Na edição desta semana da “Entrevista Primaz”, a conversa é com Silvia Gomes, cantora, atriz e artista mineira que há mais de 25 anos transita entre diferentes linguagens da arte. Nascida em Itabirito, criada em Cachoeira do Campo e com uma forte ligação com Ouro Preto, Silvia carrega na bagagem histórias que passam pelo teatro, pela palhaçaria, pelo samba e por encontros que ajudaram a construir sua trajetória.
Ao longo da entrevista, ela relembra as primeiras experiências com a arte, fala sobre a parceria com o compositor Mestre Jonas, explica de onde vem o seu “samba da roça”, conta como a ancestralidade e a espiritualidade aparecem em sua música e abre o jogo sobre os desafios de viver de arte no interior. E, claro, também revela o que vem por aí.
Antes do samba, o teatro
Quem conhece Silvia principalmente pelo samba muitas vezes pode se surpreender ao descobrir que sua história com os palcos começou bem antes da música.
Aos 11 anos, ainda em Cachoeira do Campo, ela começou a fazer teatro sob orientação da Irmã Eunice Grossi, ex-atriz e bailarina que também dava aulas de literatura. A experiência acompanhou Silvia durante a adolescência e, em 1994, ela ingressou no curso de Teatro do IFAC/UFOP.
E se o teatro já fazia parte da sua vida, a palhaçaria veio para ampliar ainda mais esse repertório. Foi com o diretor Rodrigo Robleño que Silvia ganhou o nome de palhaça Microfonia.
No começo, ela chegou a se perguntar como todas aquelas linguagens poderiam caber em uma mesma artista. A resposta veio do próprio mestre: não era preciso escolher. A Microfonia também estava presente quando Silvia cantava.A experiência acabou levando para o samba ferramentas como improviso, presença de palco e, principalmente, uma relação mais espontânea com o público.

Quando a música encontrou Mestre Jonas
Silvia estreou na música em 1998, com o grupo Mandrágora. Dois anos depois, conheceu aquele que se tornaria um dos nomes mais importantes de sua trajetória: o compositor e sambista Mestre Jonas.
A parceria foi longe. Juntos, lançaram o disco Fusca Azul, em 2001, fizeram turnês e participaram de projetos que movimentaram a cena cultural em Belo Horizonte.
Silvia acabou se tornando uma das principais intérpretes e defensoras da obra de Mestre Jonas. Uma relação que, segundo ela, ultrapassava a própria música.
Depois da morte repentina do compositor, em 2011, Silvia decidiu voltar para Ouro Preto. A mudança representou também uma espécie de reencontro com suas raízes e com a vontade de fazer arte a partir do lugar onde sempre se sentiu pertencente.
Mas afinal, o que é o “samba da roça”?
É aí que entra uma das expressões que melhor ajudam a entender o trabalho de Silvia Gomes.
A “artista da roça”, como ela própria se define, encontrou no termo “samba da roça” uma maneira de falar sobre o samba feito no interior de Minas. E não se trata apenas de uma questão de localização.
Para Silvia, é sobre identidade, memória e liberdade para fazer samba a partir das próprias referências, sem precisar deixar o interior para construir uma carreira.“Esse samba da roça que eu identifico é a nossa forma emocional de fazer o samba”, explica a cantora.
O conceito também passa por valorizar compositores mineiros, manter as tradições vivas e reconhecer a força cultural da região dos Inconfidentes.

Um samba que também é reza
Quem escuta o trabalho de Silvia encontra muito mais do que samba. Seu repertório é atravessado por manifestações de matriz africana e pela memória cultural de Minas, com referências ao congado, afoxé, moçambique, maracatu e jongo.
Essa mistura aparece com força em seu primeiro álbum solo, Canto para Recomeçar, lançado em 2023. Em Canto para Janaína, por exemplo, Silvia canta sobre Iemanjá e estabelece uma relação entre a memória da população negra escravizada e o “mar de montanhas” mineiro. Já em Reza, o samba encontra a espiritualidade e as tradições de terreiro.
Para a cantora, tudo isso está conectado: música, território, fé, ancestralidade e memória.
Tá tudo tão conectado, tudo tem muito a ver com reza, com tradições africanas e com essa memória mesmo de território que, no meu ponto de vista, tá dentro da gente
Uma roda para chamar de nossa
Foi também depois de retornar para Ouro Preto que Silvia colocou em prática uma ideia que continua fazendo parte de sua trajetória: o Esse Samba Todo É Nosso.
Criada em 2016, a roda de samba acontece mensalmente e recebe convidados diferentes a cada edição. A proposta é simples, mas potente: reunir pessoas, artistas e diferentes sotaques do samba em um encontro feito para o público.
O projeto nasceu de forma independente e se tornou uma maneira de ocupar o território com música e fortalecer o samba na região dos Inconfidentes.

Viver de arte não é só subir no palco
Por trás dos shows, das rodas e dos discos existe uma parte da vida artística que nem sempre aparece para quem está do outro lado: as contas.
Silvia fala abertamente sobre as dificuldades de viver exclusivamente da arte no interior. A instabilidade financeira, a falta de políticas públicas estruturadas e a dificuldade de manter projetos independentes fazem parte da rotina de quem escolhe a cultura como profissão.
“É muito delicado você tá aflito que não conseguiu comprar o botijão de gás e ter que cantar bonito um samba emocionante, mas a gente vai lá e canta emocionante. né?”, desabafa.
Ela também chama atenção para outra questão: chegar ao próprio território. Silvia conta que, apesar de se arrepiar com o seu público a acompanhando em uníssono em suas rodas de samba, almeja chegar em todos os públicos.
Quero que quando falem que Silvia Gomes vai tocar na Praça Tiradentes, vejo gente de todos os bairros descendo para ouvir a minha música. Chegar ao meu território inteiro ainda é um desafio
Tem disco novo vindo aí?
Depois de Canto para Recomeçar, Silvia já está de olho no próximo passo.
A artista pretende lançar um novo álbum no próximo ano e conta que sente falta daquele período de pesquisa, descoberta de músicas e escolha do repertório que vai dar o tom para uma nova fase.
Enquanto isso, segue apresentando as músicas do primeiro trabalho solo, que já ganharam espaço nas apresentações e na memória do público. “Quero fazer um álbum novo no próximo ano. Tô com saudade desse lugar de pesquisar repertório, de compreender qual o próximo passo, o que eu vou cantar agora”, revela.
Entre lembranças, música, teatro, palhaçaria, ancestralidade e os desafios de fazer cultura no interior, Silvia Gomes mostra que sua trajetória não cabe em uma única definição.
Ela é cantora, atriz, palhaça, produtora e, acima de tudo, uma artista que escolheu fincar os pés no território para construir sua própria maneira de fazer arte.
Na “Entrevista Primaz”, Silvia conta essa história com detalhes, fala sobre Mestre Jonas, explica o que existe por trás do “samba da roça”, compartilha os próximos capítulos de sua caminhada e muito mais. Sigam ela no Instagram e no Spotfy
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