Mariana (MG), 13 de agosto de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
Publicidade
https://agenciaprimaz.com.br/apidata/imgcache/f43c07b96fcc27650e177832a130ef67.webp

A casa, o jardim e o tempo

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Fotografia frontal de um grande casarão histórico de dois pavimentos, em estilo colonial, com a fachada revestida por azulejos em tons de azul e branco. O imóvel apresenta sinais severos de deterioração: parte significativa da cobertura desabou, deixando expostas as estruturas de madeira do telhado, especialmente na ala esquerda e no pavimento superior. As janelas e portas de madeira estão fechadas ou danificadas, e há uma pequena sacada central no andar superior. Em primeiro plano, árvores e vegetação parcialmente encobrem a fachada, enquanto um muro baixo de pedras delimita o terreno. A imagem evidencia o estado de abandono e o risco estrutural do edifício histórico.

Foto: Rafael Rodrigues/Pexels

Leia o texto, ou ouça o áudio da coluna de Giseli Barros:

Ninguém na casa. As janelas estão cerradas há muito tempo. Há mais de um vidro quebrado, resultado de alguma bola distraída entre gritos e tropeços de crianças. Na parte central, a porta de madeira de lei parece sustentar aquilo que o imóvel foi no passado. No entanto, quem passar por essa casa e, por um instante, observá-la um pouco, notará, com certa surpresa, o jardim. Ao passo que a construção se desgasta, de algum modo, ele se renova. Mais antiga do que a edificação, a árvore é frondosa. Também há roseiras e bougainvilles que, constantemente, florescem. A porta um dia estará no chão, porque as paredes estão mortas. O jardim resiste. Às vezes, se alguém reclama e fala da trepadeira que invade a residência vizinha, do mato que torna o espaço assombrado, uma enxada aparece ritmada por algumas horas, desaparecendo em passos furtivos e solitários. Protegido por muros de tijolos vermelhos, o silêncio é lúgubre e permanente.

Não é a primeira e nem a última da rua, compondo a arquitetura de uma via íngreme em um constante ziguezague. Em algum momento do dia, costurando a ladeira, um passante para perto dela para recuperar o fôlego. Uma senhora nota um galho que vence o muro. É uma tarde fria, quase chuvosa. As janelas fechadas aconchegam o interior das outras moradias. Ela, então, aproxima-se e repara bem como os galhos dançam, abrigando a fina chuva que começa a cair. Quebra um pedaço do galho e pensa na resposta curta para quem possa recriminar a ação. “O que está na rua não tem dono.”, ensaia. Guarda-o na sacola de compras e segue alinhavando o calçamento de pedras com passos agora mais ligeiros.

Publicidade
/apidata/imgcache/344ad284c9449987f546068863030cfc.webp?banner=postmiddle&when=1786625687&who=345

Não é a primeira e nem a última da rua. Duas janelas de madeira em estilo colonial. Uma porta imponente. A parede tem a pintura muito desgastada. Na parte inferior, o limo espesso, bastante esverdeado, contrasta com ela. Em uma das janelas, como bem já se notou, há vidros quebrados. Dois ou três. É preciso atravessar o portão para se ter a certeza disso. A porta impõe respeito aos passantes. Ninguém se atreve a entrar nessa casa. A maçaneta é toda ornada. Se alguém carregar a chave que abre essa porta e deixá-la cair, de longe será ouvido o estrondo do metal. Não há olho mágico nessa madeira tão imponente. Ninguém se atreveria a isso. O olhar curioso só pode atravessar o lugar vazio a que pertence a chave. No entanto, não há uma chave disponível. É bem possível que ela esteja no fundo de uma gaveta, tão esquecida quanto as memórias dessa casa.

Faz tempo, um grupo de meninos subia a rua. Pernas cheias de poeira. O mais falante trazia a bola debaixo do braço. O que vinha mais atrasado, sempre catando uma pedra no chão, tentando acertar um gato ou a canela dos que estavam à frente, pediu a bola para mostrar o que havia aprendido mais cedo no campinho. Ninguém ligou. Os meninos seguiam animados. Queriam vencer logo a subida. Um deles precisava chegar logo à última casa. A mãe já estaria esperando pronta para ralhar sobre atrasos e sujeiras. O de trás gritou. Ninguém parecia ouvi-lo. Então, enchendo os pulmões de ar, assoviou o mais alto que pôde. A turma toda paralisou. Era o chamado especial do grupo. O garoto insistiu. Precisava realizar a proeza mais uma vez. O líder do grupo entregou-lhe a bola. Fez-se silêncio. O menino desafiava a gravidade. De repente, jogou a bola para cima e, em seguida, deu um chute bem forte. O estrondo fez todos correrem. Um vizinho veio logo até o portão. Gritou muito. Falou desaforos. Disse que chamaria a polícia. Um dos garotos teria de explicar como a bola fora perdida. “Complicação desnecessária”, uma voz entre eles dizia. Houve, num instante, forte rebuliço. Um dos meninos queria briga, porém todos perderiam ainda mais. O melhor era chegar rápido ao destino. Haveria alguma solução à espera.

Publicidade
/apidata/imgcache/66387d20fbe8cce8c9c717e0faedafe0.webp?banner=postmiddle&when=1786625687&who=345

Não é a primeira nem a última da rua. Uma das janelas parece adormecida ou, talvez, recolha algum sonho de muito longe. Pelo padrão da construção, atrás dos vidros intactos, há um quarto. Não se sabe se foi do casal ou de um filho. Talvez, tenha sido de uma filha. Talvez, ela esperasse, principalmente nas noites do fim de semana, uma voz que sussurrasse seu nome, ou que apenas jogasse uma flor debaixo dessa mesma janela, para que pudesse adormecer acompanhada das promessas de um amor que começasse a ser forjado ainda inocente. Da outra janela, se fosse permitido passar pelo portão, poderia ser vista a sala de visitas através dos vidros quebrados. Nesse espaço, talvez, esses jovens se sentariam às tardes do domingo, após o almoço, sob o olhar impositivo do pai dela. A menina ficaria com o rosto corado, esperando a mãe vindo da cozinha, trazendo o café para o homem que precisava mostrar ao rapaz que a vida exige limites e responsabilidades.

Publicidade
/apidata/imgcache/e9bd5514f213916015e37de1ab9ceab3.jpeg?banner=postmiddle&when=1786625687&who=345

Ninguém atravessa o portão com regularidade. De vez em quando, um vizinho reclama das folhas que sujam a pequena varanda. Diz que alguém precisa dar um jeito nisso. Falta paciência e tempo para varrer tantas folhas da entrada de casa todo santo dia. Esbraveja e ameaça cortar aqueles galhos desaforados ele mesmo. A porta continua intacta, mas logo aparece uma roçadeira e uma tesoura de jardinagem. Tão logo o portão é aberto, o perfume das flores ocupa os espaços. Um passante sobe em ziguezague e para por um momento. Talvez, ele tenha sido um dos garotos daquela tarde, ou o rapaz que trazia sonhos inocentes para a namorada, mas a rua continua. Ela exige passos firmes e contínuos. E, assim que o silêncio toma o seu lugar, tudo vira memória novamente. A parede está cheia de limo, há uma árvore mais antiga que a casa, roseiras e bougainvilles, duas janelas adormecidas, uma porta imponente ao tempo, além de um vizinho, aparentemente, feliz.

Publicidade
/apidata/imgcache/344ad284c9449987f546068863030cfc.webp?banner=postmiddle&when=1786625687&who=345
Compartilhar

Leia também

Centro POP celebra sete anos de atuação em Mariana Cidades

Centro POP celebra sete anos de atuação em Mariana

Câmara de Mariana realiza a 5ª edição do Mérito Esportivo Esporte

Câmara de Mariana realiza a 5ª edição do Mérito Esportivo

Moradores relatam problemas de saúde agravados pelo barulho do Autoparque Bauxita Cidades

Moradores relatam problemas de saúde agravados pelo barulho do Autoparque Bauxita

Publicidade
/apidata/imgcache/344ad284c9449987f546068863030cfc.webp?banner=middle&when=1786625687&who=345