Horizonte colossal

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Atualizado em 09/12/2024 às 10:12, por Saulo Tete de Oliveira Camêllo.

Ouça o áudio de "Horizonte colossal", do colunista Saulo Tete de Oliveira Camêllo:

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Nos primórdios da história humana, alguém olhou para o céu e perguntou: “de onde viemos?”. Milênios depois, um homem de cabeça inquieta desenhou equações que descreviam a curvatura do espaço-tempo. Nessas equações, havia uma resposta perturbadora: se a gravidade fosse suficientemente forte, o espaço e o tempo poderiam encolher ao infinito, engolindo tudo o que cruzasse o seu limiar.

Os habitantes deste planeta azul — tão pequenos e efêmeros como centelha de fogo — aprenderam a ler as estrelas. Criaram instrumentos que enxergavam o invisível, enviaram máquinas ao espaço e viram lugares hostis e violentos, não como monstruosidades destrutivas, mas como portais para a realidade do universo.

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Num canto deste planeta, um astrónomo olhou para uma galáxia distante e percebeu algo estranho. A luz que vinha dela estava distorcida, como se passasse por um véu curvo. No centro daquela galáxia, algo colossal dobrava o espaço e o tempo.

E mais tarde, continuaram especulando: talvez o interior de um buraco negro não fosse o fim de tudo, mas um novo começo. Talvez fosse um espaço onde o tempo recomeçasse, uma realidade que floresce no abismo de outra.

Talvez o nosso universo fosse isso: a reverberação de uma queda infinita.

O que ele não podia imaginar — o que nenhum deles podia — era que o mesmo acontecia aqui. Não com a galáxia distante, mas com o próprio universo. Viviam dentro do horizonte de eventos de um buraco negro, onde o tempo fluía apenas para quem estava dentro, e para quem estivesse fora, tudo pareceria parado para sempre.

Mas o que significava isso? Saber que o universo era uma gota no oceano maior? Sentir que cada esforço humano — a arte, a ciência, a curiosidade — era algo insignificante no abismo infinito?

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Não. Não era insignificante. Porque, no Braço Aspiral da Via Láctea, havia algo estapafúrdio: seres capazes de erguer os olhos e perguntar. A humanidade, frágil e finita, ousava olhar para o céu e imaginar o que estava além. Mesmo sabendo que nunca poderiam escapar do seu horizonte, nunca deixavam de questionar.

No final, o que define a grandeza não é o tamanho do universo, mas a coragem de quem, sendo tão pequeno, ainda tenta compreendê-lo.


Saulo Tete de Oliveira Camêllo

Nascido em Ouro Preto/MG, é advogado, mestre em Direito pela UFOP e Coordenador dos Direitos Humanos da Prefeitura de Mariana/MG. Membro efetivo da Academia Marianense de Letras.