Entrevista Primaz – Cláudio Coração
Professor da UFOP e pesquisador da música brasileira reflete sobre a "educação sentimental" do país, o papel da arte em tempos de crise e o lançamento de seu novo livro
O professor Cláudio Coração conversou com Lui Pereira no estúdio da Agência Primaz – Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Na edição desta semana da Entrevista Primaz, recebemos o professor e pesquisador Cláudio Coração. Docente do curso de Jornalismo da UFOP há 12 anos e "marianense de coração", Cláudio acaba de lançar a obra "Bêbados Trajando Luto: Movimentos Críticos, Contracultura e Música Popular nos Anos 1970".
No bate-papo, ele detalha como canções icônicas de Gal Costa, Elis Regina, Jards Macalé e Caetano Veloso funcionam como espelhos das aflições e sonhos da sociedade brasileira.

Um "marianense de coração" na docência
Cláudio relembrou sua trajetória desde a posse na UFOP, em março de 2014, curiosamente no dia de seu aniversário. Vindo de Bauru (SP) em meio às turbulências das Jornadas de Junho de 2013, o professor destacou sua paixão por Mariana e a importância da sala de aula como espaço de troca geracional.
Para ele, o interesse dos novos estudantes por repertórios de décadas passadas, como as obras de Belchior, reforça o papel do jornalismo cultural na formação de um espírito crítico e sensível.
"Bêbados Trajando Luto" e a liberdade
O livro, definido como um "ensaio inventivo", nasceu de uma pesquisa de mais de dez anos e reflete as vivências do autor na região dos Inconfidentes. Cláudio utiliza a epígrafe do poeta Laudeir Borges para guiar a obra: "liberdade é uma revolta e dói para nascer".
A imagem do "bêbado trajando luto" é apresentada como uma síntese da incompletude brasileira, uma nação que, segundo o autor, parece estar sempre em um processo de reconstrução sobre escombros.
As canções como fios da história A entrevista mergulhou nas quatro canções-eixo que estruturam o livro:
- "Vapor Barato" (Gal Costa): Um grito visceral e desafinado que capturou a aflição dos exilados em 1971.
- "Movimento dos Barcos" (Jards Macalé): O símbolo da ressaca e da complexidade da resistência artística.
- "O Bêbado e a Equilibrista" (Elis Regina): O hino da anistia que, para Cláudio, mantém uma relevância perturbadora diante de traumas nacionais recorrentes.
- "Cajuína" (Caetano Veloso): Uma homenagem a Torquato Neto que simboliza a "abertura solar" e a esperança de um novo Brasil no fim dos anos 70.
O sentido de urgência da contracultura hoje
Ao final da conversa, Cláudio Coração fez uma análise sobre o uso contemporâneo do termo "contracultura". Ele alertou para a apropriação de retóricas "anti-sistema" por movimentos reacionários e confirmou que a verdadeira contracultura é um gesto de resistência contra forças opressivas e arcaicas. Evocando os versos de "Divino Maravilhoso", o professor reforçou a necessidade de estarmos "atentos e fortes".
Assista ao vídeo no YouTube ou ouça pelo Spotify:

Lui Pereira
É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.





