profundas do processo de licenciamento ambiental.
A mineradora está com suas atividades suspensas desde setembro do ano passado, quando a Operação Rejeito expôs uma organização criminosa suspeita de fraudar licenciamentos e pagar propinas a servidores públicos e conselheiros ambientais para conseguir minerar em locais que deveriam ser protegidos.
Um território que sangra água
A Serra do Botafogo guarda quatro aquíferos de valor incalculável: Canga, Cauê, Cercadinho e o Gandarela. Formações ferríferas bandadas, com alta porosidade e grande capacidade de infiltração, funcionam como gigantescas “esponjas geológicas” que armazenam e liberam água para dezenas de nascentes.
“Isso é um tesouro do ponto de vista de águas subterrâneas. A formação ferrífera que é tão almejada pelas mineradoras é um tesouro”, afirma a professora Adivane Costa, coordenadora da Cátedra UNESCO Água Mulher e Desenvolvimento (UFOP) e uma das organizadoras do HidroGeoDia.

O problema, explica ela, é que o mesmo minério de ferro que sustenta a economia extrativista é também o principal reservatório hídrico. “Quando você tira essa esponja geológica, secam as nascentes e morrem os rios.” Para extrair o minério, as mineradoras precisam rebaixar o lençol freático, bombeando milhões de litros para fora. Depois que a rocha é removida, a capacidade de armazenamento de água desaparece para sempre.
O cacique Danilo Borum-Kren, líder do povo Borum-Kren, resume a contradição em uma frase que ecoou no evento de 2025: “A gente não bebe minério de ferro, a gente bebe água.” Seu território ancestral abrange o Alto Rio Doce, o Alto Rio das Velhas e o Alto Paropeba. “Mineração? Isso é morte disfarçada de progresso. Nossa riqueza está na floresta em pé”, alertou na ocasião.
Crime ambiental na madrugada do Dia Mundial da Água
Em 22 de março de 2025, enquanto pesquisadores e ativistas participavam do HidroGeoDia na comunidade de Botafogo, máquinas da Mina Patrimônio operaram na calada da noite. O alvo: uma caverna natural localizada a menos de 100 metros da principal cava da mineradora.
Cientistas e ativistas, que monitoravam a área com drones, flagraram a aproximação das máquinas da entrada da caverna. O Ministério Público e a Polícia Ambiental foram acionados, mas, mesmo assim, a caverna foi completamente soterrada. “Isso é crime ambiental, desobediência à ordem policial e fraude nos documentos de licenciamento”, denunciou a arqueóloga Alenice Baeta à época.
O caso se tornou símbolo da emergência hídrica na região e levantou suspeitas sobre a lisura de todo o processo de licenciamento. Se a mineradora omitiu a existência de uma caverna, o que mais teria sido escondido? Após o soterramento da caverna, a Justiça chegou a suspender as operações da Patrimônio Mineração, mas um acordo judicial posterior permitiu a retomada das atividades.
A trégua durou pouco. Em outubro de 2025, a 2ª Vara Cível anulou o acordo e restaurou o embargo integral, desta vez com base nas revelações da Operação Rejeito. As investigações apontaram que a licença ambiental da empresa foi obtida mediante fraude e corrupção – incluindo o pagamento de R$ 500 mil em propina e a manipulação de decretos estaduais para livrar a mineradora de multas. Com o vício de origem na licença, o acordo foi declarado nulo, e as máquinas da Patrimônio voltaram a ser paralisadas na Serra do Botafogo.
HidroGeoDia 2026: caminhar, aprender e resistir

No dia 18 de abril, a comunidade volta às ruas – e às trilhas – para mais uma edição do HidroGeoDia. A concentração será às 9h na Capela de Santo Amaro do Botafogo, construção do século XVII que está em processo de tombamento e simboliza a resistência histórica do território.
A programação inclui uma caminhada guiada por nascentes, cachoeiras e áreas de mata, com paradas para rodas de conversa sobre hidrogeologia, licenciamento ambiental e direitos territoriais. Haverá também feirinha com lanche e almoço à venda, fortalecendo a economia local.
Os organizadores recomendam o uso de calçado fechado, roupas confortáveis (calça e manga longa), chapéu/boné, capa de chuva ou sombrinha, além de levar água própria. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas antecipadamente pelo link: forms.gle/HidroGeoDia2026
O evento é organizado pela Cátedra UNESCO Água Mulher e Desenvolvimento (UFOP), em parceria com o PET de Engenharia Geológica, a Associação de Moradores e Amigos do Botafogo (AMAB) e demais coletivos como @nucat.ufop, @preservebotafogo e @amab.ouropreto.

Lui Pereira
É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.







