Mariana (MG), 5 de setembro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Moradores relatam problemas de saúde agravados pelo barulho do Autoparque Bauxita

Som alto, engarrafamentos e falta de fiscalização perturbam a paz dos moradores de bairros próximos ao novo empreendimento da Prefeitura de Ouro Preto

Placa colocada em loja de autopeças daregião após garantirem o direito ao silêncio contras as repúblicas da Bauxita. - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Fundado há 48 anos, de acordo com os moradores, o bairro Bauxita já foi um local tranquilo para que seus moradores pudessem envelhecer em paz. Com a abertura do Autoparque Bauxita, esses moradores denunciam que não há mais paz nos finais de semana de eventos. Música alta, trânsito parado e ruas lotadas se tornaram regulares, já que a fiscalização não está sendo efetiva.

Promessa de lazer

Inaugurado em 18 de maio de 2024, o Autoparque Bauxita veio com o objetivo de desafogar o trânsito e com a “principal função de  oferecer vagas para vans e cerca de 60 vagas para veículos menores”, conforme consta no site oficial da Prefeitura de Ouro Preto. 

No começo os moradores mais antigos contam terem sido relutantes com a ideia de tirar um “paraíso” em árvores frutíferas para uma construção da Prefeitura. Mas quando prometeram desafogar o trânsito e criar uma entrada mais confortável para as crianças que frequentam a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), ficaram mais tranquilos com a ideia. 

Porém, agora, o sentimento é de frustração e, de acordo com os moradores, o local não era abandonado, “as crianças andavam de bicicleta lá, sabe? Tinha uma uma rua de terra ali e a gente tinha maior liberdade. Tinha plantação de árvores frutíferas, mas foi tudo arrancado para poder construir o Autoparque”.

Distância da antiga casa de uma senhora que precisou se mudar por conta do barulho, hoje, ocupada por um recém-morador que afirmou “agora sim vai me incomodar sempre o barulho, estou de frente para onde fica o palco”. - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

O local ocupa 8 mil metros quadrados e prometia ser uma melhoria na qualidade de vida de quem criou uma vida no bairro. Foi exatamente isso que Lourdes Freitas, 67 anos e uma das fundadoras do bairro, pensou no anúncio do novo empreendimento.

“A propaganda do Autoparque antes de começar a construir foi que seria estacionamento para desafogar o trânsito da Rua João Pedro da Silva e da Francisco Pignataro, aliás, do bairro todo. Que ali seria estacionamento e área de lazer de caminhada, ciclismo… Eu que sou avó que vou com meu neto lá e tem um parquinho, não sei se você chegou a ver lá o parquinho lá, mas está fechado com cadeado.”

Lourdes, uma das fundadoras do bairro

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Lourdes aponta a incongruência de um local construído com dinheiro público ter a área de lazer trancada. Para outro morador, funcionário de uma pousada do bairro e que, por receio, preferiu não se identificar, a decepção foi a mesma.

“A gente construiu uma casa lá perto do Autoparque e a gente achava que iria ser uma praça. Imagina que bom, uma pracinha de caminhada de lazer, tem até uma lanchonete, e eu pensei: ‘Perfeito! Vou tomar uma aguinha de coco e fazer uma caminhada’. Eu pensava que ia ser só isso até eu quebrar a cara. Festa uma vez ou outra, fazer um eventozinho, ok, beleza. Mas, sempre e até de madrugada, até às 11 horas da noite?”

Morador que não quis se identificar

Para ele, o pior evento foi o último Encontro Nacional de Motociclistas, que ocorreu entre os dias 24 e 26 de julho. Por mais que o encontro tenha acabado por volta das 23h, alguns carros de som decidiram continuar a festa em frente à pousada em que ele trabalha. O barulho incomodou os ocupantes de quatro apartamentos do local, que reclamaram e/ou pediram reembolso.

O morador afirma que a fiscalização parou de atendê-lo e o canal de denúncias começou a desligar a chamada no final de semana do Encontro Nacional de Motociclistas. - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

De acordo com uma das hóspedes, eles não poderiam anunciar a pousada como um lugar tranquilo se os carros de som param de madrugada e a fiscalização não faz nada sobre. “São 4 horas da manhã e eu não consigo dormir. Vocês deveriam avisar que a pousada fica em frente a um local onde param carros com sons no último volume a cada 3 minutos e que não há fiscalização por parte do Poder Público. Impossível isso, estou tentando [ligar para a fiscalização] desde a meia noite e a coisa só piora”, disse a hóspede em mensagem para a dona da pousada. O funcionário se sentiu de mãos atadas diante da situação e precisaram reembolsar a hóspede.

Saúde em risco

A saúde dos moradores também acaba afetada pelo barulho constante. Maria Rosa, 74 anos e moradora do bairro há 49, cuida do marido que ele possui uma condição neurológica agravada com o som alto. 

“Meu marido, ele tem uma demência e ele fica muito agitado com barulho. Eu falo não só por ele que é doente, mas eu também fico prejudicada. A gente fica agitado, a gente fica ansioso, a ansiedade da taquicardia, da raiva. Faz muito mal pra minha saúde, eu fico preocupada com ele porque ele aí ele fica agitado, ele começa a andar... Isso aí também desgasta muito a gente.”'

Maria Rosa

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O morador e funcionário da pousada conta que, em 2022, sofreu um acidente que resultou em um traumatismo craniano grave. A sua maior preocupação atualmente é não poder cumprir a recomendação médica de sempre garantir uma tranquila noite de sono. 

“O médico falou assim: 'A primeira coisa que você tem que se preocupar é em ter paz, não é internar nem nada, é dormir. Se você não está dormindo bem, você pode abrir seu olho que pode piorar aí.’ Já meu pai vai fazer 80 anos este ano, ele teve uma pneumonia grave e esses dias ele ficou oito dias internado na Santa Casa. Enfim, pras pessoas que são mais de idade, eu fico imaginando esse barulho. Como é que faz a pessoa idosa?'

Morador que não quis se identificar

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Tampões de ouvido em meio a remédios e laudos da família Freitas que mora em frente ao Autoparque - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Mas foi a partir da família de Luana Freitas, nascida e criada no bairro, bióloga e mobilizadora social, que surgiram os abaixo-assinados para denunciar a poluição sonora recorrente e a perturbação do sossego devido aos eventos no Autoparque Bauxita. Os pais de Luana tiversm diversas doenças agravadas devido ao estresse de lidar com o barulho. A mãe de Luana, Lourdes Freitas, conta que ao saber do evento a ansiedade já ataca, por saber o estresse que lidará no dia.

“Desde 2024, quando inaugurou, eu tive herpes zoster e comecei a fazer tratamento usando essa aparelhada toda aí que você tá vendo. Eu fico com a minha pressão muito alta. O médico acredita que desenvolvi a herpes por causa da baixa imunidade, por estresse, ansiedade e depressão. Exatamente disso do barulho do Autoparque que eu não consigo relaxar, eu não consigo ter uma boa noite de sono. Só de ver a propaganda da festa que vai ter, por exemplo, daqui um mês, eu já fico toda errada, o meu corpo já fica todo desconsertado aqui dentro de casa.'

Lourdes Freitas

Laudo médico indicando que os problemas de saúde do casal e de outros moradores são agravados pelo “desrespeito sonoro”. - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Já o pai de Luana, José Carlos de Freitas, apresenta quadros de gastrite e úlcera, que, segundo diagnóstico médico, foram provocados pelo estresse da situação no bairro. Eles também sofrem de pressão alta e utilizam abafadores de som para tentar suportar o ruído dentro da própria residência. 

"Eu tenho que sair com ela porque a pressão sobe lá para 19. Eu vou para casa de outra pessoa ou vou pra casa do meu filho ou da minha filha porque ela passa mal, não posso ficar com ela aqui”, relata José Carlos, falando sobre a situação da esposa em dias de realização de eventos.

Família Freitas se recusa a sorrir com tantos problemas enfrentados - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Denúncias

Os abaixo-assinados estão correndo junto às denúncias apresentadas ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), desde 2025, quando ocorreu o evento “Grito de Carnaval”. Junto a esses documentos estão protocolados também ofícios coletivos detalhando as denúncias de poluição sonora, relatórios médicos e laudos, reclamações registradas em canais digitais do MPMG, ata de assembleia popular, provas audiovisuais criadas pelos moradores para demonstrar o volume do som, registros de tentativas de diálogo via Whatsapp com o gestor do espaço, registros da fiscalização de posturas detalhando medições de decibéis e vistorias no local.

Moradores se veem obrigados a produzir uma extensa documentação para credibilizar as denúncias - Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Moradora da Vila dos Engenheiros relata que também é muito afetada pelo barulho e sofre com as mesmas consequências do bairro Bauxita. Ela mora na Vila há mais de 25 anos e conta que o local já foi um bairro tranquilo antes da inauguração do Autoparque. 

“Não é obrigação do cidadão ficar ligando para denunciar , a Prefeitura devia fazer esse trabalho proativamente. É muito desgastante na maioria dos finais de semana que tem eventos você ter que chamar, se desgastar, isso acaba com a paz. É por isso que cada vez menos pessoas ligam. Tem virado motivo de adoecimento.”

Moradora do bairro Vila dos Engenheiros que não quis se identificar

De acordo com Robert, estudante da Universidade Federal de Ouro Preto e morador da República Nadavê, a situação é “nada a ver”. Por mais que afirme já estar acostumado com os barulhos, a república onde mora foi proibida pelo Ministério Público de fazer festas na casa onde moram no bairro Bauxita, exatamente pelas denúncias de perturbação do sossego. 

As festas seriam para arrecadar dinheiro e melhorar o espaço para os estudantes moradores. Já o Autoparque está autorizado a realizar eventos mesmo tendo sido construído pela Prefeitura.

“Não podemos fazer festa. A gente já foi ameaçado de tomar multa de 60 mil reais, tivemos que parar. Fomos andar de skate no Autoparque e o guardinha de lá falou pra gente parar que estava incomodando o barulho do skate batendo no chão. Só que é meio seletiva a fiscalização , né?'

Robert, estudante

Posicionamentos

Atualmente o processo está ativo e o último evento incluído foi o Encontro Nacional de Motociclistas de julho e o Ministério Público aguarda respostas da Prefeitura de Ouro Preto.

De acordo com a Rádio Itatiaia, a Polícia Civil, o responsável pelo Quiosque e a Prefeitura de Ouro Preto se pronunciaram. A polícia informou ter começado a investigação para apurar os fatos, mas ainda não houve responsabilização de envolvidos.

O responsável pelo Quiosque, Eduardo Duarte Liberato, afirmou que respeita as manifestações, está disponível para prestar esclarecimentos e ainda reconhece as reclamações apresentadas aos órgãos públicos. Ele também defendeu o uso do espaço para atividades culturais, esportivas e de lazer, mas afirmou que o equilíbrio com o direito ao descanso deve ser construído por meio do diálogo.

Já a Prefeitura de Ouro Preto informou que recebe e analisa as manifestações sobre eventos no Auto Parque da Bauxita e que as atividades no local dependem de autorização prévia, com cumprimento das exigências de segurança, funcionamento e demais normas municipais. Segundo o Município, cabe à Prefeitura emitir os alvarás e fiscalizar, enquanto o concessionário responde pelas obrigações do contrato e os organizadores pela execução de cada evento. A administração afirmou ainda que acompanha a situação e poderá avaliar ajustes técnicos nas exigências para futuras autorizações.

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