Circunstâncias

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Atualizado em 09/06/2023 às 12:06, por Giseli Barros.

Foto: Thái An/Unsplash

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Chovia e a sombrinha danificada a impedia de se proteger. Era uma tarde fria de outono. Ela enfrentava a rua cheia, desviando-se de cotoveladas, dos respingos de sacolas e de guarda-chuvas. Depois de um tempo, entre malabarismos, conseguiu chegar até o ponto de ônibus. O trânsito congestionado minava o seu resto de humor. A roupa ficando, cada vez mais, encharcada. Ônibus lotado. Reparava na fila enorme e na maneira como as pessoas se esbarravam, para chegar até os dois degraus que davam acesso ao transporte. Impossível espremer tanta gente. Olhava para o relógio e calculava o tempo de espera. Resolveu aguardar o próximo. Poderia chamar um carro pelo aplicativo. Estimava o preço da corrida. Imersa nos pensamentos, não ouviu que lhe chamavam. O carro, agora, mais próximo, não a trazia de volta, mas o motorista insistiu. Sem levantar os olhos do celular, fez um sinal negativo. “Não quer a carona?’, ele perguntou. Ela reconheceu a voz. Decidiu aceitar. E conversaram por todo o trajeto.

Enfim, não tinha sido tão ruim aquela tarde. Havia recebido um telefonema, antes do almoço, alterando os planos do dia. O advogado tinha a papelada pronta para assinar. Diante do espelho, forjava uma conversa, para que o encontro longamente evitado acontecesse sem maiores contratempos. Contudo, nada do que esperava aconteceu, apenas a indiferença entre duas pessoas que nem se reconheciam mais. E a data? A mesma do primeiro encontro. Quatro pessoas na sala. Duas falavam. Uma indiferente. A outra, contemplando o vazio.

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Ao atravessar a porta, nem quis olhar para trás. Ainda ouviu as primeiras palavras que ele enviava, ali, por mensagem, sabendo que a vida continuava. Parecia feliz, com a voz confiante e carinhosa. Não reconhecia mesmo a pessoa. De início, a chuva e o movimento da rua lhe aborreceram. Porém, em casa, fazia as contas e o saldo era positivo. Não teria mais de aguardar telefonemas imaginários. Aproveitou as horas de folga para limpar os sonhos. Faxinou ressentimentos e jogou fora os resquícios de mágoas com as cartas recebidas. Mediu o tempo da espera e do fim. Permitiu que os dias viessem. Viveu a própria companhia. Curou-se. E, distraidamente, viu novas cores.

Ao final de uma tarde, distraidamente, a mesma voz daquele dia de chuva. Sorriu. Por mais de uma vez, havia lembrado da carona inesperada e do convite para o café. Naquela tarde, não aceitou. Estava muito cansada. Acabara de sair de uma reunião exaustiva. Precisava chegar em casa e cuidar de algumas tarefas. Além disso, a roupa molhada. Ele não insistiu. Disse que teriam outra oportunidade. Agora, a conversa prolongava na mesinha que lhe parecia bem aconchegante. Permitia-se apreciar a bebida quente, na xícara de porcelana, enquanto reparava na alegria do seu interlocutor. Era a chegada de um novo outono.


Giseli Barros

Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana