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Estudante da UFOP encontra clipe perdido de Rita Lee

Rafael Borsatto, estudante de jornalismo, localizou registro de 1983 da "Padroeira da Liberdade" que ela mesma classificou como "vexaminoso" e "cafona" em sua biografia

Frame do videoclipe da canção Baila Conmigo. A cantora Rita Lee está deitada de forma relaxada em uma rede de cordas brancas. Ela ocupa o centro da composição, com o corpo inclinado para a esquerda. Rita Lee: Aparece com seus icônicos cabelos ruivos escuros e franja reta. Ela veste uma blusa sem mangas com listras verticais largas e coloridas em tons de verde, azul, amarelo e rosa. Seu braço direito está dobrado atrás da cabeça e o esquerdo flexionado à frente, com a mão próxima ao rosto. Ela olha para a câmera com a boca levemente aberta. Cenário: O ambiente é externo e ensolarado. Ao fundo, à direita, há um arbusto com flores brancas e amarelas. À esquerda, vê-se uma parede de tijolos escuros. Detalhes Técnicos: No canto superior esquerdo, há o logotipo branco da emissora espanhola rtve. A imagem tem uma textura de vídeo analógico dos anos 80, com iluminação natural direta que destaca as cores vibrantes do figurino.

Rita Lee no videoclipe “Baila Conmigo” - Foto: reprodução/RTVE

A história da música brasileira ganhou um novo capítulo esta semana graças à persistência de um estudante de Mariana. Rafael Borsatto, aluno do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), é o pesquisador responsável por localizar um videoclipe de Rita Lee que era considerado perdido há mais de 40 anos e inédito no Brasil.

O registro raro da canção "Baila Comigo" (em sua versão em espanhol, "Baila Conmigo") foi encontrado por Borsatto no portal de streaming da emissora espanhola RTVE. 

O vídeo foi originalmente exibido em 28 de abril de 1983 no programa de variedades “Otras Cosas”, apresentado pelo icônico Joaquín Prat. Até então, o clipe era inédito no Brasil, tendo circulado apenas em países de língua espanhola e nos Estados Unidos para promover o álbum internacional da artista.
 

O “vexame” que Rita Lee queria deletar

A descoberta traz à luz um dos episódios mais curiosos da trajetória de Rita Lee. Em sua autobiografia de 2016, a cantora dedicou páginas para descrever o clipe com desdém, chamando a gravação de “vexaminosa”, “cafona” e uma das “cagadas” que ela preferia não contar a ninguém.

No vídeo, Rita aparece em dois cenários: uma casa e uma praia (possivelmente em Miami ou no México), com dois figurinos. Na casa ela veste um conjunto composto por calça e colete manga-curta de retalhos coloridos e as cenas são da cantora deitada em uma rede e cantando enquanto caminha pelos cômodos. 

Já na praia, a cantora está com um vestido branco com tule ao pôr do sol, onde a cantora canta, dança e encara a câmera durante sua performance. A artista chegou a escrever que, se houvesse algum registro, os fãs deveriam, por gentileza, deletar. 

Contrariando o desejo da "Rainha do Rock", a redescoberta feita a partir de Mariana é celebrada por admiradores como um item de imenso valor histórico e estético, preenchendo uma lacuna na videografia da cantora.

A descoberta do videoclipe de "Baila Comigo" só foi possível graças ao arquivo da RTVE (Televisión Española), que preservou a edição do programa “Otras Cosas”, exibida originalmente em 28 de abril de 1983.

O programa era um "magacine" de variedades de grande alcance, que misturava entrevistas culturais, ecologia, moda e atrações musicais de peso. Naquela edição específica, dividiram o palco com Rita Lee nomes como as atrizes Amparo Rivelles e Rosa Valenti, além de bandas que marcavam o cenário espanhol da época, como Olé Olé.
Luta pela preservação da memória
A paixão de Rafael Borsatto pela obra de Rita Lee não é um entusiasmo recente, mas uma dedicação que remonta à sua infância, quando, aos seis anos de idade, já trocava a compra de brinquedos por discos, CDs e revistas da artista. 
O que começou como um hobby de colecionador evoluiu para uma pesquisa acadêmica e técnica rigorosa, levando o estudante de jornalismo da UFOP a se tornar um dos principais colaboradores do canal "Baú Rita Lee", após iniciar uma parceria com o criador do projeto, Daniel Fernandes, em 2022. Para Borsatto, o trabalho de resgate envolve uma verdadeira arqueologia digital: ele utiliza seu acervo pessoal, escaneia materiais antigos, explora aplicativos de áudio raro e vasculha minuciosamente sites estrangeiros em busca de registros que o tempo tentou apagar.
Nessa busca, o pesquisador identifica um fenômeno que considera "inacreditável": a vasta quantidade de memória da música brasileira preservada em arquivos europeus, como na RTVE (Espanha), RAI (Itália), RTP (Portugal) e em emissoras francesas, que mantêm acervos praticamente completos de programas de variedades. 
Borsatto utiliza essa descoberta para pontuar uma crítica construtiva à gestão cultural brasileira, lamentando que, ao contrário das instituições europeias, o Brasil ainda careça de uma cultura de preservação voltada para a música. 

É uma pena que, por aqui, o foco acabe sendo quase exclusivamente em novelas, enquanto programas musicais e de variedades históricos acabam se perdendo por falta de arquivamento adequado

Rafael Borsatto, pesquisador


Rafael ainda destaca a importância dos grupos de fãs e colecionadores no papel vital de guardiões dessa herança cultural. O estudante nota, entretanto, um despertar recente no cenário nacional. Ele cita iniciativas como o Globoplay e o SBT como exemplos de que as emissoras brasileiras estão começando a olhar para o passado. "O Brasil está começando a ter essa cultura agora, mas o foco ainda é muito voltado para as novelas", observa Rafael. Para ele, programas musicais e de variedades, como o que preservou o clipe de Rita Lee na Espanha, ainda sofrem com a falta de arquivamento adequado por aqui.
Joaquín Prat

O anfitrião da atração era Joaquín Prat (1927–1995), considerado um dos maiores ícones da história do rádio e da televisão na Espanha. Conhecido por sua voz potente e extrema elegância, Prat é lembrado até hoje pelo público espanhol pelo bordão "¡A jugaaar!", que imortalizou no programa El precio justo.

Para os pesquisadores, o fato de Rita Lee ter sido apresentada por Joaquín Prat não foi um mero detalhe. Na década de 80, a presença de um artista em seu programa funcionava como um "selo de qualidade", com um peso semelhante ao de apresentar um videoclipe no Fantástico, o que demonstra o prestígio internacional que a "Rainha do Rock" gozava no cenário europeu e hispânico naquele período.

O programa serviu como uma vitrine de luxo para a promoção do álbum Rita y Roberto no mercado externo.

Adaptações culturais e o brilho internacional

A versão recuperada por Borsatto apresenta a letra adaptada por Ray Girado, que buscou manter a sonoridade original para o mercado hispânico. Entre as mudanças curiosas, o “pardal” tornou-se “gorrión” e o “bicho-preguiça” foi substituído pela expressão “bicho raro”. 

O clipe, que se encerra com um beijo romântico em contraluz entre Rita e seu parceiro Roberto de Carvalho, agora está disponível no canal de YouTube “Baú Rita Lee”, administrado por Daniel Fernandes em colaboração com o estudante da UFOP, Rafael Borsatto. 

Já a edição completa do programa "Otras Cosas", de 28 de abril de 1983 está disponível na plataforma RTVE Play, o videoclipe é apresentado no minuto 14:30.

Assista abaixo a "lost media" recém encontrada:

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