No sábado, dia 4 de julho, estreia o curta-metragem “CABELUDA”, dirigido e roteirizado por Klevilaini, aluna de artes cênicas da UFOP e atriz do próprio filme. A exibição será gratuita e vai acontecer no Centro de Artes e Convenções da UFOP, em Ouro Preto, às 18h30. Após a mostra, o elenco estará presente para uma roda de conversa para a troca de experiências sobre a aceitação e identidade que o filme retrata.
CABELUDA
O curta nasceu pelas mãos de Klevilaini em uma disciplina do curso de artes cênicas da UFOP, em uma época que ela tinha cortado o cabelo e estava encontrando dificuldade para lidar com sua aparência.
“Foi quando eu tinha cortado o cabelo muito curtinho, tinha praticamente raspado a cabeça. Eu estava muito complexada em relação à minha imagem mesmo, de como que eu estava me vendo, de como que eu achava que as pessoas estavam me vendo. E isso me lembrou muito quando eu tava me formando no ensino médio. Foi um grande dilema, com que cabelo eu iria para fazer as fotos de formatura?”
Esse sentimento não é individual, Anita Pequeno, pesquisadora e autora do artigo “História Sociopolítica do Cabelo Crespo”, explica que a sociedade trata o cabelo crespo como inferior e isso reflete diretamente no modo como mulheres negras aprendem a se enxergar desde cedo.
De acordo com a pesquisadora, isso gera o esforço de transformação estética desde a infância, sendo esse um dos motivos do cabelo crespo ser símbolo de resistência.
Eventos importantes na formação de crianças e adolescentes trazem esse questionamento ainda mais forte quando precisam decidir a forma como querem aparecer em um momento que marcará sua vida, como a formatura. E foi justamente nessa época que Klevilaini entendeu o quanto o cabelo é importante na trajetória de pessoas negras.
“Mesmo que a gente se esforce, nosso cabelo realmente diz muito sobre a gente, diz muito sobre quem a gente é.
Identidade e aceitação
Por mais que esses questionamentos tenham sido o pontapé inicial para o roteiro do filme, Klevilaini ressalta que esse curta não mostra um sofrimento e sim o lado de acolhimento de sua família, da aceitação e identidade.
“É muito comum a gente ver as pessoas negras serem retratadas de uma maneira inferiorizada, de uma perspectiva de sofrimento. E esse curta ele não traz essa perspectiva. Claro que em alguns momentos mostra algumas violências do racismo, porque é isso, né? Infelizmente a gente tá numa sociedade racista. Mas esse não é o foco principal, esse não é o ponto principal. O ponto principal é a jornada dessa adolescente na construção da sua identidade para ir no baile de formatura”
Essa identificação retratada no filme vem muito da família de Fayola, a protagonista. Valorizar a sua ancestralidade e entender que seu cabelo pode representar para além de sua própria imagem, mas também a imagem de outras pessoas iguais é o que faz do filme tão diferente do que normalmente é retratado. “O curta traz esse espelho das famílias negras, de tentar criar um quilombo dentro de casa, sabe? De trazer essas referências positivas para que as crianças sejam fortalecidas, se tornem adolescentes fortalecidos e adultos com uma boa autoestima.”, completa a diretora.
A comunidade
Mas para Klevilaini, não seria correto trazer um filme sobre a força de uma comunidade sem viver isso na prática em seu set. A ficha técnica é, em sua maioria, composta por pessoas negras que levam nomes como Channdller, também diretor e Nilkliver, na produção. Também contou com o apoio do Gourmet da Claudinha com o espaço para a gravação das cenas, com o Tempero de Casa com o fornecimento de alimentação, do Coletivo Vila Pobre e da Casa de Cultura Negra.
Então, não apenas transformar o local de trabalho em um ambiente de identificação e com um clima agradável, mas com o apoio da PNAB foi possível pagar dignamente cada um dos presentes pelo seu trabalho.
A intenção de valorizar o trabalho de cada um que fez o projeto acontecer se estendeu também para a comunidade ouro-pretana. O filme foi gravado no Morro Santana, bairro afastado do centro da cidade, isso possibilitou que outras partes da população de Ouro Preto se sentissem representadas nessa peça audiovisual, mas também que os recursos circulassem por lá.
“Eu sempre fui muito bem recebida pelas pessoas da comunidade. E eu tenho tentado fazer esse movimento de retribuir para as pessoas o que as pessoas me dão, sabe? E aí eu acredito que uma das formas de retribuir é você apoiar mesmo, porque para mim não faz sentido estar aqui na cidade, aproveitar de tudo que a cidade dá, usufruir de tudo e não retribuir pras pessoas. O curta foi muito importante por ter esse dinheiro para poder investir mesmo, para poder contratar o serviço das pessoas, poder contratar o serviço da alimentação, poder contratar o serviço de produção, a gente gravou no Morro Santana, a gente precisava de uma casa para poder gravar. Então, poder alugar uma casa de uma pessoa no Morro Santana é super legal, sabe? Fez o dinheiro rodar dentro da comunidade.”
Para quem se interessou, a exibição do curta-metragem vai acontecer no Centro de Artes e Convenções da UFOP, em Ouro Preto, dia 4 de julho às 18h30.
Confira também a ficha técnica:
Direção:Channdller e Klevilaini
Roteiro: Klevilaini
Revisão: Mirian dos Santos
Produção: Nilkliver
Assist. de Produção: Luzia Nunes
Câmera e edição: Iasmin Ramalho
Áudio: Hugo Coelho
Assist. de áudio: Ana Bárbara
Música: Carla Sceno
Fotos: Amanda Gomes
Figurino: Channdller e Nicole Nativa
Maquiagem: Charolaine
Cabelo: Beatriz Luise, Charolaine e Julia Rocha
Consultora Financeira: Tayza Queiroz Xavier
Cenografia: Channdller, Luzia Gomes Nunes e Nilkliver
Catering: Nivea Rocha e Angela
Transporte: Alves AXV e Fellipe Santiago
Comunicação: MUVUKA
Atrizes: Ana Barbara, Ana Hungaro, Beatriz Luise, Bruno V, Flavia Lopes, Gabi Estarlino, Gustavo, Iodete Gomes, João Luis Resende, Klevilaini, Leila Santiago, Mari França, Maria Inez Pereira, Maria Júlia
Figurantes: Adelaide Leal, Alice, Aurea Martins, Carla Rejane, Charolaine, Diogo Pereira, Esther Silva, Gabi Augusta, Helena Gonçalves Rocha, Lais Amaral, Leandra Mariano, Luana Brunely, Luzia Gomes Nunes, Maria Eduarda Simão, Meyre Ashley, Stephany Leoncio, Tayza Queiroz Xavier, Viviane Silva, Vitória


