Juventude conectada: criação, identidade e trabalho nas redes sociais

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Atualizado em 15/03/2026 às 10:03, por Redação Primaz.

Mulher de cabelos bem curtos, usando blusa preta com estampas às costas, trabalha utilizando um computador

Especialista em posicionamento de marca, Bárbara Dias utiliza as redes sociais como ferramenta central para estruturar estratégias de comunicação e trabalho no ambiente digital. Foto: Wesley Silva

Por: Lavínia Carmo e Wesley Silva

 

A rede social é uma construção sociotécnica, é um ambiente de interação muito controlado, mediado por alguns algoritmos

Marcelo Freire, Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Juventude conectada, trabalho em construção

Nos últimos anos, a produção de conteúdo digital ganhou força nas redes sociais, transformou plataformas como Instagram, TikTok e YouTube em espaços de criação, comunicação e sustento. Influenciadores, artistas e empreendedores passaram a usar essas ferramentas não apenas para divulgar ideias, mas também para criar vínculos, formar comunidades e viabilizar o próprio trabalho.

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No Brasil, mais de 81% dos usuários de internet acessam pelo menos uma rede social, e o Instagram sozinho alcança cerca de 147 milhões de usuários – quase 69% da população brasileira no ano de 2025. Dados também indicam que redes sociais representam um espaço central de conexão: plataformas como WhatsApp, Instagram e TikTok estão entre as mais utilizadas no país, com mais de 90% dos internautas usando essas ferramentas mensalmente, enquanto o TikTok é acessado por cerca de 64% dos usuários de internet brasileiros. Além disso, projeções para 2026 apontam que cerca de 87,3% dos adultos irão utilizar redes sociais, destacando o grande acesso dessas plataformas no cotidiano do país, e reforçando sua importância como ambiente de produção cultural e comunicação digital.

Infográfico mostra o alcance e a projeção de crescimento das redes sociais no Brasil, com destaque para o Instagram e o TikTok. (Arte: Wesley Silva | Fonte: Datareportal)

Na Região dos Inconfidentes, esse movimento se manifesta de forma particular entre jovens que apostam na estética digital, na criação independente e no trabalho construído a partir da internet. Artistas, microempreendedores e criadores de conteúdo utilizam as redes para divulgar suas produções, fortalecer redes de apoio e sobreviver economicamente nas cidades universitárias. O fenômeno cresce paralelamente ao avanço da cultura digital entre moradores locais, em um território historicamente marcado pela arte, mas ainda atravessado por estruturas tradicionais e desafios de visibilidade.

Vitrine digital

Para o fotógrafo Rômulo de Paula Leite da Silva, 36 anos, a transição para o universo profissional da fotografia, em 2019, encontrou nas redes sociais um terreno fértil. Atuando em Ouro Preto, Rômulo utiliza o Instagram como sua principal vitrine, e revela que boa parte dos clientes chegam por meio da plataforma. Ele enxerga a rede como um portfólio de fácil acesso, que substitui a necessidade de materiais físicos e funciona como um “arroba” que direciona o olhar do público de forma imediata.

O olhar de Rômulo de Paula, revela cenas cotidianas da cidade e valoriza detalhes da paisagem histórica de Ouro Preto – Foto: Rômulo de Paula/ Acervo Digital

No entanto, essa “vitrine” exige um preço que vai além da estética. Rômulo descreve a criação de conteúdo como um trabalho exaustivo, que envolve longas horas de roteirização, gravação e edição e acaba se tornando uma “segunda profissão”, paralela à sua arte principal. Mesmo com experiências de viralização no TikTok, ele mantém uma postura crítica em relação ao algoritmo. Para ele, a busca incessante por engajamento e a ditadura dos números podem ferir o profissional, criando o estigma de que “quem tem poucos seguidores não é um bom profissional”. “Eu vejo outros profissionais muito bons que não são tão valorizados por isso, enquanto outros que não são tão bons, que tem muitos seguidores e tudo mais, são valorizados por isso”.

Promessa e risco

O professor Marcelo Freire, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas, explica que essa dinâmica ocorre porque as redes sociais são, essencialmente, empresas de estatística que moldam a produção para garantir lucro e a retenção do usuário por meio de uma “rolagem infinita”. “A rede social é uma construção sociotécnica, é um ambiente de interação muito controlado, mediado por alguns algoritmos”, afirma. Segundo ele, o algoritmo prioriza reações e formatos específicos em vez da qualidade técnica ou editorial, contribuindo para a desvalorização de profissionais competentes, que acabam ocultados por não acumularem grandes números de seguidores.

Para além das oportunidades, Marcelo chama atenção para a romantização do empreendedorismo digital entre jovens, frequentemente associada à ideia de liberdade e controle sobre a própria rotina. Segundo ele, o trabalho nas redes sociais segue a lógica da plataformização, semelhante a serviços como Uber e iFood, em que o pagamento é feito por demanda, no caso, por visualizações, e não por tempo fixo de trabalho. Esse modelo, onde o risco do negócio é transferido ao próprio criador, vem se tornando cada vez mais comum em diferentes áreas, inclusive no jornalismo, em que profissionais passam a produzir conteúdos e recebem de acordo com a entrega ou desempenho, aproximando-se da mesma lógica de instabilidade e ausência de proteção social.

Essa romantização é reforçada por casos de sucesso considerados “fora da curva”, influenciadores como “Luva de Pedreiro” e Virgínia Fonseca alimentam o imaginário de que a ascensão social na internet é simples e acessível. Para Marcelo, porém, esses exemplos são resultado de uma “conjunção de fatores absurda” e não representam a realidade da maioria dos criadores. Muitas vezes, por trás da aparente espontaneidade do sucesso, existem anos de trabalho, investimentos financeiros ou uma estrutura empresarial que não é visível ao público.

Entre o digital e o real

Assim como Rômulo, o arte-educador e artista independente marianense Henry Zacarias Viana, 22 anos, também utiliza as redes sociais como uma vitrine essencial para seu trabalho no rap e na moda. Embora tenha iniciado sua trajetória digital no TikTok, durante a pandemia, para superar a timidez, hoje, Henry mantém uma relação mais reservada com as plataformas e prefere compartilhar sua produção artística em vez de sua rotina pessoal.

Diante da pressão por engajamento e curtidas, ele preserva a saúde mental, ao focar no que pode controlar, valorizando o reconhecimento real nas ruas, acima das métricas de popularidade, especialmente entre o público infantil. “Ali (nas redes) sou eu, tudo o que eu faço, mas, se você não chegar pra conversar comigo, não vai saber quem eu sou”, comenta, ressaltando a importância do contato com as pessoas fora das redes sociais.

Henry Zacarias exemplifica uma geração que articula o cotidiano da cidade com a produção de conteúdo digital – Foto: Wesley Silva

Criar sem se perder

Por outro lado, a marianense Bárbara Dias Silveira, empreendedora, 33 anos, relembra que o início de sua jornada com a internet foi difícil e que precisou lidar com a pressão do engajamento e dos números. Além de criar conteúdo em sua conta principal, Bárbara também empreende na área da comunicação, o que a faz ter mais experiência nesse mundo dos “números digitais”.

Embora atue como influenciadora no nicho de corrida, Bárbara reconhece que a renda proveniente de publis é instável e imprevisível. Por isso, optou por não depender exclusivamente da lógica das marcas e das visualizações. A criação de sua agência de comunicação digital, a BB Comunica, surge como estratégia de monetização estruturada dentro do próprio ambiente digital, transformando sua experiência com produção de conteúdo em prestação de serviços especializada. Enquanto a influência lhe proporciona reconhecimento e conexões, é a agência que garante estabilidade financeira. Para ela, o digital pode ser fonte de renda sustentável, desde que não esteja ancorado apenas na volatilidade do algoritmo.

Bárbara sustenta que o crescimento nas redes sociais não pode vir à custa da própria identidade. Para ela, o que “vende” a longo prazo não é o viral passageiro, mas a autenticidade construída com coerência e posicionamento. Ao rejeitar tendências que prometem alcance rápido, como polêmicas artificiais ou pautas sensíveis tratadas sem responsabilidade, ela assume que existe um preço: crescimento mais lento e menos explosivo. Ainda assim, considera essa escolha um investimento em credibilidade e em paz mental. Para ela, tanto como influenciadora quanto à frente da agência, identidade e verdade são pilares mais duradouros do que qualquer viral momentâneo.

O peso dos números

Assim como Bárbara, a psicóloga formada pela UFPel, pós-graduada em Psicologia Clínica e Gestão de Saúde, Luise Oliveira, comenta como a pressão constante por engajamento pode representar um risco. A troca da vida pela performance faz com que, em vez de estarem presentes nas próprias experiências, as pessoas passem a organizar a vida em função de como aquilo vai aparecer na tela. Segundo ela, criar conteúdo pode se tornar um fator de ansiedade ou esgotamento emocional, especialmente quando a pessoa passa a depender da validação em curtidas e visualizações, medindo seu valor por métricas de engajamento e sustentando uma persona digital idealizada. 

Para o professor Marcelo Freire, as redes sociais aumentam o alcance dos trabalhos, porém funcionam em uma lógica técnica que estimula a produção contínua e orientada por métricas. Segundo ele, o algoritmo também influencia decisões criativas e o ritmo de trabalho. Essa lógica quando internalizada pelos criadores ajuda a explicar os riscos apresentados por Luise Oliveira: a troca da vida pela performance e supervalorização dos números, fazendo com que o engajamento pare de ser um conjunto de medidas e passe a operar diretamente na saúde mental. “No início as pessoas acreditavam muito nos números, só que os números não pagam contas”

Luise orienta que pessoas que usam as redes profissionalmente podem buscar terapia, pois ela ajuda a estabelecer limites, lidar com ansiedade causada pelo engajamento e evitar que o trabalho tome conta da vida. A psicóloga também ressalta que ficar atento a sinais de burnout e despersonalização é fundamental.

À medida que o uso das plataformas cresce, debates sobre a regulação das redes sociais e responsabilidades das big techs se intensificam no Brasil. Há movimentos jurídicos que pedem que empresas como Meta e TikTok protejam mais os usuários, principalmente menores de idade, diante dos riscos de saúde mental e uso excessivo de telas.

Diante disso, podemos observar o quanto a internet pode beneficiar jovens criadores, mas também impor armadilhas persistentes, como a pressão por números, o desgaste emocional e a dependência de métricas do algoritmo. Entre as oportunidades e os riscos, a vida digital entre os jovens revela a complexidade entre criação, identidade e trabalho, em que arte e engajamento dialogam com a economia, a cultura e a saúde mental.


Texto originalmente publicado no Portal Lamparina, em 07/03/2026.

 


Redação Primaz

Equipe do Portal