No número 134 da Rua Conde de Bobadela, a famosa Rua Direita de Ouro Preto, um sobrado de 260 anos guardava em suas entranhas um registro raro da história brasileira.
O que começou como uma reforma em 2017 para transformar o imóvel em restaurante acabou revelando cerca de 26 grafismos e inscrições feitas por mãos escravizadas nos séculos XVIII e XIX.
A descoberta, que deve se transformar no sítio arqueológico "Inscrições Afrodiaspóricas", tornou-se o centro da vida do historiador e arqueólogo Leonardo Klink.
O encontro entre a curiosidade e a ciência
A trajetória de Leonardo Klink com o casarão começou por um acaso que virou obsessão acadêmica. Ele conta que soube do painel em 2019, através das primeiras notícias, enquanto ainda cursava a graduação no Sul de Minas. “O interesse retomou quando vim fazer o mestrado em Belo Horizonte, na UFMG. Visitei Ouro Preto em 2022 e me bateu a lembrança da notícia”, recorda Leonardo.
Ao perceber que não havia uma produção científica profunda sobre o tema, ele decidiu transformar o achado em seu projeto de doutorado. Para o pesquisador, o local era um convite ao estudo da subjetividade humana em condições extremas. “Fui atrás na internet, não achei nada. Falei: 'já se passaram anos, como pode não ter uma produção sobre o que se tratava?'”, explica o historiador.
O segredo como resistência: o "Pacto Iconográfico"
O diferencial desta descoberta não reside apenas na beleza dos traços, mas no contexto em que foram criados. O porão é um espaço frio, escuro, parcialmente aterrado e com pé-direito de apenas 1,50 m. Para o pesquisador Leonardo Klink, essas condições não eram apenas geográficas, mas simbólicas.
Segundo a interpretação que tenho desenvolvido, essas execuções parecem ter sido produzidas em meio a segredos compartilhados entre seus autores, quase como um pacto iconográfico
Em uma sociedade que atacava constantemente a humanidade da população negra, o porão tornou-se um refúgio da autonomia. “Em um espaço apartado, estreito e baixo da casa, essas pessoas encontraram maneiras de preservar memórias, cenas e elementos que consideravam importantes manter vivos”, completa o pesquisador.
Marcas de várias mãos e gerações
As análises técnicas revelam que o painel não é obra de uma única pessoa, mas um esforço coletivo que atravessou décadas. Leonardo, que é também arqueólogo e antropólogo, identifica variações nas técnicas utilizadas na criação dos painéis, que incluem incisões diretas na argamassa e o uso de pigmentos pretos e avermelhados.
A hipótese de que esses registros foram produzidos por diferentes pessoas, talvez chegando a uma dezena de indivíduos, parte da disposição dos desenhos, das visíveis diferenças de espessura dos traços, das dimensões e das temáticas
A própria durabilidade das imagens é um ponto de destaque. Leonardo explica que a técnica de incisão na argamassa foi fundamental para que as marcas chegassem ao século XXI: “Diferente dos pigmentos, ela não pode simplesmente ser apagada”.
O pesquisador sugere ainda que o painel funcionou como um canal de comunicação entre gerações: “Alguns talvez tenham convivido entre si naquele espaço, enquanto outros podem ter ‘encontrado’ os registros apenas através da própria parede gravada, anos depois”, detalha.





A recuperação da humanidade silenciada
Entre os desenhos, foram identificadas embarcações que podem aludir à travessia atlântica, máscaras de tradições da África Centro-Ocidental e até animais como leopardos e guepardos. Para o pesquisador, cada traço é uma peça no quebra-cabeça para devolver a dignidade a indivíduos que a história oficial tentou apagar.
“De certa forma, isso também ajuda a 'recuperar' a humanidade a essas pessoas anônimas e às suas manifestações. Não temos seus rostos e nomes, mas sinais de lembranças que deixaram”, reflete Leonardo.
O estudioso reforça que o sítio ajuda a deslocar o olhar centrado apenas no barroco e nas elites coloniais, mostrando que os espaços subterrâneos eram muito mais complexos do que a simples classificação de "senzalas urbanas".
O futuro da visitação
Embora o local tenha relevância nacional já reconhecida pelo Iphan, o acesso ao público ainda deve demorar. O administrador do imóvel, Philipe Passos, destaca que a abertura é uma “obrigação com o passado e com o futuro” e com quem sofreu as consequências da escravização.
No entanto, o imóvel é privado e passa por adaptações estruturais exigidas pelo governo para garantir a conservação das inscrições, com expectativa de visitação pública apenas para o próximo ano.


