Mariana (MG), 10 de agosto de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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As bonecas também choram

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Foto: Reprodução

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Giseli Barros:

“Diga ‘oi’ pro tio. Anda, menina!”, disse a mulher, enquanto colocava as compras no carro. “Coisa boa ter encontrado um conhecido na saída do mercado. Olha pra esse ponto de ônibus. É muita gente.”, e sorriu bem agradecida de não ter de enfrentar o tumulto com as compras e a filha. Gastou mais tempo com as tarefas do que havia planejado. Agora, o céu se coloria de cinza e laranja, deixando-a apreensiva. Mas, a menina nem sentia pressa de voltar para casa.

De repente, as cores se misturaram de vez. O céu todo fechou em si mesmo. Um aguaceiro forte batia nos vidros do carro, e a escuridão envolveu a garota num abraço de dor. Tão perto da mãe, no entanto, não sabia por que sentia o maior medo da sua vida. Procurou esforçar-se ao máximo para controlar as batidas do coração. Observou que o banco traseiro continha umas caixas, sendo impossível fugir para lá. Instantaneamente, tudo à sua volta começou a girar. Já não identificava mais as placas que costumava ler nas viagens rotineiras. Talvez estivessem chegando em casa, mas sentia o tempo parar de vez, como se dali não fosse mais se libertar.

Entre o barulho que se misturava do rádio, dos trovões, da voz do homem e da mulher que conversavam, a menina pouco entendia sobre o que se passava alheio à sua presença. Encolhia-se como podia, e, de repente, apertou forte a mão da mãe. “Calma, menina! A chuva está diminuindo.” E o homem sorriu, dando uma piscadela, sabendo do seu triunfo. Mais umas manobras e a carona terminaria, deixando a mulher satisfeita pela boa ação de um conhecido tão prestativo. “Pronto. Chegaram.” Ele disse, oferecendo ajuda para levar as sacolas até o portão. A mulher, porém, não quis abusar do auxílio, distribuindo o peso com a filha. E foi nesse instante que a garotinha sentiu um alívio imenso, porque da porta de casa ouviu uma voz bastante conhecida.

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Dias vistos da janela de casa. O céu brincando com as mesmas cores. Com os dedos criava caminhos para a chuva que escorria pela vidraça. Das bonecas da estante, uma era a sua predileta. Contou para ela do passeio que fez em outra tarde. Mostrou a marca roxa da perna. Viu uma semelhante na boneca. “’Esconda isso, tá bom?”, e puxou a saia da amiga. “Não conta para a mamãe, porque eu não sei como me machuquei.” A boneca também não sabia.

E parou de chover.

No entanto, elas não imaginavam que, às vezes, tempestades vêm em dias ensolarados. A mãe insistiu para que a filha fosse tomar sol, mas teria de ficar perto de casa. Então, com as bonecas, começou a servir um lanche no jardim. Zelosa, a mulher tinha certeza de que tudo estava sob o seu controle. O pai sentia orgulho de cuidar das duas. Ambos não permitiam certas intimidades de adultos com a criança. Os anos seguiam vendo-a crescer sob um lar protetor. Fechou os olhos e pensou na mulher feliz que a menina seria um dia. Imaginou o amor para ela. Foi então que sorriu com todo o coração. Viu, nesse momento, a marquinha na perna da filha, contudo, antes de perguntar sobre o que havia acontecido, porque crianças batem o tempo todo nos lugares, atendeu o telefone e acenou para o conhecido que morava logo ali. “Posso brincar com as minhas colegas, mamãe?”, quis saber. “Claro que sim!”, e ponderou que não deveria chegar depois do pai, para que pudessem ficar juntos no jantar. Atenta, consentiu com um gesto, pegou a boneca preferida, indo ao encontro das amigas do outro lado da rua. Tudo tão calmo. Tudo tão bom. Um dia tranquilo, normal como tantos outros.

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As horas passando. As estrelas acendendo a noite. Nenhuma criança na rua. Alguém teria visto a garotinha voltando para casa, até o conhecido que morava ali perto também comentou a respeito. E era assim mesmo, porque elas são desse jeito, estendem a brincadeira e nem percebem o passar das horas. É da natureza serem tão distraídas. Logo estaria em casa.

O vazio.

O silêncio.

Mais estrelas no céu. A cada minuto, uma estrela. No caminho, o brinquedo. Naquele instante, a mãe teve a certeza de tudo, porque a boneca revelava o seu segredo, marcas de um silêncio aterrador. A mãe não conseguia acreditar que o perigo espreitava tão de perto.

Perto demais.

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