Parece que…

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Atualizado em 08/05/2019 às 00:05, por Andreia Donadon Leal.

Mulheres em passeata

Foto: Reprodução

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Que rufem tambores! Que ranjam dentes! Que caia chuva de canivete! Que se abram tumbas e saiam todos os cadáveres, pois aqui já deu. Já ir só dá nas traves e nas trevas. Discursos trevosos e ofensivos. A terra é quadrada. Quem disse que é redonda? Mentira do tal Nicolau. Translação é coisa do outro mundo. Nunca ouvi falar nisso. No Brasil, o presidente decidiu que tudo pode mudar, ao seu gosto e bel prazer. Galileu se silenciou durante sete anos para cumprir ideias e ideais da igreja. Nós teremos que nos silenciar durante quanto tempo? A terra pode se mexer, excelência. Ninguém ficará tonto, a não ser a turma da cachaça, que curte o melhor aperitivo. Mas a tontura é passageira. Tontos estamos, sem beber uma gota de álcool, com as estultices que saem aos borbotões de sua boca. Use o subconsciente, que consegue fazer escolhas melhores do que o consciente. Freud explica. Uma universidade holandesa explica também. Aqui não é o paraíso do sexo. As mulheres não estão à disposição dos gringos. ‘Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade’. É crime assediar mulheres. Não somos objetos nem bibelôs. Não estamos à disposição, ou sua excelência decretou que todas as mulheres estarão à vontade para os estrangeiros? Não jogamos pedra na cruz. Não apedrejamos Cristo. Não somos possuídas por demônios nem espíritos malignos.

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Somos mulheres honradas, trabalhadoras, intelectuais, estudiosas, empoderadas, livres… Sofremos abusos, discriminações, violência, feminicídio, e o senhor, com seu discurso machista, propaga, que venham os gringos pegarem as mulheres à vontade! Que país o senhor almeja desconstruir? Que presidente é esse, que desvaloriza o gênero feminino e a diversidade? Que é intolerante aos homossexuais? Que se mete nas propagandas do Banco do Brasil?

É proibido homem pintar o cabelo de rosa? É proibido fazer caras e bocas? É proibido usar negros em propagandas de estatais? Que homem o país escolheu para ser seu representante, Santo Deus! Um ser que profana as mulheres. Um ser que desvaloriza o patrono da Educação Brasileira. Sacrilégio contra o patrimônio educacional. Chato é o laranjinha com arminha na mão. Chato é não conseguir discursar sem dar mancadas, e chata é sua campanha de armamento. Chato é desconhecer a importância do trabalho de um dos vultos mais importantes da educação brasileira. Freire! Freire, Freire, Freire! Não mexa no que é mundialmente reconhecido, traduzido para mais de vinte idiomas. O trabalho de Freire é e sempre estará, seu chato, entre as três obras mais citadas em trabalhos na área de humanas.

Humanas, para você, às lamas. Filosofia às favas. Sociologia no lixo. Mulheres aos estrangeiros. A terra que gire em seu próprio umbigo. De tanto querer que gire, a dor de barriga virará pancreatite. Atender a quem te clama, a quem te chama a atenção, a quem te critica, a quem não te bajula é belo. Lutar por quem te rejeita é quase chegar à perfeição, segundo Charles Chaplin. Consegue ir além da pedra? A maior parte dos homens é como ímã, tem um lado que atrai e outro que repele. Por enquanto, seu lado tem repelido a maioria das mulheres, dos professores, dos homossexuais, dos seres livres, dos que lutam de sol a sol, dos que batalharam com unhas e dentes por liberdade de expressão…

Que não caia chuva de canivete. Que os anjos não precisem sair de sua paz divina, para nos salvar. Que nós, mulheres, sejamos respeitadas, valorizadas e reconhecidas pelos nossos feitos, contribuições ao desenvolvimento do país. Que nós, mulheres, não sejamos ofertadas, banalizadas, peças sexuais de turistas. Que nós, mulheres, negros, pobres, ricos, brancos, albinos, homossexuais; de cabelos pintados de rosa, verde, azul e todas as paletas misturadas, tenhamos liberdade de posar em propagandas de bancos do governo, de quaisquer empresas, sem a sua obstrução ditatorial. Lutamos para sair da Ditadura. Apanhamos para sair da zona de espancamento. Apanhamos e fomos mal tratados. Apanhamos por liberdade. Fomos censurados e torturados ao expressar nossas ideias e ideais. A ordem era obedecer, se não a arma ou o cassetete entravam em ação. Vivemos no obscurantismo. Não podíamos pensar, sequer questionar. Vem a calhar o não investimento nas áreas da Filosofia e Sociologia? Fico a pensar: tudo voltou? Por enquanto, seu ímã não tem o lado da atração, só repele. Peca, blasfema e apedreja as mulheres; e joga fora no lixo, Paulo Freire. Parece que o senhor faltou todas as aulas das áreas das Humanidades!


Andreia Donadon Leal

Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura, Especialista em Arteterapia, Artes Visuais e Doutoranda em Educação. Membro da Casa de Cultura- Academia Marianense de Letras, da AMULMIG e da ALACIB-MARIANA. Autora de 18 livros