Entrevista Primaz – Linda Vianna (Boca de Dunas)
Artista independente fala sobre hip-hop, arte-educação, crítica ao território e a construção do laboratório criativo Boca de Dunas
A entrevistada da semana é Linda Vianna, também conhecida artisticamente como Boca de Dunas – Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
No novo episódio da Entrevista Primaz, conversamos com Linda Vianna, artista independente multifacetada nascida em Belo Horizonte e atualmente radicada em Ouro Preto. Entre artes plásticas, poesia, design gráfico, produção cultural e arte-educação, Linda constrói uma trajetória que une território, ancestralidade e pensamento crítico.
Conhecida artisticamente como Boca de Dunas, ela transforma sua vivência entre a capital mineira e o interior histórico em matéria-prima para uma produção que questiona desigualdades, valoriza saberes periféricos e propõe novas formas de expressão.
Das raízes familiares à reconexão com Ouro Preto
Apesar de ter nascido em Belo Horizonte, Linda carrega raízes profundas em Ouro Preto, especialmente na região entre Chapada e Lavras Novas (Venda do Campo). Foi ainda jovem que decidiu deixar a rotina exaustiva da capital, onde trabalhava na área administrativa, para buscar qualidade de vida e reconexão com a própria história familiar.
Em Belo Horizonte, iniciou sua trajetória artística no grafite, influenciada pelo mentor Dran, pelas batalhas de rima e pelo artesanato produzido por sua mãe, que sustentou a família por muitos anos. Ao se mudar para Ouro Preto aos 18 anos, passou a cursar Serviço Social na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), experiência que, embora não tenha sido concluída, aprofundou seu contato com a arte como ferramenta social.
Em Mariana, atuou no CRIA oferecendo oficinas de pintura e grafite para crianças, fortalecendo seu caminho como artista plástica e educadora.
Arte em cidade tombada: adaptação e resistência
A mudança para Ouro Preto trouxe crescimento, mas também desafios. Cidade tombada pelo patrimônio histórico, Ouro Preto impõe restrições ao grafite por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Diante da escassez de muros não tombados e da necessidade de autorizações formais, Linda adaptou sua produção para as artes plásticas em tela, sem abandonar a essência urbana que marca sua trajetória. O grafite, segundo ela, tornou-se também espaço de reflexão pedagógica: ensinar crianças e jovens a buscarem meios seguros e conscientes de expressão artística.
Arte como crítica
Distante de uma visão romantizada do interior histórico, Linda utiliza sua produção como instrumento crítico. Sua pesquisa une artes visuais e poesia à ancestralidade, mas também expõe contradições: a mineração, o turismo massivo e a concentração de recursos no centro histórico em contraste com periferias negligenciadas.
Suas obras abordam questões de gênero, apagamento cultural e as dificuldades enfrentadas por moradores locais para permanecerem em seus territórios. A poesia, nesse contexto, surge como ferramenta de resistência e de não silenciamento.
Boca de Dunas: de marca autoral a laboratório criativo
O projeto Boca de Dunas nasceu como marca de roupas independentes, com peças customizadas e únicas, pintadas à mão e ressignificadas a partir de objetos com valor afetivo.
Com o tempo, a iniciativa evoluiu para um verdadeiro laboratório criativo, ampliando sua atuação para oficinas de arte para crianças e adolescentes (CRIA, Casal da Estrela, APAE), direção criativa, figurino e ilustração para projetos culturais, produção de e-books que unem design gráfico e poesia, criação contínua de peças personalizadas.
O processo criativo das peças envolve um período de “gestação” que pode durar de 15 a 30 dias. Linda realiza entrevistas detalhadas com cada cliente para compreender personalidade, memórias e intenções, elaborando esboços e cartelas de cores em conjunto. O objetivo é evitar trabalhos vazios e construir criações com sentido e identidade.
Coletivos culturais e o hip-hop como rede de sobrevivência
A participação em coletivos foi decisiva em sua formação. Grupos como Vila Pobre (Ouro Preto/Mariana), Batalha da Arena e Conexão Zulu ampliaram sua experiência artística e política.
O coletivo Conexão Zulu, especialmente, foi um divisor de águas em sua trajetória como arte-educadora, oferecendo formação pedagógica e atuação em projetos como oficinas na APAE e na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O hip-hop, presente desde a juventude em Belo Horizonte, ganhou nova dimensão em Ouro Preto. Diferente das grandes batalhas das capitais, os encontros na cidade histórica são menores e mais íntimos, espaços de acolhimento, troca e geração de renda. Para Linda, o movimento funciona como rede alternativa ao sistema financeiro tradicional, permitindo circulação de saberes e fortalecimento comunitário.
Projetos futuros: gestar arte e vida
Atualmente, Linda se dedica à elaboração de uma exposição com o tema “gestar”. A proposta articula três dimensões: a gestação de um filho (experiência pessoal atual), a gestação de uma obra de arte e a gestação “de si mesma” como artista em constante transformação.
A mostra está sendo articulada para a Casa de Gonzaga, em Ouro Preto, e busca apoio por meio de editais culturais e da UFOP. A previsão é que ocorra até meados do ano, coincidindo com o período pós-parto, simbolizando o nascimento de novas criações e de uma nova fase de vida.
Onde acompanhar
O trabalho de Linda Vianna pode ser acompanhado pelos perfis:
Instagram: @bocadedunas_ e @lindavianna_
Website (em breve): www.bocadedunas.com.br
Confira a entrevista completa ou pelo Spotify:

Larissa Antunes
É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.





