Caminhada Assombrada: causos e fantasmas nas ladeiras de Ouro Preto
Com cachaça, torresmo e histórias de fantasmas, passeio guiado por Marcelino Xibil leva participantes por igrejas, cemitérios e lendas da cidade durante a Quaresma
Entre causos e ladeiras, a noite da última quarta-feira marcou o coração dos vivos e dos mortos em Ouro Preto - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
A noite da última quarta-feira (4) começou do jeito que todo mineiro gosta: uma cachacinha, um torresminho e uma boa dose de causos assombrosos da região. Em plena Quaresma, período em que, dizem os mais antigos, é melhor evitar certas travessuras espirituais, um grupo de curiosos decidiu fazer exatamente o contrário: sair pelas ladeiras de Ouro Preto atrás delas.
Foi assim que começou a Caminhada Assombrada, conduzida pelo ator e contador de histórias Marcelino Xibil, ela reuniu estudantes, turistas e moradores dispostos a passar duas horas entre igrejas centenárias, cemitérios e narrativas que misturam história, folclore e aquele medinho gostoso que só Minas sabe provocar.

O percurso começou às 20h, na Igreja de São Francisco de Paula, e seguiu serpenteando pelas ladeiras até a Praça Tiradentes. No caminho: Cemitério de São José, vista da Igreja do Rosário dos Pretos, Igreja do Pilar, Largo da Alegria e a Casa de Ópera. Tudo isso iluminado por uma Ouro Preto ainda úmida da chuva, cenário perfeito para quem gosta de histórias que começam com “dizem que aconteceu aqui mesmo”.
E, para garantir a segurança espiritual do grupo, dois cachorros decidiram acompanhar o trajeto inteiro, assumindo espontaneamente o cargo de “cãoguardas” oficiais da caminhada.

A mulher de branco… e o cachorro corajoso
Logo no início, em frente à Igreja de São Francisco de Paula, Xibil começou com um clássico: o causo da mulher de branco. Segundo a história, uma jovem fofoqueira, que confessava até os pecados dos outros pro padre diariamente, resolve ficar na janela de tocaia, até que avista dezenas de pessoas saindo da Igreja, que ficava trancada à noite e indo em direção ao cemitério, que também, na teoria, estaria trancado.
Curiosa e disposta a tudo por um novo causo para “confessar”, ela resolve seguir essas pessoas e encontra uma misteriosa mulher vestida de branco que lhe entrega uma vela e a manda voltar para casa. “Você ainda não está pronta pra essa procissão menina”, gritou a mulher. Só depois a moça descobriria tratar-se da procissão das almas. Em casa notou ainda que não era uma vela que ela segurava e sim, um osso humano.
Coincidência ou não, havia uma participante vestida de branco no grupo naquela noite. Quando Xibil atingia o momento mais dramático da narrativa, um dos cachorros da caminhada pulou animadamente na tal mulher de branco improvisada. O resultado: gargalhadas gerais e um pacto coletivo imediato.
Se um cachorro não se assustou, ninguém mais tinha o direito de assustar também.

Entre cemitérios, novelas e um susto televisivo
A caminhada seguiu até o Cemitério de São José, onde Xibil contou um dos causos que mais arrancou risadas da noite. Era a história das freiras gêmeas Vanda e Vilma.
Depois de assistirem a um capítulo emocionante da novela Escrava Isaura, exibido num sábado de aleluia, as duas saíram cedo no domingo para comprar pão na padaria do Dico.
No caminho, passaram em frente ao cemitério de São José e deram de cara com o personagem Pai José, estendido sobre um túmulo. Apavoradas, voltaram correndo para casa, sem fôlego e, pior ainda, sem os pães. As freiras ficaram bravíssimas e já trataram então de castigá-las, proibindo-as de sair de casa.

Mas a surpresa viria mais tarde. Depois de saírem do castigo para participarem da procissão no domingo de Páscoa, as duas voltaram para casa por volta das 12:30. A madre então, veio aos berros avisar: “Vanda, Vilma tem visita para vocês.” As meninas foram correndo ver quem era e quase morreram de susto quando viram que quem estava na porta do convento era ninguém mais, ninguém menos que Haroldo de Oliveira, o ator que interpretava o Pai José, visitando Ouro Preto e o túmulo de seu personagem. Aí, todo mundo caiu na gargalhada.
Porque, em Ouro Preto, às vezes até a televisão resolve virar assombração.
O cavaleiro sem rosto e a chave perdida

Sob o chão úmido e o sereno que caía na noite, Xibil contou sobre um antigo sacristão devoto de São José, conhecido por frequentar os botecos do caminho entre o Pilar e a capela do Padre Faria, sempre a cavalo e quase sempre com uma cachacinha para esquentar aquele caminho frio.
Certo dia, ele perdeu a chave do sacrário. Desesperado com a possibilidade de alguém mexer no Santíssimo Sacramento, passou a cavalgar pelas ruas procurando a chave, sempre fazendo o mesmo caminho. Mas o devoto, nunca a encontrou.
Segundo o causo, ele nunca mais desmontou do cavalo. E até hoje, de madrugada, moradores dizem ouvir o trotar ecoando nas pedras de Ouro Preto, acompanhado por faíscas e a visão de um cavaleiro de cabelos longos… cujo rosto é apenas uma caveira.
A chave, dizem por aí, tem sete diamantes cravados. E quem encontrá-la deve devolvê-la ao sacrário. Porque só assim o cavaleiro finalmente descansará.
Mulas, lobisomens e tambores que não se calam

A caminhada seguiu pela cidade com histórias que misturam religiosidade, folclore e tradição oral. Na região do Largo da Alegria, Xibil apresentou causos do espetáculo “Causos de Brasêro”, trabalho que já completa 15 anos.
Entre eles, histórias clássicas do imaginário mineiro, a clássica dicotomia de que se uma família tiver sete filhas mulheres, a mais nova vira mula sem cabeça e se tiver sete filhos homens, o mais novo vira lobisomem.
Mas em Ouro Preto até o lobisomem tem solução espiritual. Segundo o causo, um deles só foi derrotado graças a um manjericão bento no Domingo de Ramos, usado por uma mulher chamada Conceição. O causo terminou do jeito que já tinha virado típico de Xibil, em meio a gargalhadas, quando ele afirmou o dia que a mãe dele tinha chamado os 6 irmãos para almoçar e só faltava ele, o caçulinha da família.
Medo? Só dos vivos
Entre os participantes, o clima alternava entre curiosidade e diversão. A cearense Maria Rosendo Brandão, que veio a Ouro Preto com colegas do Senai, contou que a visita começou por curiosidade. “Viemos conhecer porque o Marcelino estava fazendo apresentação lá no Senai e divulgando. Aí a gente pensou: vamos ver qual é”, disse.

E se aparecer algum fantasma? “Aí a gente olha pro outro lado”, respondeu, rindo.
Já Carla Souza Braga admitiu que a atração do passeio estava justamente na mistura de história com performance. “Ele faz umas performances bem bacanas e vai contando os causos. A gente vai andando e pensa: opa, tem história assombrada ali? Então vamos.”
Já Valesca Azevedo de Almeida, mineira de Visconde do Rio Branco, garantiu que estava preparada. Segurando um terço na mão, explicou: “É uma caminhada boa, com um medinho gostoso que faz parte da história de Minas. Mas medo eu não tenho não. Tenho medo é dos humanos.” E completou, levantando o terço: “Mas eu vim armada, né filha.”

Histórias que mantêm a cidade viva
Ao final da caminhada, já na Praça Tiradentes, Xibil encerrou a noite de forma inesperada: recitando trechos de seu livro “O Abraço”.

A obra nasceu em um momento delicado da pandemia. “Eu escrevi para o meu filho Pedro e para o meu pai. Pedro nasceu em março de 2020 e ficou seis meses sem encontrar o avô. Eu estava angustiado para dar um abraço no meu pai. Acho que todo mundo passou por isso”, contou. O livro narra a busca de uma criança pelo maior abraço do mundo.
Desde o lançamento, já vendeu mais de 50 mil exemplares, entrou no Plano Nacional do Livro Didático e Literário e recentemente virou um curta-metragem que começa a circular por festivais internacionais. Entre uma história e outra, o ator também anunciou que “Causos de Brasêro”, espetáculo que inspirou parte das narrativas da caminhada, deve virar livro ainda este ano.
Ouro Preto: onde história e assombração andam juntas

Para o estudante da UFOP João Vitor Oliveira Cunha, participar da caminhada foi uma forma diferente de conhecer a cidade onde mora há quase três anos. “Sou geólogo e a história de Ouro Preto é o começo de muita coisa no Brasil. A geologia, a civilização de Minas… tudo nasce aqui. O Xibil conta um pedacinho disso, um pouco da história, dos causos, pelo lado mais lúdico”, disse.
Segundo ele, esse tipo de tradição ajuda a manter vivas histórias que poderiam desaparecer. “Hoje são poucas pessoas que mantêm isso. Esse bate-papo, essa tradição oral. É muito legal participar e escutar.”
Ao final da noite, entre risadas, sustos falsos e histórias centenárias, uma coisa ficou clara:
Em Ouro Preto, a Quaresma pode até implorar por silêncio e reflexão. Mas as assombrações da cidade, essas definitivamente não tiram folga.
Como participar?
Para quem ficou curioso e quer se arriscar, siga o perfil de @marcelinoxibil no Instagram para saber das próximas caminhadas, que podem ser reservadas através do número: (31) 99262-6044.










Joyce Campolina
É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas







