Entrevista Primaz – Linda Vianna (Boca de Dunas)

Artista independente fala sobre hip-hop, arte-educação, crítica ao território e a construção do laboratório criativo Boca de Dunas

Atualizado em 26/02/2026 às 14:02, por Larissa Antunes.

A imagem mostra duas mulheres jovens em um estúdio de gravação de podcast. Elas estão sentadas frente a frente em uma mesa de madeira rústica e comprida.

À esquerda, a convidada Linda Vianna sorri para a câmera. Ela tem cabelos curtos e cacheados, usa um top com estampa de oncinha que deixa a barriga de gravidez à mostra, uma camisa jeans aberta por cima, colar com uma pedra grande e tem tatuagens no braço direito. Ela apoia a mão esquerda suavemente sobre a barriga.

À direita, a entrevistadora Larissa Antunes também sorri. Ela tem cabelos escuros ondulados na altura dos ombros e veste uma camisa jeans fechada sobre uma blusa preta. À sua frente, sobre a mesa, há um tablet em um suporte.

No centro da mesa, entre as duas, há um microfone condensador dourado e uma caneca personalizada. Ao fundo, a parede é revestida com espuma acústica escura. Entre as duas mulheres, há uma tela de TV fixada na parede exibindo o logotipo do podcast

A entrevistada da semana é Linda Vianna, também conhecida artisticamente como Boca de Dunas – Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

No novo episódio da Entrevista Primaz, conversamos com Linda Vianna, artista independente multifacetada nascida em Belo Horizonte e atualmente radicada em Ouro Preto. Entre artes plásticas, poesia, design gráfico, produção cultural e arte-educação, Linda constrói uma trajetória que une território, ancestralidade e pensamento crítico.

Conhecida artisticamente como Boca de Dunas, ela transforma sua vivência entre a capital mineira e o interior histórico em matéria-prima para uma produção que questiona desigualdades, valoriza saberes periféricos e propõe novas formas de expressão.

 

Das raízes familiares à reconexão com Ouro Preto

Apesar de ter nascido em Belo Horizonte, Linda carrega raízes profundas em Ouro Preto, especialmente na região entre Chapada e Lavras Novas (Venda do Campo). Foi ainda jovem que decidiu deixar a rotina exaustiva da capital, onde trabalhava na área administrativa, para buscar qualidade de vida e reconexão com a própria história familiar.

Em Belo Horizonte, iniciou sua trajetória artística no grafite, influenciada pelo mentor Dran, pelas batalhas de rima e pelo artesanato produzido por sua mãe, que sustentou a família por muitos anos. Ao se mudar para Ouro Preto aos 18 anos, passou a cursar Serviço Social na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), experiência que, embora não tenha sido concluída, aprofundou seu contato com a arte como ferramenta social.

Em Mariana, atuou no CRIA oferecendo oficinas de pintura e grafite para crianças, fortalecendo seu caminho como artista plástica e educadora.

 

Arte em cidade tombada: adaptação e resistência

A mudança para Ouro Preto trouxe crescimento, mas também desafios. Cidade tombada pelo patrimônio histórico, Ouro Preto impõe restrições ao grafite por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Diante da escassez de muros não tombados e da necessidade de autorizações formais, Linda adaptou sua produção para as artes plásticas em tela, sem abandonar a essência urbana que marca sua trajetória. O grafite, segundo ela, tornou-se também espaço de reflexão pedagógica: ensinar crianças e jovens a buscarem meios seguros e conscientes de expressão artística.

 

Arte como crítica

Distante de uma visão romantizada do interior histórico, Linda utiliza sua produção como instrumento crítico. Sua pesquisa une artes visuais e poesia à ancestralidade, mas também expõe contradições: a mineração, o turismo massivo e a concentração de recursos no centro histórico em contraste com periferias negligenciadas.

Suas obras abordam questões de gênero, apagamento cultural e as dificuldades enfrentadas por moradores locais para permanecerem em seus territórios. A poesia, nesse contexto, surge como ferramenta de resistência e de não silenciamento.

 

Boca de Dunas: de marca autoral a laboratório criativo

O projeto Boca de Dunas nasceu como marca de roupas independentes, com peças customizadas e únicas, pintadas à mão e ressignificadas a partir de objetos com valor afetivo.

Com o tempo, a iniciativa evoluiu para um verdadeiro laboratório criativo, ampliando sua atuação para oficinas de arte para crianças e adolescentes (CRIA, Casal da Estrela, APAE), direção criativa, figurino e ilustração para projetos culturais, produção de e-books que unem design gráfico e poesia, criação contínua de peças personalizadas.

O processo criativo das peças envolve um período de “gestação” que pode durar de 15 a 30 dias. Linda realiza entrevistas detalhadas com cada cliente para compreender personalidade, memórias e intenções, elaborando esboços e cartelas de cores em conjunto. O objetivo é evitar trabalhos vazios e construir criações com sentido e identidade.

 

Coletivos culturais e o hip-hop como rede de sobrevivência

A participação em coletivos foi decisiva em sua formação. Grupos como Vila Pobre (Ouro Preto/Mariana), Batalha da Arena e Conexão Zulu ampliaram sua experiência artística e política.

O coletivo Conexão Zulu, especialmente, foi um divisor de águas em sua trajetória como arte-educadora, oferecendo formação pedagógica e atuação em projetos como oficinas na APAE e na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O hip-hop, presente desde a juventude em Belo Horizonte, ganhou nova dimensão em Ouro Preto. Diferente das grandes batalhas das capitais, os encontros na cidade histórica são menores e mais íntimos, espaços de acolhimento, troca e geração de renda. Para Linda, o movimento funciona como rede alternativa ao sistema financeiro tradicional, permitindo circulação de saberes e fortalecimento comunitário.

 

Projetos futuros: gestar arte e vida

Atualmente, Linda se dedica à elaboração de uma exposição com o tema “gestar”. A proposta articula três dimensões: a gestação de um filho (experiência pessoal atual), a gestação de uma obra de arte e a gestação “de si mesma” como artista em constante transformação.

A mostra está sendo articulada para a Casa de Gonzaga, em Ouro Preto, e busca apoio por meio de editais culturais e da UFOP. A previsão é que ocorra até meados do ano, coincidindo com o período pós-parto, simbolizando o nascimento de novas criações e de uma nova fase de vida.


Onde acompanhar

O trabalho de Linda Vianna pode ser acompanhado pelos perfis:

Instagram: @bocadedunas_ e @lindavianna_

Website (em breve): www.bocadedunas.com.br

 

Confira a entrevista completa ou pelo Spotify:
 


Larissa Antunes

É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.