Cerimônia de formatura em Ouro Preto

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Atualizado em 03/06/2022 às 12:06, por Andreia Donadon Leal.

Foto: Andreia Donadon Leal/Arquivo pessoal

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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Andreia Donadon Leal:

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Ouro Preto é uma cidade de encantos; presépio a céu aberto repleto de casarões, vielas estreitas, morros por todos os cantos e uma arquitetura de prender o fôlego. Frio cortante numa bela noite de comemoração. Céu noturno esfumaçado de vermelho-laranja e um toque discreto de roxo, numa linha tênue similar à margem de uma folha de papel. Espessa bruma no alto da montanha, sem lua e sem estrelas. Este outono tem sido de gelo tórrido embaçado. Formandos exibem suas becas com faixas vermelhas na cintura, nesse cenário de intenso frio ouropretano.

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Gestos efusivos explicitam contentamentos de cada estudante e de seus familiares, que ao longo de quatro anos dedicaram suas vidas aos estudos. Cada um é protagonista de suas conquistas, histórias, labutas, alegrias, frustrações, choros e sorrisos. 22 anos atrás, entro pelo teatro com extrema timidez. Mãe grita da cadeira. Não tem faixa nem confetes para jogar em mim, quando passo sobre o tapete vermelho. Burburinho de euforia dos colegas de classe, enquanto meu coração batia feito um relógio descompensado. Respirei fundo para parar de tremer… A mãe desta formanda grita de contentamento, orgulho e emoção. Aguardo a entrada da filha dela, também. Supus que fosse filha, logo que ela apareceu na entrada. Cópia da mãe, de cabeça levantada e um sorriso estampado no rosto. Não era momento ‘pra’ eu chorar, comovida pela felicidade dela e da mãe. Mas tenho me emocionado com momentos especiais e vitoriosos dos outros… Supus que aquela criança era da formanda. Dormiam. Duvidei que acordaria, para acompanhar a mãe passar pela passarela. Antes de a filha chegar na metade do tapete de acrílico, a senhora de azul ergueu e balançou a criança. Antes de a formanda parar. ‘Veja sua irmã.’ Você nunca mais vai passar necessidades’. ‘Viva, Catarina!’ ‘É minha filha!’. Esta é minha filha!’

Eu falava no mesmo tom da mãe da formanda: ‘ Viva, Catarina!’

Lembrei-me de mãe. Do aceno e dos gritos. Das palmas potentes. Do meu choro represado, engolido pela timidez. Não tinha faixa, nem confetes, nem cornetas. Tinha o grito de mãe feito esta mãe, que se destacava na plateia, mais do que confetes, cornetas e faixas. Olhei ‘pra’ ela, sorri, chorei, levantei a criança que sorria no meu colo, apontando para a irmã Catarina. Passei a eternizar conquistas, depois da formatura de 2002. Tudo se repete, por coincidência ou não, depois de duas décadas. Dessa vez, desinibida em poder compartilhar a emoção do outro. Reavivei minha formatura. Lembrei-me da alegria viva de mãe, da expressão de pai, sorrindo e chorando, do jeito dele. Era um dia frio, embaçado, com uma borda roxa nas paletas vermelhas e laranjas do céu ouropretano. O frio ganhou asa. Meu sorriso ganhou reforço. Minha emoção ganhou brilho e reforço. Quando Catarina recebeu o diploma, eu e a mãe dela estávamos de pé, gritando: ‘viva, Catarina!’. Dividi uma boa dose de felicidade com a mãe dela, com a criança filha de Catarina, com Catarina, com tantos desconhecidos. Uma cerimônia de formatura deixa um aprendizado para a vida inteira: saber comemorar as vitórias conjuntas, na grandiosidade de um sentimento genuíno que une pessoas no desejo de querer ver o outro prosperar…


Andreia Donadon Leal

Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura, Especialista em Arteterapia, Artes Visuais e Doutoranda em Educação. Membro da Casa de Cultura- Academia Marianense de Letras, da AMULMIG e da ALACIB-MARIANA. Autora de 18 livros