"Custo Mariana": Câmara cobra mineradoras por crise de moradia

Diácono alerta para "especulação absurda" e vereadores propõem comissão mista para enfrentar déficit habitacional e aluguéis abusivos

Atualizado em 04/03/2026 às 15:03, por Lui Pereira.

A imagem apresenta uma vista panorâmica da Vila Serrinha, uma ocupação urbana situada em uma encosta. A composição é dividida entre o casario denso, a vegetação e montanhas ao fundo sob um céu nublado.


Destaques da Imagem
O Casario: No centro e à direita, diversas casas se amontoam no relevo inclinado. As construções são simples, a maioria em tijolo aparente (cerâmica alaranjada) ou reboco cinza. Os telhados variam entre telhas de amianto cinza e telhas coloniais de barro. Algumas casas possuem lajes e caixas d'água azuis no topo.


A Paisagem Natural: * No primeiro plano, a parte inferior da imagem é dominada por uma vegetação densa e verde-escura, com algumas folhas em foco no canto inferior direito.


Ao fundo, uma imponente cadeia de montanhas onduladas e esverdeadas estende-se pelo horizonte.


O Céu: O dia está nublado, com nuvens pesadas em tons de branco e cinza claro. Algumas nuvens baixas (nevoeiro) tocam o topo das montanhas, sugerindo um clima úmido ou frio.


Cores e Iluminação: A iluminação é suave e difusa devido às nuvens. Predominam os tons de verde da natureza, o laranja dos tijolos e o cinza do céu, criando um contraste entre o ambiente construído e o natural.

A especulação imobiliária na região contribui para a criação de novas ocupações - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

A 5ª Reunião Ordinária da Câmara Municipal de Mariana, realizada nesta última segunda-feira (2), transformou-se em um fórum de denúncia contra o que lideranças locais chamam de "Custo Mariana", fenômeno que encarece a vida na cidade em 9,4% acima de municípios de tamanho e realidade semelhante, como João Monlevade.

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O debate foi impulsionado pela presença do Diácono Robson Adriano, representante da Campanha da Fraternidade 2026, que traçou um diagnóstico severo sobre a realidade local. Segundo ele, a "especulação imobiliária chega a beirar o absurdo em nossa região", forçando a população a enxergar as invasões de terra não como crime, mas como única saída por falta de alternativa habitacional.

 

O impacto das mineradoras

O Diácono Robson trouxe o relato de superlotação urbana, mencionando casas alugadas onde "mais de 25 pessoas moravam lá dentro", com paredes derrubadas para improvisar banheiros em espaços saturados, se referindo aos alojamentos criados pelas empresas ligadas à mineração.

A responsabilidade das mineradoras nesse cenário foi um ponto de convergência. Robson relembrou o conselho de Dom Luciano, que instava os vereadores a pressionarem as empresas que lucram com o solo da cidade a investirem na infraestrutura habitacional.

O vereador Ronaldo Bento corroborou a fala, ao apontar que o crime ambiental de 2015 descontrolou o mercado: “Tínhamos aluguéis de R$ 1 mil que passaram a valer R$ 4mil... quem trouxe isso foi a mineração”, afirmou.

 

O embate entre "CNPJ e CPF"

O aluguel de moradias por empresas, para a criação de alojamentos, leva famílias inteiras para regiões cada vez mais distantes - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

O presidente da casa, vereador Ediraldo Ramos, destacou que a valorização excessiva ocorre porque os proprietários priorizam contratos corporativos em detrimento das famílias locais. “Enquanto a briga entre CNPJ e CPF continuar, a especulação vai continuar. O locador prefere alugar para o CNPJ porque rende muito mais”.

Essa exclusão empurra a população para as ocupações da "Cidade Alta", onde vivem hoje cerca de 11 mil pessoas sob o medo constante do despejo. O vereador Marcelo Macedo reforçou que o aluguel médio em Mariana já atinge os R$2.700, tornando o custo com moradia o principal fator de empobrecimento das famílias.

 

Comissão Mista e reunião com empresas

Diante da gravidade dos relatos, o vereador Marcelo Macedo propôs a criação imediata de uma comissão mista envolvendo a Câmara, a Igreja e a sociedade civil para cobrar soluções efetivas.

Além disso, o vereador Ítalo de majelinha anunciou uma reunião agendada para o dia 10 de março com representantes das grandes empresas da cidade para discutir parcerias na construção de moradias populares e a venda de terrenos a preços módicos, na tentativa de retomar o modelo de vilas operárias que existia nas décadas de 70 e 80.

 

Desigualdade Habitacional – "Até os pássaros constroem onde morar"

No Brasil existem mais casas vazias do que pessoas buscando onde morar - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

Enquanto Mariana luta contra aluguéis inflacionados, o cenário nacional reforça que a moradia é tratada como mercadoria e não como direito social.

Em sessão especial na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), ocorrida na última segunda-feira (2), o deputado estadual Leleco Pimentel (PT) destacou um contraste inaceitável: o Brasil possui um déficit de 6 milhões de moradias, enquanto contabiliza 11,4 milhões de imóveis vazios.

 

Números da Desigualdade:

  • O país possui 90,7 milhões de domicílios, mas 6,6 milhões são de uso ocasional e milhares permanecem sem função social.
  • Atualmente, cerca de 300 mil pessoas vivem em situação de rua no Brasil.
  • O orçamento público destinado à habitação é considerado ínfimo diante de outras despesas federais, o que exige uma mudança na priorização dos recursos.


    A crise não é um problema isolado, mas uma questão estrutural que exige decisão política.

 

Até os pássaros constroem onde morar. Não podemos naturalizar que milhões de pessoas vivam sem teto enquanto há imóveis vazios

Leleco Pimentel, deputado

 

Na ocasião, o deputado defendeu o fortalecimento da Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana na ALMG para apoiar programas de autogestão e justiça social.

 

Campanha da Fraternidade

O tema da Campanha da Fraternidade este ano é a luta por moradia digna - Arte: Reprodução/CNBB

Tanto na Câmara Municipal quanto na ALMG, a mensagem da Campanha da Fraternidade foi utilizada para reforçar que a crise habitacional não é um problema isolado, mas uma questão estrutural que exige decisão política. A moradia é apresentada como a "razão para a pessoa conseguir todos os demais direitos", sendo a base para a saúde, educação e segurança jurídica das famílias.

A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil (CNBB) realizada anualmente durante a Quaresma há cerca de 65 anos. Longe de ser apenas uma reflexão religiosa interna, ela propõe temas de relevância social para despertar a caridade prática e o compromisso cívico entre fiéis e "homens e mulheres de boa vontade", incluindo os legisladores.

Em 2026, o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” convidam a sociedade a encarar a habitação como um direito fundamental e não apenas uma mercadoria. Conforme explicado pelo Diácono Robson Adriano na Câmara de Mariana, a campanha utiliza o método “Ver, Julgar e Agir”.

No "Ver", o objetivo é enxergar a realidade nua e crua: em Mariana, isso se traduz na especulação imobiliária absurda e no relato de casas superlotadas com mais de 25 pessoas. No "Julgar", à luz da doutrina social da Igreja e da dignidade humana é lançada sobre o problema. Por fim, o "Agir" demanda a criação de políticas públicas eficazes, como a proposta de uma comissão mista unindo Igreja, Câmara e sociedade civil para buscar uma solução para o problema.


Lui Pereira

É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.