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Ouça o áudio de "A tragédia ambiental do Rio Grande do Sul e a Laudato Si", do colunista Júlio Vasconcelos:
Dos 497 municípios pertencentes ao Estado, 431 foram fortemente afetados pelas enchentes, com muitas cidades como Lajeado, Estrela e Muçum ficando temporariamente inacessíveis. Em Lajeado, o nível do Rio Taquari superou os 30 metros!
Pelo menos 170 pessoas morreram devido às enchentes, com muitas outras desaparecidas. Mais de 80.000 ficaram desabrigadas devido à destruição de suas casas.
Várias pontes e estradas foram destruídas e mais de 500.000 pessoas ficaram sem energia elétrica. A água potável e a comunicação por internet e telefone foram interrompidas em mais de 85 municípios.
Surgem então no ar algumas perguntas que não querem se calar: qual o motivo de tanta desgraça? Seria um castigo divino, como andou propagando nas mídias um padre católico, após dizer que o Rio Grande do Sul abraçou a bruxaria e o satanismo? Ou seria um problema da má gestão pública, como afirmam alguns políticos?
Independentemente das questões políticas e religiosas, os estudos indicam que a tragédia está intrinsecamente relacionada às severas agressões que o meio ambiente vem sofrendo nos últimos tempos, provocadas pelas mãos humanas. Mudanças climáticas com elevação da temperatura global (Efeito Estufa), crescimento urbano desordenado e desmatamento com a redução da capacidade de absorção de água pelo solo, erosão do solo e assoreamento dos rios, construção de barragens, represas e outros projetos de engenharia alterando significativamente o fluxo natural de rios e córregos são algumas das causas mais relevantes apontadas por estudos de ambientalistas.
O Papa Francisco, em sua Encíclica Laudato Si – Louvado Sejas –, publicada em maio de 2015, trata justamente do cuidado com o meio ambiente e com todas as pessoas, bem como de questões mais amplas da relação entre Deus, os seres humanos e a Terra. O título da Encíclica foi inspirado no Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, no qual o santo louva a Deus meditando sobre a bondade do sol, do vento, da terra, da água e de outras forças naturais. O subtítulo da encíclica, “Sobre o Cuidado da Casa Comum”, propositadamente reforça o tema-chave.
Diante do contexto trágico em que estamos vivendo, vale a pena conhecer e refletir sobre algumas das exortações da Encíclica sobre a questão. Nela, o Papa reafirma que existe um “consenso científico muito consistente” de que as mudanças climáticas estão ocorrendo, bem como a evidência de que a atividade humana é o principal motor do aquecimento global e que as mudanças climáticas são “atualmente um dos principais desafios para a humanidade” (LS 25).
Afirma também que os esforços existentes para reduzir as mudanças climáticas têm sido profundamente inadequados, porque “muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas” (LS 26).
Diante do problema catastrófico, a Encíclica delineia várias maneiras de abordar a emergência climática e a crise da biodiversidade. As recomendações incluem uma redução drástica nas emissões de carbono e de outros gases de efeito estufa, o desenvolvimento de fontes de energia renovável e capacidade de armazenamento relacionada a uma transição para métodos de produção e transporte energeticamente eficientes (LS 26). Uma mudança no sistema de utilização de carvão e petróleo para energia solar e eólica e o aumento da proteção das florestas tropicais também fazem parte dessas recomendações (LS 38-39), além de outras mais.
Após várias outras exortações, verdadeiras preciosidades, a Encíclica recomenda a todos um estilo de vida focado menos no consumismo e mais em valores atemporais e duradouros. Propõe o foco na educação ambiental e em uma “conversão ecológica” na qual o encontro com Jesus levaria a uma comunhão mais profunda com Deus, com as outras pessoas e com o mundo natural. Concluindo, afirma que “enquanto a humanidade do período pós-industrial talvez fique recordada como uma das mais irresponsáveis da história, espera-se que a humanidade dos inícios do século XXI possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades” (LS 165).
Quando começo a refletir sobre isso tudo, muito além da tendência de pensar que o problema está somente com os outros, olho ao meu redor e confesso que me assusto com a quantidade de coisas erradas com que me deparo no dia a dia, fruto de atitudes inconsequentes. Desperdício absurdo de água com mangueiras abertas durante longos períodos, deixando os vizinhos sem água, lâmpadas acessas em residências e locais públicos sem nenhuma necessidade, descartáveis jogados aleatoriamente no meio ambiente, nos rios, nas ruas e nas praças públicas, alimentos não consumidos e estragados jogados fora de forma inadequada, enquanto muitos morrem de fome, tocos de cigarros acessos jogados pelas ruas e pelas estradas gerando incêndios desastrosos, consumismo exacerbado, compra e utilização excessiva de automóveis de grande porte para uma única pessoa como forma de status e muitos outros.
Pode parecer simplório diante da tamanha complexidade do problema, mas acho que vale lembrar o pensamento do Gandhi: “como seres humanos que somos, nossa grandeza não está em sermos capazes de refazer o mundo, mas de sermos capazes de refazer a nós mesmos”. Se cada um de nós fizer a sua parte, quer seja um governante, um político, um empresário ou um simples cidadão, com certeza, o resultado final será muito diferente! O meio ambiente agradece!
Quem tem ouvidos, que ouça!



