Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Andreia Donadon Leal:
Há pessoas que chegaram ao universo para ser fonte de inspiração, cura e paz. Nestes tempos de asperezas e desapontamentos das relações sociais, quem tem saúde mental ou faz terapia, para modelar pontas e arestas da personalidade, consegue sobreviver com qualidade de vida.
Dizem os tradicionalistas que quem faz terapia é doido. Será? Dizem os tradicionalistas que quem faz tratamento com psiquiatra é doido. Será? Evidentemente há os que defendem o tratamento para comorbidades do humor com pseudoterapias ou pseudoconselhos. “Não tem fé; é preguiçoso. Choraminga à toa. Reclama demais. Vive encarcerado no quarto…” E o caminho? O caminho é a terapia. O caminho é conversar com sua sombra e aceitá-la. Afinal quem não tem sombra? Quem não tem lado sombrio na alma? Ainda não encontrei um ser divino, a perambular por aí despido de pecado.
O caminho se faz ao caminhar. Quem arrisca um pequeno passo para colocar um ponto final num conflito, deve ser apedrejado? Não, caríssimos leitores. As relações, por mais que sejam harmônicas, não são lineares. Às vezes, os conflitos são necessários, para dar um basta em relações que desrespeitam laços e até mesmo hierarquias. Como disse o Arcanjo: “lugar onde todo mundo manda, ninguém obedece ninguém“.
Mas este adminículo vem para prestar uma singela homenagem a uma pessoa ética e amorosa. É fácil amar as pessoas, quando elas merecem. No entanto, o que me toca profundamente é este provérbio chinês: Ame-me quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso." Esta frase reverbera a essência mais profunda e vulnerável do amor.
Nesse acolhimento afetivo há mais de um ano, converso com um espelho que reflete minhas agruras e amarguras. No acolhimento escutatório afetivo, eu aprendi a encontrar respostas para minhas divagações. Nesse acolhimento afetivo escutatório passei a aceitar, com mais clareza, a morte do meu filho Tiago. Nesse acolhimento afetivo escutatório, aprendi a acolher o meu próprio choro como extravasamento e desabafo. Nesse acolhimento afetivo escutatório aprendi que falar sobre dores profundas, às vezes, é fugir do tema andando em círculos. Nesse acolhimento afetivo escutatório aprendi que entrar em contradição é não saber mensurar o que está sentindo.
Nesse acolhimento escutatório sei que eu falo, que eu encontro a resposta, que eu aprendo a conviver com minha sombra. Nesse acolhimento sei que o quintal é meu quarto, lugar seguro, de acolhimento, de fazeres múltiplos, de aquecimento, de resfriamento das ideias e pensamentos acelerados. Nesse acolhimento aprendi que tenho que fechar a porta do meu quintal, e sair aos poucos para a grande floresta urbana. Nesse acolhimento a Gestalt me faz ir aos poucos, aos pouquinhos, na consciência plena de que sou capaz de processar meu tempo, ritmo, ansiedade e limites.
Saindo para a grande floresta urbana, sei que meu quintal de casa estará sempre aberto para me acolher a todo e qualquer momento de minha vida!



