Filme Sonhos de Glaura estreia no próximo sábado
Produção da WebCINETV UFOP, gravada com participação da comunidade, será lançada em Glaura com entrada gratuita
Crianças do distrito de Glaura participam das gravações de Sonhos de Glaura, produção da WebCINETV UFOP que aborda igualdade de gênero e pertencimento - Foto: Divulgação
Produzido por estudantes da UFOP e comunidade local, o filme Sonhos de Glaura será lançado no próximo sábado (11), às 18h, na Escola Municipal Benedito Xavier, no distrito de Glaura, em Ouro Preto. A exibição é gratuita e aberta ao público.
Dirigido pelo professor de jornalismo Adriano Medeiros da Rocha, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o curta é resultado do projeto WebCINETV UFOP. Atualmente, o projeto funciona como um consolidado entre espaço de pesquisa, criação, formação e reflexão cinematográfica e audiovisual na UFOP e na região.

A partir deste coletivo de pesquisa e criação, embrionado no Laboratório de Criação e Produção Audiovisual da UFOP, foi possível obter a estrutura mínima necessária para constituirmos esta obra. Diretamente, a WebCINETV UFOP forneceu uma equipe de bolsistas e voluntários, juntamente com parte do equipamento necessário para as captações de imagens e sons e também da montagem.
O lançamento integra o conjunto de ações do movimento “UFOP é cinema”, iniciativa que busca a criação de um curso de bacharelado em Cinema e Audiovisual na instituição.
Enredo e personagens
A narrativa acompanha Glaura, personagem interpretada por Rafaela Dantas, uma menina criativa que vive no interior e constrói, a partir da literatura e das brincadeiras cotidianas, um imaginário rico e questionador, transitando entre o real e o imaginário, em uma forte conexão com a natureza e com o território onde vive.
Ao lado dos amigos Lina e Be, e da galinha Pipoca, sua confidente, a protagonista desafia padrões e propõe reflexões sobre o papel da mulher, o pertencimento e a relação com o patrimônio cultural e ambiental. Com uma abordagem sensível, lúdica e poética, o filme convida o público a refletir sobre questões de igualdade de gênero e identidade cultural a partir do olhar infantojuvenil.
O diretor Adriano Medeiros explica que o tema central do filme partiu diretamente das vivências dos participantes da oficina, na qual grande parte do grupo tinha o desejo de refletir sobre questões ligadas à igualdade de gênero. “Este foi o tema mais ecoado nos diversos exercícios e dinâmicas desenvolvidos pelos participantes da oficina. Muitas daquelas jovens quiseram dialogar conosco sobre a temática e como a mesma repercutia nos seus cotidianos, nas suas próprias famílias”, explica.
Adriano destacou o papel simbólico da personagem na narrativa. “Antes de tudo, Glaura é uma menina sonhadora. Que não deixou perder suas aspirações, mesmo com as dificuldades que a vida pode impor. No caso dela, a literatura é um de seus maiores alimentos, despertando nela a criação de um imaginário aguçado”, conta.
Para o professor, a protagonista assume um papel de quebra de preconceitos e estereótipos. “Junta dos amigos Lina e Be, ela nos faz reviver as brincadeiras lúdicas e divertidas, feitas no espaço aberto das ruas, da vida pacata do interior. Em outra perspectiva, Glaura também quebra tabus e preconceitos, revisando o lugar da mulher naquele território, propondo reflexões sobre pertencimento, preservação patrimonial e ambiental”, afirma.
Origem do projeto e construção do roteiro
Mais do que uma produção audiovisual, o filme nasce de um processo formativo coletivo. O roteiro foi desenvolvido a partir de uma oficina gratuita de Escrita Criativa para Linguagem Audiovisual, realizada em 2024 com alunos da própria escola.
Segundo o diretor do projeto, o texto foi construído a partir das contribuições de crianças e adolescentes participantes, incorporando suas vivências, percepções e questionamentos sobre o território e os papéis sociais. Após a etapa inicial, o projeto passou por meses de criação, ensaios e pré-produção, envolvendo diretamente os moradores do distrito.
Participação da comunidade e formação audiovisual
O filme foi pensado desde o início como uma experiência colaborativa. A produção contou com a participação ativa de crianças não apenas como atrizes, mas também em diferentes etapas do processo criativo.
De acordo com o professor Adriano, a equipe chegou ao distrito aberta para os cotidianos, aspirações, sonhos e reflexões da comunidade. “Os estudantes e a comunidade de Glaura como um todo, influenciaram totalmente não só o roteiro, como todos nossos procedimentos de criação. Sempre digo que fizemos um filme com eles e não sobre eles”, conta.
Durante a fase de produção, foram realizadas seleções abertas de elenco, sem exigência de experiência prévia, com o intuito de ampliar o acesso da comunidade do fazer cinematográfico e fortalecer o caráter formativo do projeto.
Sobre a escolha do cenário, o diretor ressalta a potência simbólica e estética de Glaura. Segundo ele, o povoado se instalou no local por volta do século XVIII. Para ele, “o distrito de Glaura ainda emana uma beleza cênica formidável, tanto em sua sede, como nos seus arredores.”
O professor Adriano também descreve alguns cenários marcantes do distrito, “lá, é possível encontrar um sugestivo casario com algumas características coloniais, uma histórica igreja matriz de Santo Antônio, bem como atrativos naturais, como cachoeiras, rios e as ruínas da antiga fazenda.”
Durante a semana, com a imensa quietude encontrada pelas ruas, o distrito ainda guarda as características da vida rural, do interior, das brincadeiras e lazer na rua, com os amigos e vizinhos. Além disso, a população residente é um encanto à parte.
Gravações e imersão no território
As filmagens aconteceram integralmente em Glaura, ao longo de sete dias consecutivos em 2025. A equipe contou com o apoio da Casa de Cultura de Glaura e da Secretaria de Educação de Ouro Preto, fortalecendo a troca entre universidade e comunidade local.
Além disso, a produção envolveu estudantes de diferentes cursos da UFOP, como Jornalismo, Artes Cênicas e Música, consolidando o projeto como um espaço interdisciplinar de criação e aprendizado.
O diretor relembra os desafios enfrentados durante as filmagens, entre eles, a dificuldade de transporte entre Mariana e Glaura. “Além disso, em Sonhos de Glaura trabalhamos com um elenco majoritariamente formado por pessoas não atores profissionais, que necessitavam de uma imersão maior na construção dos respectivos personagens”, relata.
O diretor explica que o elenco principal é formado por crianças, o que levou a direção a realizar novas abordagens e metodologias no processo criativo. “Também tivemos animais de cena. Nossa protagonista tem uma galinha confidente: a Pipoca. Fizemos todo um trabalho de seleção de uma galinha com características específicas, tanto físicas, como comunicacionais”, relembra.
Para a integrante da equipe Regiane Barbosa Oliveira, a vivência no território foi determinante para o resultado do filme. “Participar de Sonhos de Glaura foi minha primeira experiência mais imersiva no audiovisual, então foi muito especial pra mim. A gente viveu uma imersão muito intensa em Glaura, e isso fez toda a diferença no resultado final. O filme carrega esse encontro com o território, com as pessoas e com as histórias do distrito”, comemora a produtora.
Regiane ainda destaca o impacto simbólico da produção. “Eu tenho muito orgulho de fazer parte de uma obra que fala, de forma tão sensível, sobre pertencimento, identidade e cuidado com o nosso patrimônio. Sonhos de Glaura é, pra mim, a prova de como o cinema pode transformar, conectar e criar sentidos”, completa.

Bastidores e olhar técnico
A experiência nos bastidores também marcou a trajetória de integrantes da equipe, como o estudante de Artes Cênicas da UFOP, Luan Ramos, que atuou como assistente de câmera e fotografia no projeto. O ator também ressalta a troca com a equipe e a orientação do diretor de fotografia Anderson Medeiros, fundamentais para sua formação durante o processo.
Estava mais acostumado a estar sob os refletores como ator, recentemente vivi uma virada de perspectiva que transformou minha compreensão sobre o fazer cinematográfico. Deixei o centro da cena para mergulhar na complexidade técnica e artística que acontece atrás das lentes
Ainda de acordo com Luan, o trabalho começou antes mesmo das gravações, com um reconhecimento detalhado do distrito. “Glaura possui uma visualidade singular, um ambiente rural que parece pronto para o cinema. O desafio não era encontrar apenas beleza, mas sim realizar uma curadoria que fizesse justiça ao cotidiano e aos vínculos daquela comunidade”, explica.
No set, o aprendizado se intensificou com o ritmo das gravações e a atenção aos detalhes técnicos. “Cada minuto de sol é um recurso precioso. Percebi que a câmera exige um rigor ainda maior, sombra ou a temperatura de uma cor podem comunicar o tempo, a hora, a carga emocional de um personagem e o clima do ambiente da cena que queremos transmitir para o espectador”, detalha o assistente.
Som e montagem: os desafios da pós-produção
A estudante Juliana Siqueira também acompanhou diferentes etapas do projeto, da análise do roteiro à montagem final do filme, além de atuar na captação de som.
Foi muito diferente pra mim estar presente em diversos pontos muito específicos do filme mas também tão importantes, foi uma forma nova de compreender como cada peça dentro do audiovisual e do cinema se conecta e se fomenta
Ela destaca o desafio técnico de gravar em espaços abertos no distrito. “Era muito difícil conseguir captar o som nesses espaços de livre acesso, porque não é controlável, então é muito sobre o timing certo e ir se desdobrando para sair o que precisa”, explica a estudante.
Juliana também ressalta o caráter coletivo da produção. “Foi muito massa a participação dos próprios moradores, tiveram muitos momentos que dependemos da ajuda deles e eles sempre foram muito abertos ao que estávamos fazendo ali.”, relata com entusiasmo.
Para ela, a experiência em Glaura foi marcante pelo vínculo criado com o território. “Glaura foi o filme e o lugar que mais nos acolheu e que mais fez parte do filme. O filme só existe graças aos moradores, e é por isso que vamos devolver esse produto pra eles, é deles no final das contas”, conclui.
Lançamento
O lançamento do filme Conexões acontece a partir das 18h, do dia 11 de abril, na Escola Municipal Benedito Xavier, no distrito de Glaura, Ouro Preto.
Além da estreia, outras exibições já estão programadas: no dia 22 de abril, às 9h, na Escola Estadual Nossa Senhora Auxiliadora, em Ouro Preto, e no dia 24 de abril, às 20h, na Casa de Cultura de Cachoeira do Campo.
Para acompanhar as etapas do projeto e do movimento, basta acessar o perfil do Instagram.

Larissa Antunes
É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.







