Festival Baú Recontando celebra sete anos de cultura viva
Evento gratuito reúne literatura, música, dança e tradição popular entre os dias 16 e 22 de março em Mariana e Ouro Preto, celebrando a força da arte comunitária
Prainha de Mariana recebe pela 3° vez o Festival Baú Recontando, que segue lutando pela arte-educação na região - Foto: Ingrid Ribeiro
Entre histórias, tambores e passos de dança que atravessam gerações, o projeto Baú Recontando chega ao seu sétimo aniversário reafirmando a força da cultura popular como ferramenta de encontro, memória e transformação.
Para celebrar a trajetória, o grupo realiza entre os dias 16 e 22 de março o III Festival “Um Barquinho a Navegar Tem Histórias pra Contar”, com uma programação gratuita que reúne literatura, dança, música, contação de histórias e diversas expressões artísticas em Mariana e Ouro Preto.
Criado em 2019 pela artista e arte-educadora Ingrid Ribeiro, o Baú Recontando nasceu no bairro Santo Antônio com o objetivo de aproximar crianças, jovens e famílias do universo da narrativa oral e das manifestações culturais brasileiras.
Ao longo dos anos, o projeto se consolidou como uma referência regional em iniciativas de arte-educação, circulando por escolas, comunidades e espaços culturais da região dos Inconfidentes.
Agora, o festival marca não apenas uma comemoração, mas também o amadurecimento de uma iniciativa que cresceu junto com a comunidade.
Foram cinco anos criando mais espaço na cidade e conquistando reconhecimento do nosso trabalho como arte-educação. Nos últimos dois anos conseguimos retomar o evento com mais estrutura e dentro da comunidade do Santo Antônio
Programação diversa e intercultural
A edição deste ano reúne convidados de diferentes territórios e linguagens artísticas. Entre os destaques está a participação do escritor carioca Bruno Black, que retorna ao festival para lançar seu segundo livro, #Tarja Preta, trazendo reflexões contemporâneas por meio da literatura.
Outro convidado especial é o professor e cientista da computação africano, Corneille Ndjeumou, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), cuja participação amplia o diálogo intercultural do evento, conectando saberes africanos e brasileiros.
Também integram a programação apresentações do Grupo de Dança Quilombola Nicolinas, do grupo de capoeira e do Grupo de Estudos Percussivos Afro-Indígena Folia do Boi das Flores, coordenado pelo músico Tiago Valentim. O grupo, formado dentro das atividades do próprio Baú, fará sua primeira apresentação pública durante o festival.
Outro momento aguardado é o espetáculo “Vive a Calunga e o Maracatu”, um reconto inspirado na obra da escritora Mari Bigio, que valoriza elementos da cultura afro-brasileira e culmina com uma demonstração da dança do Maracatu Nação Estrela Brilhante de Igarassu.
A programação também inclui o Sarau dos Amigos, encontro que reúne artistas, educadores e público em torno da poesia, da música e da troca de experiências.
Um festival que nasceu da vontade de criar espaço
O festival surgiu, inicialmente, como uma celebração do aniversário do projeto. Mas rapidamente se transformou em algo maior: um espaço para que artistas da região, muitas vezes sem palco, pudessem mostrar seus trabalhos.
Desde o início, a vontade era que não fosse só eu me apresentando, mas que outras pessoas também tivessem espaço. Começamos pensando apenas na contação de histórias, mas isso foi crescendo. Vieram artistas da música, da literatura, do teatro e de várias outras áreas querendo participar dessa comemoração
O próprio nome do festival carrega esse espírito coletivo. O “barquinho” simboliza uma travessia construída em rede, feita de parcerias e apoio mútuo ao longo dos anos. “A gente foi construindo espaço e visibilidade para o nosso trabalho e também uma rede de apoio para que esse evento pudesse acontecer”, explica Ingrid.

Um festival que nasce na periferia
Mais do que um evento cultural, o festival carrega um significado especial para o bairro Santo Antônio, onde Ingrid nasceu e foi criada. Levar uma programação artística diversa para a comunidade é, para ela, também uma forma de reafirmar o potencial cultural do território.
Poder trazer um festival desse porte para a comunidade do Santo Antônio é muito importante. É uma forma de mostrar que aqui ainda tem ouro. Mesmo sendo um bairro periférico e muitas vezes marginalizado, temos muito a contribuir para a nossa comunidade e para outras pessoas também
Segundo ela, o crescimento do festival nos últimos anos acompanha também o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelo Baú. “Nos últimos dois anos nosso trabalho ganhou muita repercussão. Esse evento ajudou o Baú a ser cada vez mais visto”, conta.
Cultura feita em rede
Apesar do crescimento do festival, sua realização ainda depende majoritariamente de parcerias e trabalho voluntário. A equipe fixa do Baú é pequena e tem como base o apoio familiar de Ingrid. “Internamente somos poucos, e eu conto muito com a minha família. O Baú também se sustenta por essa base familiar”, explica a artista.
A rede de colaboradores inclui produtoras culturais como Mariana Asuela e Raíssa Amaral, da Terra de Rudá Produções, além do músico e percussionista Tiago Valentim, responsável pelas oficinas e pela estrutura de som do festival.
Nos bastidores, muitos outros nomes ajudam a dar forma ao projeto: a mãe de Ingrid, Joana d’Arc, costureira responsável pelos figurinos; Ana Paula, da Por Capricho, que produz artesanatos; e a empresa de transporte Bib car, que auxilia na logística da equipe.
“A gente tem hoje uma rede muito grande de apoiadores, escolas, famílias, empresas e espaços culturais que sempre acolheram o Baú e ajudam esse evento a acontecer”, comemora Ingrid.
Mesmo com o crescimento do festival, a produção ainda busca financiamento para ampliar o suporte aos artistas.
A potência das histórias
Para Ingrid, o festival vai além da comemoração de um aniversário. Ele representa a força da cultura como ferramenta coletiva, especialmente nas expressões ligadas à ancestralidade negra e ao protagonismo feminino.
O mais importante para mim é ver a arte, a literatura e a cultura em movimento. Ver o povo negro, ver as mulheres também ocupando esse espaço. Isso não acontece só por mim. Acontece pela nossa cultura, pela forma como a gente é criado artisticamente
O crescimento do evento, que agora também chega a Ouro Preto, reforça a dimensão regional do projeto e o potencial transformador da arte. “Quando a cultura é valorizada, surgem coisas como esse festival, tão potente para uma comunidade e para uma cidade”, reflete a contadora de histórias.
Ao completar sete anos, o Baú Recontando segue fiel à sua proposta inicial: contar histórias que conectam passado, presente e futuro. Como sugere o nome do festival, o barquinho continua navegando, carregado de memória, encontros e novas histórias ainda por vir.

Joyce Campolina
É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas







