Mariana (MG), 15 de outubro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo

Entrevista Primaz - Aline Idilvane e Eliene Santos

Duas presidentes pioneiras contam como romperam mais de um século de hegemonia masculina para gerir corporações seculares, abrir espaço nos naipes e reger o futuro das bandas de música do interior de minas

Aline e Eliene em entrevista com Gisele Santoli

Aline e Eliene em entrevista com Gisele Santoli - Foto: Joyce Campolina / Agência Primaz

As ruas históricas do município de Mariana guardam há mais de um século os ecos dos dobrados, marchas e retretas vindo de suas 11 corporações musicais. No entanto, por trás das estantes de partituras e dos cargos de tomada de decisão, a condução dessas instituições esteve, durante gerações, restrita aos homens. 

Esse cenário secular começou a ser reescrito com a eleição de mulheres para a presidência e para a gestão executiva de algumas Bandas Marciais da região.

Em entrevista à Agência Primaz, Aline Idilvane, pedagoga de instituição de Educação Infantil, Mestra em Educação pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e primeira mulher presidente nos 125 anos da Sociedade Musical União XV de Novembro, e Eliene Santos, jornalista, musicista e primeira mulher a presidir a Sociedade Musical Oito de Dezembro em 112 anos de história, compartilharam suas vivências. 

Durante a conversa, elas detalharam os laços afetivos de família, o desafio da gestão de pessoas no trabalho voluntário e o impacto da criação da Primeira Banda Feminina de Mariana.

As bandas como espaço de formação cidadã

Para as duas gestoras, o ingresso na música não ocorreu de forma isolada, mas integrado à dinâmica familiar e comunitária de Mariana. Eliene recorda que iniciou seus estudos aos 12 anos por incentivo direto do pai e do avô, ambos músicos da Oito de Dezembro. Inicialmente hesitante, encontrou no aprendizado instrumental um caminho de identificação que já dura 19 anos.

“A gente não aprende só música lá dentro. A gente aprende outras coisas também, como ser uma pessoa melhor na sociedade, a gente  cria laços e cria amizades.”

Eliene Santos, presidente da Sociedade Musical Oito de Dezembro

Aline trilhou caminho semelhante na Sociedade Musical União XV de Novembro, a tradicional "banda da Rua Direita", onde ingressou aos 12 anos seguindo os passos de seu avô, de seu pai que era tarolista, de seus tios e de seu tio Cilito, ex-presidente da instituição. Para ela, a corporação opera como uma segunda família, onde os laços ultrapassam a prática musical e se consolidam na formação humana e social de crianças e jovens.

“A banda tem esse lado de formação social, cidadã, mas pessoal também. A gente vai construindo muitos laços de afetividade e amizades que vamos levando ao longo da vida.”

Aline Idilvane , presidente da Sociedade Musical União XV de Novembro


 

Entrevista Primaz - Aline Idilvane e Eliene Santos

A presidência inédita

Apesar da presença histórica de mulheres nas bancadas, o acesso aos cargos executivos das diretorias levou mais de um século para se concretizar. Eliene Santos, que já integrava a diretoria da Oito de Dezembro como secretária desde 2015, tomou a iniciativa de formar uma chapa em setembro de 2023, convidando outras mulheres para compor a gestão. Com aprovação unânime, tornou-se a primeira presidente da história centenária da corporação Oito de Dezembro.

“Depois que passou a eleição, eu falei: 'Gente, 112 anos de história e eu sou a primeira mulher presidente. Como assim? Como não teve nenhuma outra antes?' Fiquei muito feliz e sei da responsabilidade.”

Eliene Santos

Na União XV de Novembro, Aline assumiu a presidência com a consciência do legado deixado por questões históricas, como a de Amadeu da Silva,que presidiu a corporação por 40 anos e a de seu tio Cilito. Para ela, a chegada de uma mulher ao topo da gestão representa a consolidação de um direito de ocupação de espaços que pertencem a todos.

“Hoje em dia eu fico surpresa quando paro para pensar: em 124 anos, a primeira mulher presidente. São espaços que a gente vem ocupando aos poucos e que são para todos.”

Aline Idilvane


 

Entrevista Primaz - Aline Idilvane e Eliene Santos

A gestão voluntária e os estereótipos nos naipes

Administrar uma sociedade musical requer equilíbrio entre burocracia, captação de recursos e, principalmente, a gestão de pessoas. Por se tratar de um serviço totalmente voluntário, tanto as presidentes quanto os demais diretores e músicos doam seu tempo livre e renunciam a momentos de lazer para garantir o funcionamento das sedes e a realização das apresentações.

Paralelamente às atribuições administrativas, as presidentes acompanham uma transformação na distribuição dos instrumentos. Historicamente, existia uma divisão informal que direcionava as mulheres para a bancada de palhetas, reservando os metais e a percussão aos homens. 

Hoje, esse padrão tem sido quebrado com a presença de mulheres tocando baterias, pistões, trompetes e bombardinos nas corporações de Mariana.

“Hoje na 8 de dezembro eu fico muito feliz porque, além de ser a primeira mulher presidente, a gente tem a primeira mulher bombardinista e a primeira mulher baterista. Mulheres, toquem o que vocês quiserem tocar.”

Eliene Santos

A Primeira Banda Feminina de Mariana 

Um dos marcos recentes da música marianense foi a criação da Primeira Banda Feminina de Mariana, proposta idealizada no âmbito da Associação de Bandas (AMARBandas). O projeto reuniu mais de 60 musicistas vindas de todas as 11 corporações musicais do município para um desfile histórico pelas ruas do Centro Histórico.

A iniciativa não apenas evidenciou o talento técnico das instrumentistas em todos os naipes, mas também serviu como estímulo para o retorno de musicistas que haviam se afastado das bandas. A repercussão criou a esperança de que a Banda Feminina se consolide e viaje mundo afora como equipe.

“Ver a maioria das mulheres de todas as bandas ali foi um presente mesmo, de ver a potência de outras mulheres ocupando e tocando vários outros instrumentos.”

Aline Idilvane


 

Entrevista Primaz - Aline Idilvane e Eliene Santos

Formação acadêmica e perspectivas de futuro

A atuação de ambas na gestão é diretamente enriquecida por suas trajetórias profissionais e acadêmicas. Aline utiliza sua bagagem como mestra em educação e pedagoga para aprimorar o diálogo interpessoal, a escrita de projetos e o fortalecimento do papel social da escola de música. 

Já Eliene aplica sua formação em Jornalismo na assessoria de imprensa, produção de textos, cobertura fotográfica e gestão das redes sociais da Oito de Dezembro.

Olhando para o futuro, as corporações mantêm agendas intensas de apresentações, festivais e celebrações comunitárias. A Sociedade Musical União XV de Novembro prepara uma programação especial para comemorar seus 125 anos de fundação nos dias 14 e 15 de novembro, enquanto a Oito de Dezembro cumpre compromissos em festejos religiosos e no projeto Banda na Praça, além de uma surpresa que ainda não podia ser revelada, mas com a promessa de que virá a público no início de outubro.

Ao final da entrevista, as presidentes deixaram uma mensagem para quem deseja ingressar no universo musical ou apoiar as corporações do município.

“Não tem idade e nem gênero. Criança, adulto, idoso... a gente não se torna só músico, a gente se torna uma pessoa bem melhor.”

Eliene Santos

“A gente precisa de todo mundo dentro da banda. Seja como musicista, seja como apoiador para prestigiar, porque receber um aplauso motiva a gente a se doar mais.”

Aline Idilvane


 

Assista agora mesmo a entrevista completa abaixo no YouTube, no Spotify ou na sua plataforma de podcast favorita.
 

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