UFOP instala Bancos Vermelhos contra o feminicídio

Ação nacional coordenada pela Andifes transforma os campi em espaços de memória e prevenção contra a violência de gênero

Atualizado em 09/03/2026 às 17:03, por Lui Pereira.

A imagem apresenta um banco de madeira pintado de vermelho vibrante, com pés de ferro trabalhado em cor preta. Ele está encostado em uma parede clara e rústica, sobre um piso de lajotas em tons de terracota.


O banco carrega uma forte mensagem social, detalhada abaixo:


Mensagem Central: No encosto, há uma placa retangular vermelha com letras brancas em caixa alta que diz:

Os bancos foram instalados em todos os campi da UFOP nesta segunda-feira – Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

O concreto do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), em Mariana, ganhou nesta segunda-feira (9) um novo e vibrante elemento: a cor vermelha de um banco que carrega o peso de uma causa urgente.

A instalação do Banco Vermelho na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) marca a adesão da instituição a um movimento nacional de conscientização e combate ao feminicídio, reafirmando que o espaço acadêmico é, acima de tudo, um lugar de defesa da vida.
A instalação de Bancos Vermelhos, realizada em todos os campi, não foi apenas um ato administrativo, mas um grito silencioso contra o feminicídio que ecoou pela UFOP.

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A data não foi escolhida ao acaso. Segundo a vice-reitora, Roberta Eliane Santos Fróes, a manutenção do ato, mesmo diante dos desafios institucionais, reflete um compromisso assumido nacionalmente junto à Andifes. "Entendemos a importância de ter esses marcos simbólicos que levam à reflexão. A reflexão é o primeiro passo para as ações de prevenção", afirmou Roberta durante a instalação.

Mais do que um simples mobiliário urbano, o banco é definido pela vice-reitora como um "dispositivo pedagógico e social". Segundo ela, a intervenção visa romper a paisagem cotidiana para forçar uma reflexão necessária sobre a violência que interrompe trajetórias femininas.

 

Um memorial pedagógico contra o esquecimento

A vice-reitora, Roberta Fróes mencionou diversos casos de feminicídio durante instalação do banco no ICSA – Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

Durante a cerimônia de instalação, o tom humanista prevaleceu quando nomes e crimes que interromperam as vidas de mulheres foram lidos, transformando estatísticas frias em memórias vivas.

Casos como o de Larissa Maria de Oliveira, de apenas 25 anos, assassinada em Mariana no início deste ano junto com sua filha Maria Fernanda, de apenas 2 anos, foram lembrados para reforçar que a violência é uma realidade próxima.

 

Mais do que um elemento visual, o banco vermelho funciona como um dispositivo pedagógico e social. Ele interrompe a paisagem cotidiana para nos lembrar que cada ausência representa uma vida interrompida pela violência

Roberta Eliane Santos Fróes, vice-reitora

 

Para Roberta, o banco é um convite para que ninguém passe por ele de forma indiferente. "Cada feminicídio não é apenas um número, é uma história que não pôde continuar. É uma mãe, uma filha, uma aluna que não conseguiu chegar ao amanhã", lamenta.

 

A educação como ferramenta de transformação

A iniciativa encontra eco nas discussões promovidas pelo Observatório Ariadnes, um espaço dedicado à crítica de mídia e educação midiática sob a perspectiva de gênero e sexualidade.

O ato faz parte de uma articulação nacional de universidades públicas – Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

Para a coordenadora do observatório e professora de jornalismo, Karina Barbosa, a universidade, embora seja um local de saber, não está imune às desigualdades que alimentam a brutalidade contra a mulher.

 

O espaço de educação também é um espaço de violência de gênero. Quando fazemos uma intervenção dessa, estamos usando as ferramentas do próprio ambiente universitário para tentar mudar uma realidade que é brutal

Karina Barbosa, coordenadora do observatório Ariadnes

 

Karina ressalta que o Ariadnes busca, justamente, habilitar um consumo midiático autônomo e cidadão, formando comunicadores que atuem de modo transformador no campo. Para ela, ações como a instalação dos bancos são fundamentais porque as mulheres que frequentam a universidade podem ser vítimas de feminicídio tanto dentro quanto fora desse ambiente.

 

Um compromisso nacional

A instalação nos campi de Ouro Preto, Mariana, Ipatinga e João Monlevade seguiu um cronograma nacional articulado pela Andifes. Mesmo ocorrendo em um período de férias e greve dos técnicos-administrativos — o que conferiu ao ato um caráter mais silencioso e contido — a data de hoje foi mantida por ser um compromisso simbólico e político inadiável com a rede de universidades federais.

O projeto faz parte de uma mobilização nacional liderada pelo Instituto Banco Vermelho, organização que nasceu da dor de duas mulheres que perderam amigas para o feminicídio. O movimento, que é amparado pela Lei Federal 14.942/24, utiliza a comunicação e intervenções urbanas para espalhar a mensagem de "Feminicídio Zero".

Cada banco instalado carrega informações sobre os cinco tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha e o contato do Ligue 180, o canal de denúncias do Ministério das Mulheres – Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

A mensagem é clara: o banco serve para que as pessoas possam "sentar para refletir e levantar para agir".


Lui Pereira

É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.