Mariana (MG), 18 de junho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Atingidos denunciam ameaça de despejo em audiência na ALMG

Dez anos após o crime de Fundão, famílias de Barra Longa recebem ordens de saída de casas temporárias sem ter para onde ir, em meio a falhas na repactuação

Fotografia em plano médio e ângulo normal, tirada de trás das fileiras de um auditório, registrando uma audiência pública de uma comissão de direitos humanos.


No primeiro plano, à direita, uma mulher negra segura um grande cartaz improvisado de papel branco com textos escritos à mão em caneta escura e vermelha, além de fotos coladas. Apenas os olhos e parte do rosto da mulher aparecem acima do cartaz. O texto principal diz: "Diante disso tudo, ainda não me consideram atingida! Uma injustiça o que está acontecendo em Barra Longa! Queremos entrar para o Reassentamento. este é meu GRITO DE SOCORRO Olhem por BARRA LONGA!". Na parte inferior do cartaz, há fotos que mostram enchentes de lama e áreas atingidas por desastres ambientais.


À esquerda e ao centro, em planos médio e de fundo, veem-se as costas de várias pessoas sentadas nas poltronas escuras do auditório, assistindo à sessão.


Ao fundo, há uma longa bancada de madeira elevada onde estão sentadas cerca de dez pessoas (homens e mulheres de diferentes etnias), de frente para o público. No centro dessa bancada, há uma tela digital vermelha onde se lê "Comissão de Direitos Humanos". Na parede branca do lado direito, há uma televisão transmitindo a sessão e, abaixo dela, uma câmera de vídeo profissional em um tripé com um operador ao lado.

Fora do acordo de repactuação, moradores de Barra Longa não tem casa para onde ir em caso de despejo das moradias temporárias - Foto: Willian Dias/ALMG

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) foi palco, nesta terça-feira (2), de um contundente clamor por socorro. Durante reunião extraordinária da Comissão de Direitos Humanos, cerca de 40 famílias de Barra Longa denunciaram estar sob iminente risco de despejo por parte da mineradora Samarco.

Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015, moradores relatam o recebimento de notificações extrajudiciais, via WhatsApp e e-mail, concedendo prazos de apenas 30 dias para a desocupação de moradias temporárias custeadas pelas mineradoras.

A voz de quem vive na incerteza

Para os atingidos, a ordem de despejo é vista como uma renovação do crime ocorrido há mais de uma década. Márcia Pedroso, representante da Comissão de Atingidos de Barra Longa, relatou que sua família vive em casas de aluguel desde que sua residência original foi demolida em 2016 e nunca reconstruída. "A gente não quer briga, a gente quer o que é nosso", afirmou Márcia, destacando que o custo de vida na cidade inflacionou drasticamente: "o aluguel lá tá 2 mil, 3 mil, 4,5 mil... onde uma pessoa assalariada vai conseguir pagar um aluguel desses?", questionou.

Diversas famílias de Barra Longa ainda lutam pelo direito ao reassentamento - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

A situação é ainda mais grave para comunidades tradicionais. Simone Maria da Silva, do Quilombo de Gesteira, participou virtualmente e questionou a validade dos acordos que excluem a participação popular: "quem manda nas instituições de Justiça são as mineradoras... o que está acontecendo hoje adoece muito, ataca o emocional e o psicológico". Ela desafiou as empresas a reconstruírem as casas com os valores irrisórios oferecidos nas indenizações, como propostas de apenas R$8 mil para reconstrução integral.

Ana Clara Silva Martins, integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e atingida de Barra Longa, resumiu a determinação do grupo:
 

A gente não vai arredar o pé enquanto não tiver uma reparação definitiva. Não é justo, porque nós sofremos a violência e não sentamos em mesa nenhuma para responder, para assinar acordo e agora nós que temos que lidar com as consequências? Onde está a reparação integral?

Ana Clara Silva Martins, Atingida e integrante do MAB

 

O "pano de fundo" de uma década de lama

A crise habitacional em Barra Longa é um capítulo dramático de um desastre que desintegrou o tecido social das comunidades. Barra Longa foi o único município a ter seu centro urbano diretamente atingido pela lama de rejeitos, transformando a cidade em um canteiro de obras.

Muitos atingidos precisaram se tornar "atingidos profissionais", consumindo uma década na produção exaustiva de documentos para provar perdas que a lama levou. Enquanto os reassentamentos coletivos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo avançaram em Mariana, o distrito de Gesteira, em Barra Longa, segue sem sair do papel, deixando moradores em um limbo jurídico e físico.

Ao contrário dos moradores de Mariana, os atingidos de Barra Longa foram, em sua maioria, restritos a programas de recuperação de infraestrutura e reformas que se provaram ineficazes. Representantes da comunidade denunciam que essa distinção reflete um tipo de "racismo ambiental", visto que, em Barra Longa, mesmo propriedades severamente atingidas pela lama foram excluídas de soluções habitacionais definitivas. Como afirmou a atingida Márcia Pedroso na ALMG: "A Samarco quer construir casa nossa em área de risco, por que?".

O martírio de Dirlei: seis anos vivendo em um curral

O caso do domador de cavalos Dirlei José Madalena, do distrito de Barretos, simboliza a face mais cruel dessa política de reparação diferenciada. Antes da lama, Dirlei tirava 500 litros de leite por dia e vivia da criação de gado. Em 2018, a Fundação Renova propôs reformar a casa de sua família com a promessa de que as obras durariam apenas 30 dias.

As ruínas do que já foi a casa da família de Dirlei permanece no sítio - Foto: Larissa Antunes/Agência Primaz

O que deveria ser uma reforma rápida transformou-se em uma tragédia habitacional. Ao perceberem que o imóvel não suportaria a obra, a Renova demoliu a residência. "Fiquei morando no curral por seis anos. E se quisesse fazer qualquer coisa, tomar um banho, fazer qualquer coisa, tinha que usar o mato, você entende?", relatou Dirlei em depoimento à reportagem especial publicada pela Agência Primaz em novembro de 2025. Enquanto aguardava uma solução que nunca veio, Dirlei viu seu pai, idoso, "desgostar" da terra e abandonar o sítio onde viveu a vida toda.

A solução final apresentada pela mineradora para casos como o de Dirlei foi a indenização pecuniária, o que o produtor rural define como um método de "ou tudo ou nada". O valor oferecido, no entanto, foi apontado pelo domador  como insuficiente para reconstruir uma moradia digna no atual mercado imobiliário da região.

Dirlei explica que o custo logístico em distritos como Barretos inviabiliza obras particulares: "O custo para contratar um pedreiro em Barretos... a diária dele custaria quanto? Uns 500, 600 contos todo dia?", questionou. À época, ele morava em moradia temporária, em Mariana e percorria 106 km diariamente apenas para cuidar do pouco que restou de sua terra, em uma rotina exaustiva que começava às 4h da manhã e ia até a noite.

Lacunas na repactuação e omissões institucionais

A deputada Beatriz Cerqueira (PT), autora do requerimento para a audiência, classificou a situação como "inacreditável". "É óbvio que a criminosa não poderia fazer isso com as famílias. Jamais", afirmou a parlamentar, criticando a ideia de que, em Minas Gerais, "o crime compensa".

As instituições de Justiça reconheceram falhas no processo. A promotora Shirley Machado de Oliveira (MPMG) admitiu que o acordo atual é omisso quanto ao prazo final das moradias temporárias para quem não aceitou as propostas de indenização ou para quem era inquilino. Ela sugeriu a criação de um espaço de diálogo direto com a Samarco para tratar desses casos específicos.

O defensor público Antônio Lopes de Carvalho Filho propôs uma medida imediata: a convocação de uma reunião com a mineradora para tentar suspender as notificações de despejo.
 

Vamos canalizar o recurso para a parte final, para a ponta, para a pessoa que precisa que é o atingido. Não vamos ficar sustentando atividades que vivem da tragédia. Não vamos manter uma máquina, uma locomotiva igual foi a Fundação Renova e não manter uma máquina, uma locomotiva igual foi a Fundação Renova que tinha o incentivo de nunca resolver tudo, por que no momento que resolvesse tudo, deixaria de existir

Antônio Lopes de Carvalho Filho, Defensor Público

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Encaminhamentos e esperança

Ao final da reunião, foi aprovado o compromisso de que a Defensoria e o Ministério Público enviariam, já nesta quarta-feira (3), ofícios à Samarco solicitando a suspensão imediata das ordens de despejo. O governo estadual, representado por Paulo Roberto Paixão Bretas, da Sedese, afirmou que o Executivo acompanhará de perto os desdobramentos para somar esforços na resolução dos casos mais críticos.

Para as famílias, como a de Ernestina Evangelista, que relatou passar noites em claro por medo de ir para a rua, a audiência foi um grito por dignidade. "A gente não tem condição de pagar aluguel... estamos pedindo socorro", concluiu a moradora.

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