No dia 29 de julho, entre repiques e costuras, aconteceu, na Câmara Municipal, o lançamento da 2ª edição do livro infanto-juvenil “O Bem-Te-Sino”, da professora emérita e escritora Hebe Rôla. As ilustrações foram bordadas pelas participantes do Movimento Renovador de Mariana a partir das aquarelas da artista Patrícia Coppoli, que ilustrou a primeira versão em 2004.
O relançamento do livro foi possível através de uma emenda impositiva, de autoria do vereador Fernando Sampaio que viabilizou a nova impressão, a vontade surgiu do desejo de apresentar os toques dos sinos para as novas gerações.
Bebê Bem-Te-Vi

Entre brumas ao longe surge a primeira versão de “O Bem-Te-Sino” que nasceu do incômodo da professora ao descobrir que caixas de som haviam substituído alguns dos sinos das igrejas da cidade. Esse incômodo era misturado com o medo de deixar uma tradição tão importante e significativa na história de Mariana morrer.
“O livro foi criado em 2004, porque nas igrejas daqui alguns padres e alguns ajudantes começaram a pôr aparelhos eletrônicos e descartando os sinos. Para mim isso é um desaforo. Aí nós começamos a lutar, juntamos e então depois dessa luta, nós vimos as pessoas crerem que o sino é o arauto da paz, é o arauto de Deus. Ele é o que fala as coisas da Igreja católica, mas é também aquele que fala tudo que o povo precisa ouvir, independente da igreja.”

A tradição dos toques de sinos aos poucos se evaporava, mas de acordo com a escritora, a forma mais efetiva de fazê-la permanecer é mantê-la viva no imaginário das crianças. Como professora, começou a dar oficinas sobre a importância dos toques dos sinos, sempre auxiliada pelo seu mais novo companheiro, o Bem-Te-Sino. O relançamento significa mostrar a uma nova geração uma experiência que funcionou com a anterior e gerou novos sineiros.
O bordado é uma tradição antiga de Mariana, nele é possível preservar momentos, memórias e histórias com arte e linhas. Ao incorporar as bordadeiras de Mariana no projeto, o significado da obra aumenta por valorizar mais um dos inúmeros patrimônios imateriais da cidade.
Renovando bordados
O Movimento Renovador de Mariana é uma associação criada em 1987 com sede na Casa de Cultura de Mariana que busca valorizar a interação entre grupos sociais e culturais da cidade.

Alguns dos projetos sobre bordados tinham o foco em garantir a permanência das histórias de uma arte muito antiga em tecidos, linhas e pontos. A partir deles foi fundada a Academia Marianense de Bordados em 2022 e atualmente é presidida por Raimunda dos Anjos, mais conhecida como Dona Dica.
'O movimento é feito de pessoas, de bordadeiras que através das linhas mostram uma Mariana bordada. A nossa preocupação é a vontade de retratar Mariana através das linhas. E em todas a gente procura valorizar o que nós temos, as portas, as janelas, porque amar Mariana é retratar Mariana através das linhas.'

Bordando os pássaros marrons
A iniciativa de juntar os bordados com a linda história de Hebe Rôla nasceu quando o movimento presenteou a professora com bordados inspirados nas aquarelas do livro, pelos seus 90 anos.
5 anos depois, o livro foi relançado deixando marcado a preciosa parceria entre essas grandes figuras femininas de Mariana, Dona Hebe, Dona Dica e todas as bordadeiras que fazem parte do Movimento.
O evento descrito por Dona Hebe como "momento cheio de graça que a nossa vida dignifica” logo antes de recitar o poema “A Catedral” de Alphonsus Guimarães.
“Entre brumas, ao longe, surge a aurora.O hialino orvalho aos poucos se evapora,Agoniza o arrebol.A catedral ebúrnea do meu sonhoAparece, na paz do céu risonho,Toda branca de sol.E o sino canta em lúgubres responsos:“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”O astro glorioso segue a eterna estrada.Uma áurea seta lhe cintila em cadaRefulgente raio de luz.A catedral ebúrnea do meu sonho,Onde os meus olhos tão cansados ponho,Recebe a bênção de Jesus.E o sino clama em lúgubres responsos:“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”Por entre lírios e lilases desceA tarde esquiva: amargurada precePõe-se a lua a rezar.A catedral ebúrnea do meu sonhoAparece, na paz do céu tristonho,Toda branca de luar.E o sino chora em lúgubres responsos:“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”O céu é todo trevas: o vento uiva.Do relâmpago a cabeleira ruivaVem açoitar o rosto meu.E a catedral ebúrnea do meu sonhoAfunda-se no caos do céu medonhoComo um astro que já morreu.E o sino geme em lúgubres responsos:“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

A cerimônia
O evento contou com a presença de alguns vereadores, das bordadeiras do movimento, do público da cidade e da família de Hebe, a cerimônia foi conduzida por Ana Cláudia, filha de Hebe.

Salgados e docinhos, nada melhor do que um banquete para comemorar a vida - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz
Cada um dos dos núcleos familiares ganhou um livro como agradecimento pela presença com a possibilidade de ser assinado pela escritora. Além disso, contou com um coquetel recheado de quitutes saborosos em uma das salas da Câmara.





