Na edição desta semana da “Entrevista Primaz”, a conversa é com Thais Bertolin, fotógrafa e a artista visual por trás da exposição “Bem Dizer”, atualmente no Museu Alphonsus Guimarães e no mês de outubro será exposta em Ouro Preto.
Como nasceu a artista em Thais?
Nascida no interior do Mato Grosso, Thaís iniciou sua relação com a fotografia aos 17 anos, ao ganhar uma câmera analógica usada de sua mãe e aprender noções básicas com o antigo dono. Inicialmente autodidata e fascinada pelo processo de fixação das imagens no papel, Thaís descobriu a fotografia na Espanha e, posteriormente, aprofundou seus estudos nos processos químicos de laboratório e técnicas históricas de revelação.
Apesar de sua dedicação, a transição para se reconhecer como artista foi um processo gradual. Sua primeira exposição coletiva ocorreu em 2013, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, momento em que enfrentou a famosa síndrome da impostora e não compareceu ao evento.
O ponto de virada foi na exposição "Santuários", organizada pela curadora Altina Felício, onde Thais retratou uma bailarina em fotogravuras, o que a ajudou a entender o corpo humano como um sagrado íntimo, consolidando sua linguagem artística autoral. Em São Paulo, Thaís é também uma das co-fundadoras do Atelier Ácido, um espaço coletivo voltado para a gravura e artes visuais que promove ateliês abertos e cursos gratuitos.

Benzer com palavras
O projeto "Bem Dizer" nasceu em 2014, fruto de um momento de inquietação pessoal em que a artista se sentia desconectada de suas raízes e do sagrado. Ao refletir sobre como suas avós lidavam com questões emocionais e físicas sem o suporte da medicina moderna, Thais resgatou memórias de infância em que sua mãe a levava às benzedeiras.
Movida por esse resgate, iniciou uma pesquisa dedicada a mapear e registrar a sabedoria de benzedeiras, curandeiras, erveiras e raizeiras pelo Brasil. A expedição já percorreu diversas regiões e comunidades do país, registrando pelo Paraná, pelo Mato Grosso, pelo Pará, pela Amazônia, por São Paulo e por Minas Gerais.
Ao longo do projeto, Thaís percebeu que a fotografia isolada não conseguia capturar toda a complexidade do benzimento. Para traduzir o cheiro do mato, a força da palavra e o toque da terra, a artista expandiu a mostra para uma instalação multissensorial.
Em parceria com a artista Tainá Denardi, trechos marcantes das entrevistas com as benzedeiras foram bordados em tecidos, remetendo ao "paninho que cura" utilizado por muitas delas.
O som da exposição foi concebido pelo artista mineiro Barulhista, combinando sussurros de orações, o som do vento e o badalar dos sinos característicos de Mariana e Ouro Preto.
A exposição também inclui monotipias em voal e plantas vivas. No Museu Casa Alphonsus de Guimaraens, em Mariana, as mudas de ervas foram cultivadas em latas e potes reaproveitados pelo jardineiro e erveiro do museu, Seu Geraldo, reproduzindo com certa fidelidade os quintais das benzedeiras.

A calma como um estilo de vida
A escolha por utilizar exclusivamente câmeras e filmes analógicos foi deliberada. Thaís destaca que o suporte analógico impõe um tempo próprio de espera e precisão, diferente da urgência do meio digital. Esse ritmo conecta-se à dinâmica das próprias benzedeiras, cujos saberes dependem do tempo das luas e do cultivo das ervas.
Para conseguir fotografá-las, a artista dedicou horas e horas apenas conversando, tomando chá e estabelecendo laços de confiança antes de sacar a câmera. Desses encontros,Thais tirou ensinamentos profundos, Dona Tila foi quem a ensinou sobre cuidar da "luzinha interna" que Deus coloca no peito de cada ser humano para que ela não se apague. Já Dona Ana foi quem a lembrou que, muitas vezes, a busca por cura para uma dor física é na verdade a necessidade de um simples abraço.
Ensinamentos
Essa vivência proporcionou a Thaís uma reconexão com a própria fé, o aprendizado sobre o uso medicinal dos chás e uma maior autonomia sobre a saúde.
Um dos pilares centrais de "Bem Dizer" é o foco intencional na figura feminina. Thaís estabelece um paralelo histórico entre as benzedeiras e as mulheres perseguidas durante a Inquisição, apontando o apagamento sistemático que as mulheres sofreram na história da medicina, onde eram proibidas de estudar, apesar de serem as guardiãs originais dos partos e das ervas.
Em Mariana, Thaís registrou a história de Dona Efigênia, uma benzedeira de 93 anos considerada um patrimônio vivo da comunidade. O objetivo principal da exposição é eternizar essa tradição oral, permitindo que as novas gerações reconheçam a importância e sintam orgulho do legado de suas antepassadas.
A exposição fica aberta no Museu Casa Alphonsus de Guimaraens, em Mariana, até o final de setembro, seguindo para a Galeria Nelo Nuno, em Ouro Preto, a partir de 9 de outubro.

Onde acompanhar
Você pode acompanhar Thais Bertolin pelo Instagram oficial da artista: ting.impressions ou pelo instagram oficial do Ateliê Ácido.
Assista agora mesmo a entrevista completa abaixo no Youtube, pelo Spotify, ou na sua plataforma de podcast favorita.
