UFOP instala Bancos Vermelhos contra o feminicídio
Ação nacional coordenada pela Andifes transforma os campi em espaços de memória e prevenção contra a violência de gênero
Os bancos foram instalados em todos os campi da UFOP nesta segunda-feira – Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
O concreto do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), em Mariana, ganhou nesta segunda-feira (9) um novo e vibrante elemento: a cor vermelha de um banco que carrega o peso de uma causa urgente.
A instalação do Banco Vermelho na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) marca a adesão da instituição a um movimento nacional de conscientização e combate ao feminicídio, reafirmando que o espaço acadêmico é, acima de tudo, um lugar de defesa da vida.
A instalação de Bancos Vermelhos, realizada em todos os campi, não foi apenas um ato administrativo, mas um grito silencioso contra o feminicídio que ecoou pela UFOP.
A data não foi escolhida ao acaso. Segundo a vice-reitora, Roberta Eliane Santos Fróes, a manutenção do ato, mesmo diante dos desafios institucionais, reflete um compromisso assumido nacionalmente junto à Andifes. "Entendemos a importância de ter esses marcos simbólicos que levam à reflexão. A reflexão é o primeiro passo para as ações de prevenção", afirmou Roberta durante a instalação.
Mais do que um simples mobiliário urbano, o banco é definido pela vice-reitora como um "dispositivo pedagógico e social". Segundo ela, a intervenção visa romper a paisagem cotidiana para forçar uma reflexão necessária sobre a violência que interrompe trajetórias femininas.
Um memorial pedagógico contra o esquecimento

Durante a cerimônia de instalação, o tom humanista prevaleceu quando nomes e crimes que interromperam as vidas de mulheres foram lidos, transformando estatísticas frias em memórias vivas.
Casos como o de Larissa Maria de Oliveira, de apenas 25 anos, assassinada em Mariana no início deste ano junto com sua filha Maria Fernanda, de apenas 2 anos, foram lembrados para reforçar que a violência é uma realidade próxima.
Mais do que um elemento visual, o banco vermelho funciona como um dispositivo pedagógico e social. Ele interrompe a paisagem cotidiana para nos lembrar que cada ausência representa uma vida interrompida pela violência
Para Roberta, o banco é um convite para que ninguém passe por ele de forma indiferente. "Cada feminicídio não é apenas um número, é uma história que não pôde continuar. É uma mãe, uma filha, uma aluna que não conseguiu chegar ao amanhã", lamenta.
A educação como ferramenta de transformação
A iniciativa encontra eco nas discussões promovidas pelo Observatório Ariadnes, um espaço dedicado à crítica de mídia e educação midiática sob a perspectiva de gênero e sexualidade.

Para a coordenadora do observatório e professora de jornalismo, Karina Barbosa, a universidade, embora seja um local de saber, não está imune às desigualdades que alimentam a brutalidade contra a mulher.
O espaço de educação também é um espaço de violência de gênero. Quando fazemos uma intervenção dessa, estamos usando as ferramentas do próprio ambiente universitário para tentar mudar uma realidade que é brutal
Karina ressalta que o Ariadnes busca, justamente, habilitar um consumo midiático autônomo e cidadão, formando comunicadores que atuem de modo transformador no campo. Para ela, ações como a instalação dos bancos são fundamentais porque as mulheres que frequentam a universidade podem ser vítimas de feminicídio tanto dentro quanto fora desse ambiente.
Um compromisso nacional
A instalação nos campi de Ouro Preto, Mariana, Ipatinga e João Monlevade seguiu um cronograma nacional articulado pela Andifes. Mesmo ocorrendo em um período de férias e greve dos técnicos-administrativos — o que conferiu ao ato um caráter mais silencioso e contido — a data de hoje foi mantida por ser um compromisso simbólico e político inadiável com a rede de universidades federais.
O projeto faz parte de uma mobilização nacional liderada pelo Instituto Banco Vermelho, organização que nasceu da dor de duas mulheres que perderam amigas para o feminicídio. O movimento, que é amparado pela Lei Federal 14.942/24, utiliza a comunicação e intervenções urbanas para espalhar a mensagem de "Feminicídio Zero".

A mensagem é clara: o banco serve para que as pessoas possam "sentar para refletir e levantar para agir".

Lui Pereira
É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.







