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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos:
Poucos personagens da história despertam tanta perplexidade e terror quanto Adolf Hitler. É quase impossível acreditar que um único homem conseguiu arrastar uma das nações mais cultas do mundo para uma guerra devastadora e para o extermínio sistemático de milhões de pessoas. A resposta não está apenas na política ou na economia, ela também passa pela compreensão da mente humana e a Psicanálise pode nos ajudar a esclarecer algumas questões nesse sentido.
Algumas interpretações psicanalíticas clássicas revelam que possivelmente a relação de Hitler com seu pai, Alois Hitler, descrito como excessivamente autoritário e severo, pode ter influenciado fortemente a formação de sua personalidade. A hipótese é de que uma infância marcada por uma figura paterna fortemente dominante poderia ter contribuído para o seu fascínio pela autoridade, para a valorização da força e para a dificuldade com a vulnerabilidade.
Os relatos históricos afirmam que Hitler possuía uma mentalidade de possuidor de uma missão de divina, de predestinado, de salvador da pátria, o que na linguagem da Psicanálise se aproxima do que é chamado de Narcisismo Patológico, ou seja, uma necessidade intensa de sentir-se superior, indispensável e infalível. As pessoas com esse perfil costumam reagir muito mal às críticas e tem uma dificuldade enorme em admitir que erram, porque isso significaria ferir profundamente a imagem grandiosa que construíram de si mesmas. Na linguagem freudiana, poderíamos pensar em um ego ameaçado que cria uma fantasia de onipotência para compensar sentimentos de humilhação ou impotência. Aliás, vale lembrar que, ironicamente, Adolf Hitler nasceu em uma família católica da Áustria, foi batizado, fez a Primeira Comunhão e chegou a pensar em se ordenar padre.
A biografia de Hitler nos mostra experiências que podem ter alimentado ressentimentos profundos, tais como fracassos pessoais, relacionados à sua rejeição como membro da Academia de Belas Artes de Viena, a pobreza e a marginalização na juventude, a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e o sentimento nacional de humilhação, após a derrota da Alemanha e o Tratado de Versalhes. Em uma leitura psicanalítica poderíamos dizer que ele transformou uma dor interna em uma narrativa externa do tipo "eu não fracassei, nós fomos traídos", onde o sofrimento pessoal foi deslocado para um sentimento institucionalizado e para inimigos imaginários.
Ainda do ponto de vista psicanalítico, temos alguns mecanismos que parecem particularmente relevantes com relação a Hitler. Um deles é o Mecanismo de Projeção, que ocorre quando a pessoa coloca no outro aquilo que não consegue aceitar em si mesma, como o fato de ele atribuir aos judeus características negativas e ameaçadoras, colocando-os como um "inimigo" responsável por todos os problemas.
Outro aspecto é a ausência de empatia e a desumanização. Esse certamente foi um dos aspectos mais assustadores cultivados por Hitler e pelo nazismo, transformando pessoas em "objetos" ou "ameaças". A Psicanálise enfatiza que a capacidade de reconhecer o outro como sujeito depende do desenvolvimento da empatia e da integração emocional. Quando o outro é visto como coisa, torna-se mais fácil justificar sua destruição. No caso nazista, a propaganda trabalhou sistematicamente para retirar a humanidade de judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais e outros grupos perseguidos.
Seria um erro imaginar que Hitler pertence apenas ao passado. A Psicanálise nos alerta para algo muito mais inquietante: os mecanismos psicológicos que favoreceram sua ascensão continuam existindo dentro da natureza humana. Sempre que o diálogo é substituído pelo ódio, o diferente passa a ser visto como inimigo, líderes são tratados como infalíveis, a mentira é repetida até parecer verdade e as emoções vencem completamente a razão, estamos diante de sinais muito perigosos.
O mal raramente pode até surgir de um único indivíduo, mas ele cresce quando encontra pessoas dispostas a abrir mão do pensamento crítico e da responsabilidade moral. Conhecer a mente de Hitler não é apenas olhar para o passado; é um convite a vigiar o presente. Quando o ódio, o fanatismo, a criação de mitos, a desumanização e a utilização do nome de Deus para defender causas espúrias encontram terreno fértil para florescer, o caos pode estar muito próximo. Infelizmente, de forma assustadora, esse fenômeno pode estar acontecendo com o surgimento, nos últimos tempos, de líderes capitalistas e tiranos disfarçados de bens-feitores. O maior problema é que uma quantidade enorme de pessoas, entre eles muitos cristãos, não estão percebendo isso e vão seguindo em frente como uma boiada...
Quem tem ouvidos, que ouça!





