No último domingo (12), o Cine Teatro de Mariana foi tomado por risos, suspiros e aplausos de pé. A abertura da programação de 20 anos da Cômica Cia de Teatro não poderia ter sido mais simbólica: Sonhos de uma Noite de Verão, clássico de William Shakespeare, ganhou uma versão vibrante, popular e absolutamente brasileira, daquelas que fazem o público sair leve e com aquela vontade de voltar logo no dia seguinte.
Com direção de Alex Carvalho, o espetáculo, que beira duas horas de duração, passou “voando”, como definiu boa parte da plateia. E não é exagero: entre amores desencontrados, personagens excêntricos e um universo mágico que se desenrola na floresta, o tempo parece mesmo suspenso.
Mas se Shakespeare escreveu sobre sonhos no século XVI, a Cômica tratou de atualizá-los com identidade própria. E aí entra um dos grandes trunfos da montagem: a trilha sonora. Entre clássicos do forró pé de serra e da MPB, o público foi embalado por canções como “O xote das Meninas” de Luiz Gonzaga, “Não Identificado”, do Caetano e “Homem com H” de Ney Matogrosso. Resultado? Um teatro inteiro que, cantando baixinho, ria alto, se deixando levar pela peça.

Magia, humor e brasilidade
Para muitos, a noite foi também um reencontro com o teatro. A estudante Milla Leodoro Sales, de 18 anos, resume a experiência:
Não vou ao teatro há muitos anos. Quando me chamaram, fiquei animada e foi incrível. Os figurinos, a atuação… tudo muito bonito. As músicas me prenderam muito, nem vi o tempo passar
A peça, com figurino produzido por Jackson Santos, relembrou algo que muitas vezes passa despercebido pelos espectadores: a importância de cada detalhe dentro da arte. Melissa Gomes da Silva, estudante de jornalismo pela UFOP, afirmou ter ficado hipnotizada pelo vestido de Titânia, interpretada por Ana Beatriz Ribeiro. “Não, eu fiquei totalmente encantada. A troca de figurinos também, cada detalhe, do colar, do vestido a coroa, não dá…fiquei apaixonada”, afirmou a estudante.
Mais do que um espetáculo, a apresentação reafirma algo maior: o teatro como espaço de pertencimento dentro de uma comunidade.“É uma forma de acolher, de mostrar que existe entretenimento aqui. Que não precisa sair da cidade para encontrar arte de qualidade”, apontou Melissa, que mesmo não sendo um frequentadora assídua do teatro, afirmou sobre a importância de se apreciar a arte local, principalmente “aqui em Mariana, que o teatro é bem conservado, isso precisa ser valorizado, a gente tem tudo aqui”.

Um espetáculo que também é memória
Para o diretor Alex Carvalho, a escolha da peça para abrir a programação não foi por acaso. Sonhos de uma Noite de Verão carrega um significado especial para o grupo, que em meio a pandemia se viram obrigados a se renderem ao mundo virtual, onde iniciaram as primeiras leituras do espetáculo. “Foi a montagem do nosso retorno após a pandemia. Começamos com leituras remotas, sem saber se voltaríamos aos palcos. Estrear em 2022 foi um reencontro. E abrir essa celebração com esse espetáculo é reviver tudo isso”, comemora.
Para Alex, ser artista é isso, persistir em meio às turbulências, “porque enquanto existir a arte, também haverá espaço para sonhar.“ E completa, com uma reflexão dita por Teseu dentro da peça: “os sonhos criam essas ilusões, mas ao mesmo tempo trazem esse colorido pra nossa vida. E o artista quanto esse poeta também, que ousa ver a vida de uma outra forma, às vezes se engana, mas também traz uma outra forma de encarar a realidade, o nosso cotidiano”.
A apresentação integra a programação comemorativa da companhia, que celebra duas décadas de trajetória com espetáculos gratuitos em Mariana e distritos, enaltecendo a resistência em ser artista no Brasil e principalmente, no interior.
Ao longo desses anos, a Cômica Cia de Teatro construiu um repertório diverso e uma relação profunda com o público, isso ficou evidente no último domingo.
Entre risos, músicas e magia, o que se viu no Cine Teatro de Mariana foi um encontro, um lembrete de que, como diria o próprio Shakespeare, talvez sejamos mesmo “tolos mortais” mas, quando o teatro acontece assim, ser tolo é um privilégio.
E Mariana, naquela noite, sonhou acordada, como o desfecho de Puck, quando clamou “Se tivermos a sorte de escapar das vaias de vocês, faremos melhor da próxima vez.” O que foi engraçado em um teatro que em pleno outono, não só aplaudiu de pé, como foi embora ansiando o próximo sonho de uma noite de verão.



