Mariana (MG), 13 de agosto de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Entrevista Primaz - Leonardo Nogueira

#PraTodosVerem #PraCegoVer: Fotografia em plano médio, capturada em um estúdio de gravação. Duas pessoas estão dispostas lado a lado, sentadas em cadeiras pretas atrás de uma mesa de madeira rústica, sorrindo para a câmera. À esquerda, um homem de pele clara, cabelos curtos tingidos de loiro e barba aparada veste uma camisa social branca de mangas curtas e calça escura. Ele usa óculos de grau de armação preta e arredondada. À direita, uma mulher de pele clara e longos cabelos castanho-escuros com franja veste uma camisa social branca aberta sobre uma blusa escura e calça verde-oliva. Ela está com os braços apoiados sobre a mesa, ao lado de uma agenda ou caderno preto fechado. Sobre a mesa de madeira, entre os dois, há um microfone de estúdio prateado fixado em um suporte e canecas de metal. Ao fundo, as paredes são totalmente revestidas por placas retangulares de espuma acústica preta. Centralizada entre os dois participantes, há uma tela de televisão fixada na parede que exibe o logotipo azul e branco do programa Entrevista Primaz, onde se destaca o elemento que remete à torre da Câmara de Mariana.

Defender, apoiar, estimular a agricultura familiar, luta pela reforma agrária, é algo que não interessa apenas a quem vive na terra interessa a nós como sociedade - Foto: Maria Clara Cardoso/ Agência Primaz

Na Entrevista Primaz dessa semana recebemos Leonardo Nogueira, professor do departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto, parte da organização da Jornada Universitária da Reforma Agrária da UFOP e pesquisador nas áreas da formação social brasileira, cultura e sociedade: relações patriarcais de gênero, raça/etnia, sexualidade e classe, Serviço Social e movimentos sociais. Nessa oportunidade conversamos sobre a última JURA-UFOP e 2 de seus livros que discutem a pauta LGBTQIAPN+ no Brasil: O Brasil fora do armário e Hasteemos a bandeira colorida.

A reforma agrária e a universidade

A reforma agrária é um assunto recorrentemente discutido no Brasil e que envolve importantes temas como a soberania alimentar, sustentabilidade e justiça social. De acordo com Leonardo, é impossível imaginar um futuro para o Brasil sem falar da reforma agrária e de seus benefícios para todos, não apenas para quem mora no campo. 

'O país do futuro é um país em que a terra é partilhada, em que a terra é dividida para que as pessoas possam permanecer e produzir de maneira saudável, de maneira sustentável, de maneira agroecológica naquela terra”

Leonardo Nogueira

O professor ressalta que existe uma diferença crucial que precisa ser tratada ao falar do tópico, entre o que sustenta a economia e o que alimenta o povo: "a gente não come commodity". Enquanto grandes latifúndios focam na exportação de soja, milho e algodão, é a agricultura familiar a responsável pela maior parte da comida que chega à mesa dos brasileiros, como arroz, feijão, frutas e hortaliças. Portanto, apoiar a reforma agrária é, diretamente, apoiar a segurança alimentar de toda a sociedade.

Dessa forma, a JURA-UFOP foi criada pensando em encurtar as distâncias e integrar o saber técnico e a realidade rural. Usando espaços da universidade, mas convidando a população para dentro desses locais, a UFOP se torna um espaço de diálogo, pesquisa e troca de saberes.

Conexão com a Mineração e Saberes Tradicionais

Na região dos Inconfidentes, o debate ganha uma relevância extra ao conectar a questão agrária à soberania popular na mineração. A reforma agrária propõe um modelo que se contrapõe ao sistema atual, buscando proteger os modos de vida locais e o meio ambiente contra crimes ambientais e a desestruturação social.

Além disso, a luta pela terra está ligada à preservação da memória e da ancestralidade. Através do manejo da terra e de alimentos tradicionais, como a mandioca e o amendoim, resgatam-se histórias de vida e identidades que formam o tecido social brasileiro. Em suma, a reforma agrária é apresentada pelo entrevistado como um interesse coletivo: "refletindo sobre o projeto de sociedade que a gente quer para o Brasil, é fundamental discutir o tema da reforma agrária", afirma Leonardo.

O Enfrentamento ao "Pânico Moral" e Fake News

Leonardo relata que a produção de suas obras, os livros "Brasil Fora do Armário" e “Hasteemos a bandeira colorida”, ocorreram em um período de forte acirramento político no país. Ele aponta que, especialmente a partir de 2018, a população LGBT passou a ser alvo de ataques sistemáticos no debate público.

'A partir das eleições de 2018 fomos colocados no posto de dos grandes inimigos da família brasileira'.

Leonardo Nogueira

Segundo o professor, esse cenário foi alimentado por desinformação: "As fake news praticamente induziam a população a pensar que o LGBT tá destruindo a sociedade, destruindo os valores, destruindo as famílias". Ele argumenta que esse "pânico moral" evitou discussões reais sobre a violência sofrida por essa população, que muitas vezes é excluída e enfrenta graves problemas de saúde mental devido ao crime de homofobia que sofrem no dia a dia.

Colorir o Projeto Popular para o Brasil

Para Nogueira, a afirmação da diversidade também deve estar no centro das discussões sobre o futuro do Brasil. Ele defende que a luta contra o patriarcado e contra a lgbtfobia é uma defesa do próprio tecido social brasileiro para evitar a "barbárie" e o retrocesso.

O conceito de "colorir o projeto popular para o Brasil" surge como uma síntese de sua visão:

'Colorir no sentido de brincar com a ideia da bandeira LGBT, que tenhamos as cores dessa bandeira em todo esse projeto político'.

Leonardo Nogueira

Como assistente social e docente, Leonardo vê a universidade como um bastião de resistência e acolhimento. Ele destaca que, embora o cenário fosse diferente há 16 anos, hoje as universidades assumiram um protagonismo na resposta coletiva contra o preconceito.

A profissão de Serviço Social, segundo ele, está intrinsecamente ligada a esse combate: "O serviço social é uma profissão muito comprometida com a defesa dos direitos humanos, a conduta e ação profissional naquele aspecto é fundamental quando ela se dá nesse sentido de afirmação da diversidade", completa

Ele cita campanhas históricas da categoria, como "O amor fala todas as línguas", que visam qualificar o atendimento para que profissionais não reproduzam preconceitos, especialmente contra identidades trans.

Ao final, o professor deixa um conselho aos estudantes e futuros profissionais: que não ignorem suas próprias histórias de vida e militância ao entrar na academia. Para ele, o engajamento político e a vivência pessoal são elementos que enriquecem a formação técnica e a atuação no mundo.
 

Confira a entrevista completa abaixo, pelo Spotify ou na sua plataforma de podcast favorita.

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