As ruas históricas do município de Mariana guardam há mais de um século os ecos dos dobrados, marchas e retretas vindo de suas 11 corporações musicais. No entanto, por trás das estantes de partituras e dos cargos de tomada de decisão, a condução dessas instituições esteve, durante gerações, restrita aos homens.
Esse cenário secular começou a ser reescrito com a eleição de mulheres para a presidência e para a gestão executiva de algumas Bandas Marciais da região.
Em entrevista à Agência Primaz, Aline Idilvane, pedagoga de instituição de Educação Infantil, Mestra em Educação pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e primeira mulher presidente nos 125 anos da Sociedade Musical União XV de Novembro, e Eliene Santos, jornalista, musicista e primeira mulher a presidir a Sociedade Musical Oito de Dezembro em 112 anos de história, compartilharam suas vivências.
Durante a conversa, elas detalharam os laços afetivos de família, o desafio da gestão de pessoas no trabalho voluntário e o impacto da criação da Primeira Banda Feminina de Mariana.
As bandas como espaço de formação cidadã
Para as duas gestoras, o ingresso na música não ocorreu de forma isolada, mas integrado à dinâmica familiar e comunitária de Mariana. Eliene recorda que iniciou seus estudos aos 12 anos por incentivo direto do pai e do avô, ambos músicos da Oito de Dezembro. Inicialmente hesitante, encontrou no aprendizado instrumental um caminho de identificação que já dura 19 anos.
“A gente não aprende só música lá dentro. A gente aprende outras coisas também, como ser uma pessoa melhor na sociedade, a gente cria laços e cria amizades.”
Aline trilhou caminho semelhante na Sociedade Musical União XV de Novembro, a tradicional "banda da Rua Direita", onde ingressou aos 12 anos seguindo os passos de seu avô, de seu pai que era tarolista, de seus tios e de seu tio Cilito, ex-presidente da instituição. Para ela, a corporação opera como uma segunda família, onde os laços ultrapassam a prática musical e se consolidam na formação humana e social de crianças e jovens.
“A banda tem esse lado de formação social, cidadã, mas pessoal também. A gente vai construindo muitos laços de afetividade e amizades que vamos levando ao longo da vida.”

A presidência inédita
Apesar da presença histórica de mulheres nas bancadas, o acesso aos cargos executivos das diretorias levou mais de um século para se concretizar. Eliene Santos, que já integrava a diretoria da Oito de Dezembro como secretária desde 2015, tomou a iniciativa de formar uma chapa em setembro de 2023, convidando outras mulheres para compor a gestão. Com aprovação unânime, tornou-se a primeira presidente da história centenária da corporação Oito de Dezembro.
“Depois que passou a eleição, eu falei: 'Gente, 112 anos de história e eu sou a primeira mulher presidente. Como assim? Como não teve nenhuma outra antes?' Fiquei muito feliz e sei da responsabilidade.”
Na União XV de Novembro, Aline assumiu a presidência com a consciência do legado deixado por questões históricas, como a de Amadeu da Silva,que presidiu a corporação por 40 anos e a de seu tio Cilito. Para ela, a chegada de uma mulher ao topo da gestão representa a consolidação de um direito de ocupação de espaços que pertencem a todos.
“Hoje em dia eu fico surpresa quando paro para pensar: em 124 anos, a primeira mulher presidente. São espaços que a gente vem ocupando aos poucos e que são para todos.”

A gestão voluntária e os estereótipos nos naipes
Administrar uma sociedade musical requer equilíbrio entre burocracia, captação de recursos e, principalmente, a gestão de pessoas. Por se tratar de um serviço totalmente voluntário, tanto as presidentes quanto os demais diretores e músicos doam seu tempo livre e renunciam a momentos de lazer para garantir o funcionamento das sedes e a realização das apresentações.
Paralelamente às atribuições administrativas, as presidentes acompanham uma transformação na distribuição dos instrumentos. Historicamente, existia uma divisão informal que direcionava as mulheres para a bancada de palhetas, reservando os metais e a percussão aos homens.
Hoje, esse padrão tem sido quebrado com a presença de mulheres tocando baterias, pistões, trompetes e bombardinos nas corporações de Mariana.
“Hoje na 8 de dezembro eu fico muito feliz porque, além de ser a primeira mulher presidente, a gente tem a primeira mulher bombardinista e a primeira mulher baterista. Mulheres, toquem o que vocês quiserem tocar.”
A Primeira Banda Feminina de Mariana
Um dos marcos recentes da música marianense foi a criação da Primeira Banda Feminina de Mariana, proposta idealizada no âmbito da Associação de Bandas (AMARBandas). O projeto reuniu mais de 60 musicistas vindas de todas as 11 corporações musicais do município para um desfile histórico pelas ruas do Centro Histórico.
A iniciativa não apenas evidenciou o talento técnico das instrumentistas em todos os naipes, mas também serviu como estímulo para o retorno de musicistas que haviam se afastado das bandas. A repercussão criou a esperança de que a Banda Feminina se consolide e viaje mundo afora como equipe.
“Ver a maioria das mulheres de todas as bandas ali foi um presente mesmo, de ver a potência de outras mulheres ocupando e tocando vários outros instrumentos.”

Formação acadêmica e perspectivas de futuro
A atuação de ambas na gestão é diretamente enriquecida por suas trajetórias profissionais e acadêmicas. Aline utiliza sua bagagem como mestra em educação e pedagoga para aprimorar o diálogo interpessoal, a escrita de projetos e o fortalecimento do papel social da escola de música.
Já Eliene aplica sua formação em Jornalismo na assessoria de imprensa, produção de textos, cobertura fotográfica e gestão das redes sociais da Oito de Dezembro.
Olhando para o futuro, as corporações mantêm agendas intensas de apresentações, festivais e celebrações comunitárias. A Sociedade Musical União XV de Novembro prepara uma programação especial para comemorar seus 125 anos de fundação nos dias 14 e 15 de novembro, enquanto a Oito de Dezembro cumpre compromissos em festejos religiosos e no projeto Banda na Praça, além de uma surpresa que ainda não podia ser revelada, mas com a promessa de que virá a público no início de outubro.
Ao final da entrevista, as presidentes deixaram uma mensagem para quem deseja ingressar no universo musical ou apoiar as corporações do município.
“Não tem idade e nem gênero. Criança, adulto, idoso... a gente não se torna só músico, a gente se torna uma pessoa bem melhor.”
“A gente precisa de todo mundo dentro da banda. Seja como musicista, seja como apoiador para prestigiar, porque receber um aplauso motiva a gente a se doar mais.”
Assista agora mesmo a entrevista completa abaixo no YouTube, no Spotify ou na sua plataforma de podcast favorita.
