Homens marcham contra a violência e o feminicídio em Mariana

Ação pública  contra a violência de gênero e o feminicídio ocorre após caso de jovem mulher e sua filha na última terça-feira

Atualizado em 09/02/2026 às 16:02, por Larissa Antunes.

Cena Geral:
A imagem registra uma manifestação pública em frente a um prédio de arquitetura moderna e tons claros. Um grupo de pessoas, majoritariamente negras, caminha em direção à câmera segurando uma grande faixa branca e balões brancos. O clima é de protesto e luto.


Elementos em Destaque:


A Faixa Central: Uma longa faixa de tecido branco atravessa horizontalmente o centro da foto. Nela, leem-se frases em letras garrafais pretas e vermelhas. É possível identificar trechos como

Manifestantes ocuparam as ruas em ato contra o feminicídio, pedindo justiça por Larissa Maria e Maria Fernanda e reforçando o combate à violência contra a mulher - Foto: Larissa Antunes/Agência Primaz

Após o caso de feminicídio registrado em Mariana na última terça-feira (03), moradores se mobilizaram para uma ação pública contra a violência de gênero e o feminicídio. A Marcha dos Homens realizada neste sábado (07), teve concentração no Centro de Convenções, em direção à Praça Minas Gerais. 

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O ato ocorre em memória de Larissa Maria de Oliveira, de 23 anos e de sua filha Maria Fernanda Oliveira Gomes, de dois anos, assassinadas em uma residência na Rua Caetano Pinto, no bairro Santa Clara. Segundo a Polícia Militar, o crime aconteceu por volta das 13h. O autor do crime, Felipe Gomes Cordeiro, companheiro da mulher e pai da criança, foi preso ainda na região após a confirmação dos óbitos.

Durante a concentração, organizadores destacaram que a marcha teve como objetivo convocar os homens a assumirem responsabilidade no enfrentamento à violência contra as mulheres. Em fala ao público, uma das participantes afirmou que “normalmente quem luta contra essas violências somos nós, mulheres, mas nós não somos as causadoras dessa violência”, reforçando que a mobilização buscava unir toda a sociedade no combate ao feminicídio 

A violência de gênero e seus dados alarmantes também foram mencionados ao longo do ato. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil atingiu número recorde de 1.518 vítimas de feminicídios em 2025, ano em que a sanção da Lei do Feminicídio completou dez anos.

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Organizadores reforçaram, durante a mobilização, a importância de manter o debate público sobre o feminicídio e de fortalecer redes de apoio e proteção às mulheres - Foto: Larissa Antunes/ Agência Primaz

Para os organizadores, os números evidenciam que o problema é estrutural e exige ações contínuas de conscientização e denúncia. O vereador Pedro Souza ressaltou que a escolha do nome Marcha dos Homens teve caráter simbólico. 
 

É justamente para chamar a atenção dos homens. Somos nós que precisamos mudar, porque somos nós que estamos do lado dos agressores nessa história

Vereador Pedro Souza, organizador da marcha


 
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Ele destacou ainda que a caminhada buscou “incomodar e chamar atenção”, inclusive com a ocupação das ruas da cidade, como forma de conscientização coletiva.

O vereador, Fernando Sampaio, também reforçou a importância do respeito e do consentimento, especialmente em períodos festivos. “Não, é não, gente. Carnaval não é justificativa para desrespeito”, disse, alertando para o aumento de casos de assédio e violência em contextos de aglomeração.

A subsecretária de segurança pública, Raquel Souza, também destaca a existência de mecanismos de proteção às mulheres em Mariana, a atuação da Guarda Municipal e a rede de acolhimento. 

Além disso, a policial também comentou sobre o botão do pânico, dispositivo de segurança física ou virtual oferecido a mulheres com medidas protetivas, parte do programa Patrulha Maria da Penha da Prefeitura e Secretaria de Segurança Pública. Ele envia um alerta imediato à Polícia Municipal ao detectar aproximação do agressor monitorado, permitindo intervenção rápida.

Cartazes e palavras de ordem marcaram a marcha, que reuniu participantes em defesa da vida das mulheres e do enfrentamento às agressões cotidianas - Foto: Larissa Antunes/ Agência Primaz

Em suas falas, os organizadores enfatizaram que nenhuma política é suficiente sem a mudança de comportamento dos homens. “Não adianta só acolher a mulher se o homem não for conscientizado do papel dele na sociedade”, afirma Juliano Barbosa. 

O Secretário de Desenvolvimento Social e Cidadania também questiona parâmetros do poder judiciário, segundo ele,  “precisam mudar alguns conceitos e algumas questões legais quando a gente fala em percepção penal”.

O momento mais marcante da mobilização aconteceu quando uma familiar das vítimas tomou a palavra. Representando Larissa Maria e Maria Fernanda, ela destacou que o feminicídio é o estágio final de uma violência que começa muito antes e fez um apelo para que as mulheres não se calem diante de agressões. 


Um grito dentro de casa já é um ato de violência. Se sentirem medo, peçam ajuda. Nós não podemos calar

Familiar da vítima


Ao final, a marcha seguiu pelas ruas do Centro Histórico, com cartazes, palavras de ordem e pedidos de justiça, reforçando a mensagem de que o enfrentamento ao feminicídio deve ser um compromisso coletivo e permanente.

A mobilização reuniu familiares, amigos e apoiadores em um momento de memória, denúncia e conscientização sobre a escalada da violência de gênero - Foto: Larissa Antunes/ Agência Primaz


O que caracteriza o feminicídio?

O feminicídio é um crime praticado contra a mulher por razões da condição do gênero, caracterizando-se, principalmente, quando envolve violência doméstica e familiar, ou quando ocorre menosprezo, discriminação e ódio à condição feminina. Trata-se de uma forma específica de homicídio que evidencia desigualdades estruturais e relações de poder historicamente marcadas pela violência contra as mulheres.

A Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015) qualifica o homicídio contra mulheres por razões de gênero (violência doméstica ou desprezo/discriminação). Atualizada pela Lei 14.994/2024 ("Pacote Anti Feminicídio"), tornou-se um crime autônomo com penas elevadas de 20 a 40 anos, integrando o rol de crimes hediondos, com progressão de regime após 55% da pena e prioridade na tramitação.

Com a Lei nº 14.994, de 2024, o feminicídio passou a ser reconhecido como um crime autônomo, deixando de ser apenas uma qualificadora do homicídio. A mudança tornou as penas mais severas e estabeleceu medidas mais rígidas para prevenir, responsabilizar e coibir a violência de gênero, reforçando o entendimento de que esse tipo de crime exige tratamento jurídico específico.

Mais do que um assassinato, o feminicídio representa a expressão mais extrema, irreversível e brutal da violência contra mulheres. É um crime que deve ser compreendido como um ato de ódio e discriminação (misoginia), resultado de uma cultura que naturaliza o controle, a submissão e a violação dos direitos das mulheres.

Por esse motivo, não deve, em nenhuma hipótese, ser tratado ou justificado como “crime passional”, termo que mascara a gravidade e a natureza estrutural dessa violência.

A marcha transformou o espaço público em local de manifestação coletiva, luto e reivindicação por políticas de proteção às mulheres  - Foto: Larissa Antunes/ Agência Primaz

 

Como denunciar

Telefones

Disque 180 - Central de Atendimento à Mulher (24h, gratuito e anônimo)

Ligue 153 - Polícia Municipal

190 - Polícia Militar

Locais

Núcleo de Atendimento Especializado à Mulher  - procure a Delegacia de Polícia Civil de Mariana (Avenida Getúlio Vargas, Centro)

O Núcleo de Atendimento Especializado à Mulher (NEAM) em Mariana, fica dentro da Delegacia de Polícia Civil e oferece atendimento humanizado, acolhimento psicossocial e medidas de proteção para vítimas de violência, integrando a rede de segurança. O local possui equipe feminina especializada.

Casa Rosa (Centro de Referência Municipal em Saúde da Mulher): Rua Dom Viçoso, 217, Centro. Oferece atendimento médico, psicológico, nutricional e social de segunda a sexta, das 7h às 16h.


Larissa Antunes

É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.