Derrubada de ipê revolta moradores do Jardim dos Inconfidentes em Mariana
Vizinhança reclama da ausência de áreas verdes no bairro
Árvore cortada nesta semana era mais antiga que os prédios ao redor - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Ontem(21), dia da árvore, o bairro Jardim dos Inconfidentes amanheceu com uma grande árvore a menos na vizinhança. O ipê branco existia no local antes mesmo dos prédios da redondeza. Após décadas, a árvore foi removida para abrir espaço para a construção de mais um prédio. Além do Ipê, outras duas árvores foram suprimidas, uma leucena e uma mangueira.
Moradores relatam que na segunda-feira(20), já no período da noite, por volta de 19:30, começaram a ouvir sons de machadadas no terreno onde existia a árvore. A partir de então foram várias as tentativas para tentar preservar a árvore. “Nós tentamos ligar na polícia ambiental, tentamos ligar na guarda municipal ambiental, mas chegaram aqui já a noite, a gente ficou sem ter pra quem recorrer, tentamos chamar a polícia, mas eles também não vieram e no desespero o pessoal da vizinhança começou a gritar, tentamos fazer com que eles fossem embora, mas aí chamaram a polícia e eles vieram para dar cobertura para o pessoal cortar”, relata Maria Elisa, uma das vizinhas do ipê.
No último dia 8 foi o primeiro dia que tentaram cortar a árvore, removeram primeiro a mangueira e em seguida a vizinhança conseguiu suspender a remoção do ipê naquele dia. Após o ocorrido, os moradores buscaram o MP para tentar suspender a decisão da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMMADS) que autorizava a remoção. O procedimento não foi instaurado pois o terreno não é área de reserva e pertence ao perímetro urbano (cabe ao poder municipal e conselho municipal tutelar e considerar o clamor/interesse comum).
Fernanda, outra moradora da vizinhança lembra que o bairro, famoso por ter ruas com nomes de plantas, tem poucas áreas verdes e a remoção das árvores para a construção de mais prédios podem deixar o clima ainda mais seco e tirar a luminosidade da vizinhança.
Outro questionamento foi a forma como o ipê foi cortado, o horário que ocorreu e a falta de comunicação prévia, o que afeta tanto a segurança da vizinhança, quanto coloca as suspeitas sobre a ação: “Agiram em prol de uma minoria que tira vantagem às custas de injustiças, e além de ignorar e ridicularizar a opinião pública agem na calada da noite, acham que as sombras acobertam quase tudo”.

Em memória do ipê, um morador anônimo escreveu um poema/obituário em homenagem à árvore que junto com a mangueira traziam frescor, embelezavam, atraíam aves e alegravam a vizinhança que é tomada por prédios:
MORREU na noite de hoje, dia 20 de setembro, por volta das 19:30, um dos mais antigos moradores do bairro Jardim Inconfidentes. Na calada da noite, onde todos os gatos são pardos, onde os olhos não podem ver o acórdão dos injustos e onde a decisão final, nestes termos, parece sempre ser marcada por acordos escusos, morreu nosso Ipê. Ao que tudo indica, tombou frente a ganância. Não fosse assim, porque teria sido assassinado à noite? MORREU nosso IPÊ BRANCO. Tombou, e gritou de uma só vez, quando caiu… mas foi ignorado. Não encanta mais… não embeleza mais… não testemunha mais a grandeza do Criador… apenas, morto, atesta a ganância da criatura. Vão dizer que tinham autorização. Não duvido! O que ainda torna pior a situação!
Ah, como eu queria que este Ipê tivesse alma e assombrasse o sono de quem o fez tombar, com máquinas ou com autorizações executadas na calada da noite. Que não os deixassem dormir! Mas agora ele jaz e nós, atônitos, sem ter mais o que fazer!
Autor (talvez) não identificado!
O motivo alegado para a remoção das árvores é a construção da sede própria da Associação dos Servidores Municipais do Município de Mariana e a autorização para a remoção foi assinada pela secretária interina da SEMMADS, Denise Coelho de Almeida. Em nota, a Prefeitura Municipal de Mariana afirma que: “A autorização para a supressão foi emitida tendo em vista que o local onde a árvore se encontrava inviabilizava a execução da obra para a implantação da sede da associação. A condicionante imposta na emissão da autorização é o plantio de 10 novas mudas de árvores nativas em uma área verde do município”. Além dessas condicionantes, a ASSEMAR deverá plantar duas árvores no espaço externo da construção, logo após a conclusão das obras.
Tentamos contato com a ASSEMAR para questionar sobre o projeto, sobre os motivos que impediam a coexistência do edifício com as árvores e sobre prazos de execução da obra ou quais as árvores que seriam plantadas tanto na área externa à nova sede quanto nas áreas verdes do município, mas até o momento não conseguimos retorno.

Lui Pereira
É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.








