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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos:
Nós escolhemos nosso destino ou ele já está traçado? Afinal, somos realmente livres? Essas talvez sejam as perguntas mais antigas da humanidade que continuam desafiando filósofos, cientistas e religiosos e estão relacionadas aos profundos conceitos de determinismo, predestinação e livre-arbítrio. Vale a pena refletir sobre o assunto.
O determinismo parte do princípio de que tudo que acontece possui uma causa anterior. Em outras palavras, cada acontecimento seria consequência inevitável de acontecimentos passados. Imagine uma fileira de peças de dominó. Quando a primeira cai, ela derruba a segunda, que derruba a terceira, e assim sucessivamente. Para o determinismo, nossa vida funcionaria de forma semelhante, nossas decisões seriam resultado da genética, da educação, da cultura, das experiências vividas e das circunstâncias do momento. A Psicanálise nos mostra que esses fatores citados influenciam nossas decisões sem que percebamos, pois estão guardadas no nosso inconsciente e que reconhecer essas influências não significa, necessariamente, negar a liberdade humana.
A predestinação pertence principalmente ao campo da religião. Segundo essa ideia, Deus conhece e dirige a história da humanidade desde toda a eternidade. Em algumas tradições religiosas, acredita-se que Deus já determinou antecipadamente quem será salvo ou condenado. É importante distinguir dois conceitos que muitas vezes são confundidos: saber o que acontecerá não é o mesmo que causar o acontecimento. Deus conhecer o futuro não significa, necessariamente, obrigar alguém a agir de determinada maneira. Esse é um dos grandes debates da teologia há muitos séculos.
O livre-arbítrio é a capacidade de escolher entre diferentes possibilidades. Quando decidimos ajudar alguém, perdoar uma ofensa ou mudar um hábito, sentimos que poderíamos agir de outra maneira. Essa experiência cotidiana alimenta a ideia de que somos responsáveis por nossas escolhas. Grande parte das tradições religiosas e filosóficas considera que não faria sentido falar em responsabilidade moral se o ser humano fosse completamente incapaz de decidir. Se ninguém pudesse escolher, também não haveria mérito, culpa, justiça ou arrependimento.
A Psicanálise oferece uma visão muito interessante sobre esses conceitos. Para Freud, não somos tão livres quanto imaginamos. Grande parte da nossa vida psíquica permanece inconsciente. Desejos reprimidos, experiências da infância, traumas, conflitos e mecanismos de defesa influenciam nossas atitudes diariamente. Entretanto, o objetivo da análise não é provar que somos escravos do inconsciente. Pelo contrário, ao tomar consciência dos próprios conflitos, o indivíduo amplia sua capacidade de escolha, ou seja, quanto maior o autoconhecimento, maior tende a ser a liberdade. A liberdade, nessa perspectiva, não consiste em fazer qualquer coisa, mas em compreender por que fazemos aquilo que fazemos.
Enfim, surge uma pergunta que não quer se calar: existe uma resposta definitiva?
Provavelmente não! Cada área do conhecimento enfatiza aspectos diferentes. A Física procura compreender as leis que governam a natureza, a Biologia estuda a influência da genética, a Psicologia investiga o desenvolvimento humano, a Filosofia pergunta o que significa ser livre, a Teologia reflete sobre a relação entre Deus e a liberdade humana e a Psicanálise explora o inconsciente. Todas essas perspectivas contribuem para ampliar nossa compreensão.
A realidade é muito mais complexa do que escolher entre "tudo está determinado" ou "somos completamente livres". Nascemos com características genéticas que não escolhemos, somos educados em famílias que não escolhemos, vivemos em uma cultura que influencia profundamente nossa maneira de pensar e passamos por experiências que deixam marcas emocionais duradouras, mas apesar de todas essas condicionantes, continuamos capazes de refletir, amadurecer, aprender, rever valores e transformar nossa maneira de viver. Nossa liberdade talvez não seja absoluta, mas também não parece ser inexistente. A Psicanálise nos ensina que quanto mais conhecemos as forças inconscientes que nos movem, mais livres nos tornamos para escrever os próximos capítulos da nossa própria história.
Quem tem ouvidos, que ouça!




