Na noite dessa quarta-feira (12), o Cineteatro de Mariana foi palco para dois espetáculos teatrais do RecriaVida. O primeiro foi “A noiva de Furquim”, trazendo a história da lenda marianense, o segundo foi “Saudosa Maloca”, recontando a história da música que leva o mesmo nome. Os personagens foram interpretados pelos idosos do RecriaVida e as peças dirigidas por Camila Vendramini, professora de teatro do Recria e formada em artes cênicas e direção teatral pela Universidade Federal de Ouro Preto.
A Noiva de Furquim
A lenda urbana da Noiva de Furquim começou na década de 70, com um acidente de ônibus na entrada de Furquim, distrito de Mariana, que ceifou sua vida e a de mais 11 pessoas. Após o acidente, o espírito da noiva foi visto vagando pelas proximidades do local, assustando moradores do município e quem passava pelo local da tragédia.
No espetáculo do RecriaVida, a história da noiva começa com um jantar e o pedido de casamento. Logo depois, ela e o seu noivo se arrumam para o casório, tudo isso enquanto uma luz vermelha e quente toma conta do palco.
Porém, antes mesmo de se casar, a noiva entra no ônibus, e enquanto as luzes vão se apagando e se tornando cada vez mais frias, ela morre no acidente.
O espetáculo não possui falas durante a apresentação, a diretora conta que foi uma escolha da produção representar a narrativa com gestos, imagens, sons e a expressividade dos atores.
No caso de A Noiva de Furquim, começamos trabalhando com lendas urbanas de Mariana. Primeiro, pedi que eles trouxessem histórias que conhecessem para fazermos um trabalho de contação de histórias. Trabalhamos a oralidade e a maneira como cada pessoa conta uma história, buscando perceber como a narrativa pode fazer com que o público preste atenção às suas nuances.
Durante as cenas, o espetáculo contou com músicas hits dos anos 70 e 90, como “I will always love you” de Whitney Houston e “Le Freak” da banda CHIC.

“Saudosa Maloca”
Na canção que também leva o título do espetáculo, o músico Adoniran Barbosa canta sobre o despejo da sua maloca e de seus amigos, “Mato-Grosso” e “Joca”. Na canção, Adoniran conta sobre a construção dos seus espaços para morar no local em que tinha só uma “casa véia”. Entretanto, a maloca deles é destruída e eles foram forçados a sair daquele lugar: “Cada táuba que caía, duia no coração”, canta Adoniran na canção.
No espetáculo, a narrativa segue sendo quase a mesma, porém os personagens são diferentes, no lugar de “Mato-Grosso” e “Joca”, existe uma comunidade de mulheres que construíram sua maloca e agora recebem “Jacira”, a mais nova moradora.
Após as mulheres construírem a casa com Jacira, chegam três homens com um recado que vinha de Dona Letícia, informando que as mulheres precisavam sair dali o mais rápido possível.
Os homens derrubaram a maloca mas as mulheres não aceitaram a situação, e foram atrás de briga com Dona Letícia. Durante a cena, uma das moradoras cita o “usucapião”, lei que permite que elas fiquem no local devido a já estarem ali por anos. E, assim, as mulheres reconstroem sua maloca novamente.
Tivemos, inclusive, uma conversa com a Thuani, da área do direito, para discutirmos o direito à moradia, que está expressamente previsto na Constituição Federal de 1988, além de questões como usucapião e a função social da propriedade. A partir dessas conversas, fomos construindo o espetáculo coletivamente. A cada encontro, eu apresentava uma situação relacionada à música e eles improvisavam a partir dela. Assim, pouco a pouco, fomos descobrindo as cenas e construindo o espetáculo.

Segundo Camila, a experiência de trabalhar o teatro com idosos é “rica e múltipla”, pois eles complementam a potência das atividades com suas experiências de vida. A diretora afirma que eles são muito espontâneos e propositivos com as peças. “Dando ideias sobre o que fazer, o que cantar, o que vestir. Existe uma participação muito ativa deles na criação”, afirma.
Como obstáculo, ela enxerga o não comparecimento nos ensaios, ou nas apresentações, ausências que, por muitas vezes, acontecem por questões de saúde. Para driblar o problema, Camila trabalha com a substituição de atores e a ideia de que os idosos saibam o que acontece nas cenas, não somente decorem seu texto.
Por fim, os dois espetáculos demonstraram o comprometimento ao subir ao palco, a entrega com a arte e a alegria de estar ali, entregando uma noite de sustos, risadas e entretenimento ao público.
Os espetáculos foram construídos a partir de um processo de criação coletiva, com participação dos idosos na dramaturgia, atuação, figurino e demais elementos da cena.
Ficha Técnica
A Noiva de Furquim
Direção: Camila Vendramini
Dramaturgia: participantes do Teatro do Recriavida
Iluminação: Adeuzi
Atuação: participantes do Teatro do Recriavida
Figurino: participantes do Teatro do Recriavida
Saudosa Maloca
Direção: Camila Vendramini
Dramaturgia: participantes do Teatro do Recriavida
Iluminação: Adeuzi
Música: Renatinho
Atuação: participantes do Teatro do Recriavida
Figurino: participantes do Teatro do Recriavida




