Carpe diem

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Atualizado em 31/03/2023 às 12:03, por Giseli Barros.

Foto: Lauro Soares

Ouça a coluna de Giseli Barros:

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Para Lucas Alves

A vida é agora.

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O dia nasce preguiçosamente. É prenúncio do inverno. A casa desperta devagar, e cada um se prepara para as tarefas inadiáveis. Ele desce a rua íngreme, atravessa a ponte, passa pela rua Direita, chega à Praça da Sé. No Jardim, há vestígios do dia anterior: conversas, planos, saudades. Segue pelas ruas centenárias. No prédio antigo, o sino acorda os alunos. Cheiro de café. A cantina é pequena. Primeiros encontros. À espera do sol, o pátio (pequeno palco) já se faz acolhedor. Passos nos corredores. Burburinhos. Ele entra na sala e ocupa o primeiro lugar próximo à porta. Uma blusa de lã, calça de moletom, chinelos, meias. Passa a mão pelos cabelos e seu sorriso preenche o espaço.

Parece sempre captar instantes, como se quisesse armazenar, cuidadosamente, as imagens. É gentil e irreverente. A voz é calma. Tem sotaque. Veio de um pequeno município mineiro. Fala de Cássia. Tem jeito de menino, mas sabe que a vida é agora. Tem planos. Abriga-se da saudade entre aqueles que também estão longe de casa. Irmão mais velho? Há maturidade na observação. Os dias correm. Provas, seminários, mais tarefas. A arte faz parte dele. Em tudo. Está no palco. O curso caminha. Vai chegar a hora do retorno para a cidade materna. É intenso. Olha tão profundamente, como se abraçasse a todos que lhes são caros. Chega o último dia de aula. “Depois, vamos para o Jardim.”, ele quer estender o tempo. Mariana se fez casa. Agora, as melhores fantasias das festas ficarão somente nos retratos. Pasta guardada no computador. Tempo da máquina digital.

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Pelas redes sociais, as conexões com os amigos do passado recente. Depois de um tempo, da cidadezinha de nome santo, chega ao lugar de nome imponente: Imperatriz. Distante. Está em São Luiz do Maranhão. Novos laços. Professor. Artista. Encontra o amor. Parceria. Fala assim, num retorno rápido a Minas, na festa de carnaval, num reencontro inesperado: “Estou muito feliz.” Olha para o lado. O sorriso largo: espelho da sua alma.

Compartilha as conquistas. Pensamentos a mil. Sofisticado na simplicidade. Elegante. Desenvoltura diante das câmeras. Multifacetado. Seu maior plano: VIVER. Não precisa dizê-lo. Há dinamismo nas ações. É encantador. Autêntico. Ocupa a sala de aula ciente do seu papel. Ofício árduo por aqui. Enfrenta o desafio. Professor com arte. O microfone. A literatura. A humanidade nas letras, no teatro ampliando olhares para novas perspectivas. Ciente de ter escolhido a comunicação, faz-se continuamente estudante. Os alunos aguardam mais um texto, novo espetáculo. Os amigos esperam novos projetos.

Contudo, a vida é paradoxo. Ela tem seus caminhos e paradas, e aquele que sabe da urgência do tempo desdobra-se. Hoje é oportunidade, mas, sem previsão, encerra o ato. Assim, de forma inesperada, sem ensaios. Tal como um romance de Clarice, uma narrativa de Saramago, ou uma peça contemporânea, o desfecho acontece juntamente com o clímax. Repentinamente. Ninguém entende. Ainda diante do palco, a plateia espera as luzes se acenderem. Permanecemos imóveis. Demora um pouco para compreender. O artista segue viagem. Assim é. Não perceberam? Não há ensaios, e foi isso que ele disse a todo tempo, sorrindo inteiro, amando a vida intensamente. Todos os dias.


Giseli Barros

Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana