Por uma Educação Não Machista
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Foto: William F. Santos/Unsplash
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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Andreia Donadon Leal:
Gisele era uma policial linda, e divulgava imagens suas nas redes sociais. Uma mulher que tinha sonhos profissionais e uma filha para criar. Gisele tinha preparo físico e treinamento para atuar na segurança pública. Gisele era uma jovem de 32 anos. Gisele gostava de se arrumar; usava batom, mas teve que parar de se embelezar para deixar de ser bonita e parar de chamar a atenção com seus encantos. Gisele tinha que silenciar sua beleza. Gisele tinha que parar de passar batom, tinha que andar de cabeça baixa e evitar conversar com os outros. Gisele tinha que entrar na linha; na linha machista de seu marido.
Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça. Estavam ela e o marido no apartamento. Ela planejava se separar. Gisele vivia um ambiente de controle excessivo. Gisele vivia conflitos frequentes com o marido; um tenente coronel. Havia marcas de unhas no pescoço de Gisele, além do tiro na cabeça. O tenente coronel disse que não foi ele, pois roía as unhas. Roer as unhas é um perigo para a saúde física e mental; às vezes, é necessário auxílio de um psicólogo. Quem rói unha vive um estado de nervosismo e estresse constante.
Não sei o que aconteceu, de fato, no apartamento do casal. Li que a cena do crime foi alterada. Sei que mexer, limpar ou alterar a cena do crime é crime de fraude processual. A história está sendo manipulada. Não há o que se discutir. Tudo é suspeito, inclusive toda a fala “manipulada” do tenente coronel. Numa publicação, sua expressão, ao responder às perguntas do jornalista, é manipulada. As respostas são manipuladas. O jornalista exibe um vídeo do tenente colocando uma arma na cabeça, ameaçando se matar, caso Gisele se separasse dele. O tenente disse que era IA; que era ele, mas o vídeo foi manipulado. Parece que o discurso dele está afinado com a palavra “manipulação, alteração”.
Chega a ser bizarro o sentido deste vocábulo na vida desse homem: manipulação e alteração da fala. Aquele que muito mente passa a acreditar piamente na potência das próprias mentiras, mas investigações podem mostrar indícios de manipulação das cenas, fazendo ruir as construções discursivas falsas.
As unhadas encontradas no pescoço de Gisele pela perícia, segundo ele, poderia ser da filha dela que ficava agarrada no pescoço da mãe “igual a um macaquinho”. Quanta mitomania guarda esse tenente? O caso é grave, muito grave! Mais um autor de violência doméstica (sem sombra de dúvida!) e desfecho em “provável feminicídio”.
A situação de Gisele se insere em mais um contexto alarmante: o aumento exponencial da violência doméstica e do feminicídio. Dados recentes mostram que, nos últimos anos, os casos de agressão contra mulheres têm crescido de forma assustadora, revelando uma crise social e de saúde mental. Estima-se que, a cada 7 segundos, uma mulher é agredida no Brasil. Esses números refletem não apenas um problema individual, mas um padrão cultural enraizado de desigualdade de gênero que gera violência.
Segundo o Dr. Gonzalo Vecina, no Jornal da Cultura, de 14 de março, a violência contra a mulher, enfim, a violência doméstica, é caso de saúde pública, antes de ser caso de polícia, porque os primeiros profissionais procurados por vítimas são os médicos. Por isso, os médicos ao identificar que determinadas lesões não são acidentais, que certos distúrbios psíquicos são indicadores de ameaças, assédios e controle excessivo dos passos de uma mulher ou de uma criança, devem saber não só de técnica médica, mas também de acolhimento. O caminho é o encaminhamento dessas pessoas para unidades especiais de polícia de proteção da mulher, ou da criança, para que a vítima possa ser protegida pelo Estado, não só por medida protetiva, mas por tratamento físico e psicológico, e o agressor possa ser tratado também, porque quem agride ou assedia é doente mental ou social; mental quando de fato há um desajuste psíquico, e social quando esse agressor é vítima da educação machista que ensina que homem é superior e pode ser proprietário de mulheres e crianças.
É preciso ter políticas públicas para identificar precocemente potenciais casos de assédios e agressões, para que equipes multidisciplinares tratem das vítimas e dos agressores, como forma de evitar que casos ainda iniciais se tornem casos de extremo, com desfecho em mutilações e feminicídio.
Este caso de Gisele é mais um caso entre os tantos que ocorrem diariamente.
Por isso é urgente que os poderes construam políticas públicas de reeducação masculina nas escolas e para quem está inserido em medidas protetivas, afinal a “pandemia da violência doméstica e feminicídio” precisa de uma dose potente de EDUCAÇÃO PREVENTIVA!

Andreia Donadon Leal
Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura, Especialista em Arteterapia, Artes Visuais e Doutoranda em Educação. Membro da Casa de Cultura- Academia Marianense de Letras, da AMULMIG e da ALACIB-MARIANA. Autora de 18 livros







