Entrevista Primaz – Cláudio Coração

Professor da UFOP e pesquisador da música brasileira reflete sobre a "educação sentimental" do país, o papel da arte em tempos de crise e o lançamento de seu novo livro

Atualizado em 19/03/2026 às 14:03, por Lui Pereira.

A imagem mostra dois homens sentados à mesa em um estúdio de gravação da Agência Primaz. O ambiente possui paredes revestidas com espuma acústica cinza-escura em formato de blocos. À esquerda: O convidado Cláudio Coração, um homem de pele clara, cabelos e barba curtos e grisalhos. Ele sorri para a câmera, veste uma camisa azul-marinho e segura uma caneca metálica com o logotipo da Agência Primaz na mão direita. Com a mão esquerda, ele segura seu livro sobre a mesa. À direita: O jornalista Lui Pereira, um homem de pele clara, cabelos pretos e barba curta. Ele veste uma camiseta preta e aparece no momento em que toma um gole de café em uma caneca metálica preta, cobrindo parte do rosto. Com a outra mão, ele segura um exemplar do livro de Cláudio. Ao centro: Sobre a mesa de madeira rústica, há um microfone condensador profissional e um tablet apoiado. Ao fundo, fixada na parede entre os dois homens, uma TV exibe a capa do livro de Cláudio Coração, intitulado Bêbados Trajando Luto. A capa tem cores vibrantes em tons de laranja, amarelo e azul.

O professor Cláudio Coração conversou com Lui Pereira no estúdio da Agência Primaz – Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Na edição desta semana da Entrevista Primaz, recebemos o professor e pesquisador Cláudio Coração. Docente do curso de Jornalismo da UFOP há 12 anos e "marianense de coração", Cláudio acaba de lançar a obra "Bêbados Trajando Luto: Movimentos Críticos, Contracultura e Música Popular nos Anos 1970". 

No bate-papo, ele detalha como canções icônicas de Gal Costa, Elis Regina, Jards Macalé e Caetano Veloso funcionam como espelhos das aflições e sonhos da sociedade brasileira.

 



Um "marianense de coração" na docência

Cláudio relembrou sua trajetória desde a posse na UFOP, em março de 2014, curiosamente no dia de seu aniversário. Vindo de Bauru (SP) em meio às turbulências das Jornadas de Junho de 2013, o professor destacou sua paixão por Mariana e a importância da sala de aula como espaço de troca geracional. 

Para ele, o interesse dos novos estudantes por repertórios de décadas passadas, como as obras de Belchior, reforça o papel do jornalismo cultural na formação de um espírito crítico e sensível.
 

"Bêbados Trajando Luto" e a liberdade

O livro, definido como um "ensaio inventivo", nasceu de uma pesquisa de mais de dez anos e reflete as vivências do autor na região dos Inconfidentes. Cláudio utiliza a epígrafe do poeta Laudeir Borges para guiar a obra: "liberdade é uma revolta e dói para nascer".

A imagem do "bêbado trajando luto" é apresentada como uma síntese da incompletude brasileira, uma nação que, segundo o autor, parece estar sempre em um processo de reconstrução sobre escombros.

As canções como fios da história A entrevista mergulhou nas quatro canções-eixo que estruturam o livro:

  • "Vapor Barato" (Gal Costa): Um grito visceral e desafinado que capturou a aflição dos exilados em 1971.
     
  • "Movimento dos Barcos" (Jards Macalé): O símbolo da ressaca e da complexidade da resistência artística.
     
  • "O Bêbado e a Equilibrista" (Elis Regina): O hino da anistia que, para Cláudio, mantém uma relevância perturbadora diante de traumas nacionais recorrentes.
     
  • "Cajuína" (Caetano Veloso): Uma homenagem a Torquato Neto que simboliza a "abertura solar" e a esperança de um novo Brasil no fim dos anos 70.
     

O sentido de urgência da contracultura hoje

Ao final da conversa, Cláudio Coração fez uma análise sobre o uso contemporâneo do termo "contracultura". Ele alertou para a apropriação de retóricas "anti-sistema" por movimentos reacionários e confirmou que a verdadeira contracultura é um gesto de resistência contra forças opressivas e arcaicas. Evocando os versos de "Divino Maravilhoso", o professor reforçou a necessidade de estarmos "atentos e fortes".


Assista ao vídeo no YouTube ou ouça pelo Spotify:


Lui Pereira

É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.