Na Entrevista Primaz dessa semana recebemos Leonardo Nogueira, professor do departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto, parte da organização da Jornada Universitária da Reforma Agrária da UFOP e pesquisador nas áreas da formação social brasileira, cultura e sociedade: relações patriarcais de gênero, raça/etnia, sexualidade e classe, Serviço Social e movimentos sociais. Nessa oportunidade conversamos sobre a última JURA-UFOP e 2 de seus livros que discutem a pauta LGBTQIAPN+ no Brasil: O Brasil fora do armário e Hasteemos a bandeira colorida.

A reforma agrária e a universidade
A reforma agrária é um assunto recorrentemente discutido no Brasil e que envolve importantes temas como a soberania alimentar, sustentabilidade e justiça social. De acordo com Leonardo, é impossível imaginar um futuro para o Brasil sem falar da reforma agrária e de seus benefícios para todos, não apenas para quem mora no campo.
'O país do futuro é um país em que a terra é partilhada, em que a terra é dividida para que as pessoas possam permanecer e produzir de maneira saudável, de maneira sustentável, de maneira agroecológica naquela terra”
O professor ressalta que existe uma diferença crucial que precisa ser tratada ao falar do tópico, entre o que sustenta a economia e o que alimenta o povo: "a gente não come commodity". Enquanto grandes latifúndios focam na exportação de soja, milho e algodão, é a agricultura familiar a responsável pela maior parte da comida que chega à mesa dos brasileiros, como arroz, feijão, frutas e hortaliças. Portanto, apoiar a reforma agrária é, diretamente, apoiar a segurança alimentar de toda a sociedade.
Dessa forma, a JURA-UFOP foi criada pensando em encurtar as distâncias e integrar o saber técnico e a realidade rural. Usando espaços da universidade, mas convidando a população para dentro desses locais, a UFOP se torna um espaço de diálogo, pesquisa e troca de saberes.
Conexão com a Mineração e Saberes Tradicionais
Na região dos Inconfidentes, o debate ganha uma relevância extra ao conectar a questão agrária à soberania popular na mineração. A reforma agrária propõe um modelo que se contrapõe ao sistema atual, buscando proteger os modos de vida locais e o meio ambiente contra crimes ambientais e a desestruturação social.
Além disso, a luta pela terra está ligada à preservação da memória e da ancestralidade. Através do manejo da terra e de alimentos tradicionais, como a mandioca e o amendoim, resgatam-se histórias de vida e identidades que formam o tecido social brasileiro. Em suma, a reforma agrária é apresentada pelo entrevistado como um interesse coletivo: "refletindo sobre o projeto de sociedade que a gente quer para o Brasil, é fundamental discutir o tema da reforma agrária", afirma Leonardo.
O Enfrentamento ao "Pânico Moral" e Fake News
Leonardo relata que a produção de suas obras, os livros "Brasil Fora do Armário" e “Hasteemos a bandeira colorida”, ocorreram em um período de forte acirramento político no país. Ele aponta que, especialmente a partir de 2018, a população LGBT passou a ser alvo de ataques sistemáticos no debate público.
'A partir das eleições de 2018 fomos colocados no posto de dos grandes inimigos da família brasileira'.
Segundo o professor, esse cenário foi alimentado por desinformação: "As fake news praticamente induziam a população a pensar que o LGBT tá destruindo a sociedade, destruindo os valores, destruindo as famílias". Ele argumenta que esse "pânico moral" evitou discussões reais sobre a violência sofrida por essa população, que muitas vezes é excluída e enfrenta graves problemas de saúde mental devido ao crime de homofobia que sofrem no dia a dia.

Colorir o Projeto Popular para o Brasil
Para Nogueira, a afirmação da diversidade também deve estar no centro das discussões sobre o futuro do Brasil. Ele defende que a luta contra o patriarcado e contra a lgbtfobia é uma defesa do próprio tecido social brasileiro para evitar a "barbárie" e o retrocesso.
O conceito de "colorir o projeto popular para o Brasil" surge como uma síntese de sua visão:
'Colorir no sentido de brincar com a ideia da bandeira LGBT, que tenhamos as cores dessa bandeira em todo esse projeto político'.
Como assistente social e docente, Leonardo vê a universidade como um bastião de resistência e acolhimento. Ele destaca que, embora o cenário fosse diferente há 16 anos, hoje as universidades assumiram um protagonismo na resposta coletiva contra o preconceito.
A profissão de Serviço Social, segundo ele, está intrinsecamente ligada a esse combate: "O serviço social é uma profissão muito comprometida com a defesa dos direitos humanos, a conduta e ação profissional naquele aspecto é fundamental quando ela se dá nesse sentido de afirmação da diversidade", completa
Ele cita campanhas históricas da categoria, como "O amor fala todas as línguas", que visam qualificar o atendimento para que profissionais não reproduzam preconceitos, especialmente contra identidades trans.
Ao final, o professor deixa um conselho aos estudantes e futuros profissionais: que não ignorem suas próprias histórias de vida e militância ao entrar na academia. Para ele, o engajamento político e a vivência pessoal são elementos que enriquecem a formação técnica e a atuação no mundo.
Confira a entrevista completa abaixo, pelo Spotify ou na sua plataforma de podcast favorita.


