A Arte de Flutuar no Carnaval
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Foto: Luiz Loureiro/agência Primaz
Ouça o áudio de "A Arte de Flutuar no Carnaval", da colunista Andreia donadon Leal:
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A decoração carnavalesca de Mariana este ano não é apenas um adereço visual; é uma apresentação iconográfica de boias multicoloridas em neon, que fazem flutuar a imaginação, transformando o espaço público em um território de fantasia.
A montagem antecipada do cenário carnavalesco, é algo que se espera de uma administração pública planejada. O palco foi preparado antes das luzes se acenderem, para ascender o espírito de alegria dos foliões gaveteiros e turistas.
Num breve mergulho na semiótica que compõe essa paisagem, detenho-me na dualidade entre significante e significado. O significante “boia” remete-nos a seu significado dicionarizado, referente ao objeto flutuante, cilíndrico ou cônico, destinado a balizar passagens, garantindo segurança e direcionamento da navegação de embarcações. Mas nós não usamos as palavras com os significados dos dicionários, nós as usamos com os significados da nossa imaginação.
Na leitura poética do nosso Carnaval, a boia transcende sua função náutica. Ela se torna um balizamento terrestre: guia a passagem dos blocos, ordena o fluxo das multidões e serve como porto seguro para a alegria. Se no mar a boia evita colisão com rochas ou embarcações de rotas contrárias, na avenida ela evita o esquecimento da nossa essência festiva, representando os sentimentos de proteção e fluidez que permeiam a maior manifestação da cultura popular brasileira.
Como nossa imaginação comanda os significados das nossas palavras, a percepção da arte e da festa é um espelho da nossa imaginação. É inevitável considerar que o olhar humano é multifacetado. Aqueles que cultivam um espírito excessivamente crítico — muitas vezes treinados pela amargura — tendem a enxergar apenas o que falta, ignorando o que transborda. Para esses, a beleza do sol, a imensidão do mar e a pureza do vento tornam-se invisíveis diante da busca obstinada por defeitos. É o olhar viciado que aponta a imperfeição na luz, sem perceber que é a própria luz que permite a visão.
Nossas impressões são moldadas pela bagagem que carregamos e pela capacidade da nossa cognição de processar o mundo. Como bem ensinou Aristóteles, a realidade que percebemos é limitada pelo que nossa estrutura cognitiva nos permite alcançar: "a alma nunca pensa sem uma imagem". Aqueles que se permitem ao exercício da sensibilidade conseguem enxergar na simplicidade de uma boia ou no brilho de uma bola uma profundidade metafísica. A imaginação faz a mente flutuar em enredos flutuantes. Outros, no entanto, permanecem prisioneiros de uma visão utilitarista e limitada.
O essencial neste carnaval é descobrir a fascinante capacidade humana de encontrar beleza nas coisas simples — vendo nelas a grandeza da simplicidade, que abre sorrisos de acolhimento, abraços de proteção e convite para dançar nos passos alegres dos ritmos carnavalescos.
A decoração com boias em cor neon nos convida a uma experiência de elevação. Flutuar é, essencialmente, o ato de desprender-se das amarras e agruras do cotidiano. Não é coincidência que o bordão mais emblemático do nosso Carnaval seja: “Sai do chão, sai do chão!”. O grito da massa é um convite à transcendência.

Andreia Donadon Leal
Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura, Especialista em Arteterapia, Artes Visuais e Doutoranda em Educação. Membro da Casa de Cultura- Academia Marianense de Letras, da AMULMIG e da ALACIB-MARIANA. Autora de 18 livros










