Por nove dias, Mariana trocou um pouco da rotina pelo teatro. Entre 24 de setembro e 2 de outubro, a cidade recebeu a décima edição do Festival de Teatro Comunitário de Mariana, o FESTECO, que reuniu cerca de 50 atrações gratuitas e grupos de diferentes partes do Brasil.
Muito além do que colocar espetáculos em cartaz, o festival espalhou o teatro pela cidade. Teve apresentação em teatro, praça, museu, estação ferroviária e outros espaços que, durante o FESTECO, ganharam novos personagens, histórias e plateias.
Entre risos e provocações
No Cine Teatro Municipal, o público acompanhou “Mulheres que Sonham Mudar o Mundo”, do Núcleo de Teatro IGESC, de Sorocaba (SP). A montagem mistura teatro e dança para contar histórias de mulheres que desafiam os lugares que foram determinados para elas.

A trama começa com uma proposta de casamento nada desejada e, a partir daí, vai ganhando novos caminhos. Entre livros, navios, aviões e personagens que enfrentam o machismo, três mulheres decidem construir suas próprias possibilidades. No palco, elas quebram estruturas, literalmente, e deixam uma mensagem simples, de que as mulheres voam.

O espetáculo também toca em temas como misoginia, representatividade e protagonismo feminino. Tudo isso sem abrir mão do humor. A plateia ria, mas logo se deparava com cenas que pediam atenção. Entre uma reação e outra, era possível ouvir comentários como “tô passada, rindo, mas é a verdade, né?” e “peça linda, meu Deus”.

Uma luta pela liberdade de fazer o que bem entender. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Cinco anos para fazer as mulheres voarem
Para Kelvin Ribeiro, ator de 24 anos que integra o grupo, a apresentação em Mariana marcou a primeira participação do núcleo no FESTECO. O espetáculo levou cerca de cinco anos para ser desenvolvido, a partir de pesquisas sobre a história da aviação e a participação feminina nesse universo.

A peça contava com uma sonoplastia e jogo de luz potentes que prendiam a atenção dos expectadores. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
“É aquele sentimento de voltar, acreditar no teatro. Você volta para casa com outras coisas, vendo e assistindo outros trabalhos”
A diretora Rute Caires explica que o espetáculo também está ligado às pesquisas que desenvolve sobre gênero e diversidade. O grupo faz parte do Instituto de Gestão Social e Cidadania, de Sorocaba, que oferece gratuitamente atividades de arte, esporte e idiomas, além de manter iniciativas voltadas para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Para Rute, levar a peça para outros lugares é uma forma de ampliar o debate. Segundo ela, a arte pode criar uma ruptura e provocar uma reflexão sobre violências que muitas vezes acabam sendo naturalizadas.
A partir dessa questão de discutir como nós sofremos violências em todas as esferas que nós frequentamos, né? E aí no meio sindical, né, que porque nós somos vinculados a um sindicato majoritariamente masculino, é uma forma de trazer a peça, o teatro para abrir uma roda de conversa, um diálogo” Rute Caires, atriz e pesquisadora
Do drama para a praça
Se o Cine Teatro foi tomado por uma história que fez o público rir e refletir, a poucos minutos dali o clima era um pouco diferente.
Na Praça Gomes Freire, o Jardim virou cenário para “Meu Amigo Sabiá”, da Patuá Cia de Teatro, de Belo Horizonte (MG). A peça infantil levou para a praça uma história sobre amizade, companheirismo e resiliência.

As crianças acompanharam tudo de perto, mas elas não eram as únicas interessadas. A apresentação também reuniu adultos e mostrou, mais uma vez, uma das forças do FESTECO: fazer o teatro chegar a públicos diferentes e ocupar lugares que fazem parte da vida da cidade.
É justamente essa ocupação que ajuda a explicar a importância do festival. Em dez anos, o FESTECO se tornou um ponto de encontro entre artistas, grupos, comunidade e público, trazendo para Mariana produções de diferentes lugares e criando espaço para que histórias sejam contadas, ouvidas e compartilhadas.
O palhaço que pedia ovos
O encerramento começou com a última peça de teatro da fase nacional, “O Menino que Tinha Medo da Folia”, de Cyd Ramos e apresentada pelo Grupo de Teatro Alma, marianense a mais de 20 anos em atividade.
A sensibilidade de mostrar que o medo também faz parte da infância, fechou com chave de ouro a primeira fase do Festival. O menino que tinha medo da folia, na verdade tinha medo do palhaço que pedia ovos. O medo vinha do desconhecido, por não saber quem se escondia por trás da máscara e o impedia de curtir os melhores dias: os de folia.

Após a peça, o palco foi aberto para Renan Henrique, autor marianense de prosa poética para o lançamento de seus livros: “Giló da janta”, “O Lago do meu Narcisismo”, “Na Boca da Ponte”, uma obra lançada pela editora Minimalismos, cujo título foi inspirado em uma expressão/memória de seu avô, “Nunca somos únicos”, uma obra que aborda que mostra que não estamos isolados no mundo e por fim, “Esse barco já partiu”.

E, como o teatro é coisa feita em família, honrar Mariana é chamar um grupo local seguido pelo lançamento de livros do marianense para anteceder o momento mais esperado da noite, a premiação.
Cerimônia de encerramento
O clima mudava conforme o Cine Teatro se enchia novamente. Os sorrisos tímidos e ansiosos contrastavam com as cores vibrantes dos leques prontos para comemorar uma vitória entalada desde o início da viagem.

Após as boas vindas à todos os artistas e atores, atrizes e diretores, produtores e técnicos, convidados, representantes dos grupos de teatro, parceiros e amantes do teatro e principalmente ao querido público.
“Hoje não encerramos apenas uma programação. Hoje celebramos encontros. Celebramos histórias que ganharam vida no palco. Personagem que nos emocionaram. Risos que ecoaram pelo os espaços da nossa cidade, lágrimas que fizeram parte de tantas narrativas e, acima de tudo, celebramos a força transformadora do teatro.”

Esses 9 dias de festival foram transformadores para os artistas, o FESTECO faz questão de premiá-los a altura de todo seu trabalho e esforço para se fazerem presentes e celebrarem suas artes.
A fala inicial foi finalizada agradecendo o esforço de cada um que fez a primeira fase acontecer e destacou que além de celebração, a noite seria de reconhecimento do trabalho e sacrifício de todos. Sobre os sacrifícios, Juliana, idealizadora e professora a frente do FESTECO desde a primeira edição, destacou que a falta de apoio financeiro dificulta e desestimula tanto os artistas quanto a administração.
Com certeza com mais recursos, também pra gente sair desse sufoco, dessa correria que é manutenção de 50 peças de teatr. Espero que a gente possa pagar pelo menos um pouco, um cachê ou uma ajuda de custo pros artistas, né? Por enquanto tá difícil, eles os grupos de teatro estão vindo, gastando bastante dinheiro, energia e sem esse retorno financeiro nenhum.'

FESTECO já é reconhecido e renomado na cidade e recebe grupos e pessoas de todo o Brasil. Por mais que os troféus devolvam o reconhecimento pelos esforços, ele não custeia a viagem, nem a alimentação e não garantem a presença dos grupos na próxima edição.
Mesmo assim, a premiação foi recheada de gritos de comemoração, músicas para celebrar as peças premiadas e barulhos de leque dos mais novos. Segue a lista das categorias e seus premiados e confira as fotos de cada momento.

Categorias, Indicados e Ganhadores do 10º FESTECO
Bloco Palco / Edição Nacional
Palco (Melhor Espetáculo): A Hora da Estrela (Ponto de Cultura Casa do Teatro).
Cenário: Companhia Independente de Teatro.
Trilha Sonora: Companhia Pé de Pano.
Atriz Coadjuvante: Amélia Correia Passos - A Hora da Estrela.
Ator Coadjuvante: Mateus Garcia José (O Caixeiro da Taverna).
Melhor Ator: Gabriel Félix (Dois sujos numa noite perdida).
Melhor Atriz: Débora Estrela (Angélica)
Texto Original: Vinícius Medeiros (O Beijo no Asfalto).
Melhor Direção: Núcleo de Teatro (Mulheres que sonham mudar o mundo).
Melhor Espetáculo: Companhia Independente de Teatro (O Caixeiro da Taverna).
Bloco Alternativo / Espetáculo de Rua
Alternativo / Espetáculo de Rua: Taperoá e Estopa (Pantomontrina).
Caracterização Cênica: Amanda Gregório (Chapeuzinho).
Cenário: Gisele da Silveira e Ivone de Deus (Benze).
Trilha Sonora: Santana e Pedro Alves - Espetáculo Raízes.
Atriz Coadjuvante: Gabriela Frazão (Benze).
Ator Coadjuvante: Thiago Vidigal (Temos Uma Mesa).
Melhor Ator: Fábio Lins (Livro-me).
Melhor Atriz: Maeu Rocha / Mau Rocha (Querida Rosa).
Texto Original: Maria Calisto Marques, Amanda Barbosa e Mael Rocha (Espetáculo Querida Rosa).
Melhor Direção: Carolina Conceição Ferreira (Benze).
Melhor Espetáculo: Grupo Encruza de Teatro (Benze).
Destaque Especial: Certificado de destaque concedido pelos jurados ao espetáculo Querida Rosa pela sensibilidade em abordar um tema tabu.
Bloco Categoria Infantil
Maquiagem: Nilmara Gomes (Bruxa Picapau - Meu Amigo Sabiá).
Figurino:
Indicados: Adriana Oliveira (Barata e Bruxa)
Cenário:
Indicados: Crocheteando a Ciranda do Tempo.
Trilha Sonora: A Árvore Dentro da Semente.
Atriz Coadjuvante: Nilmara Gomes (Meu Amigo Sabiá).
Ator Coadjuvante: Elias Cancetari
Melhor Ator: Márcio Sabones.
Melhor Atriz: Viviane Juste.
Texto Original: Iaras e os Sete Rios.
Direção: Os Saltimbancos.
Melhor Espetáculo: Crocheteando a Ciranda do Tempo.











































