Mariana (MG), 13 de agosto de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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FIU semeou arte, aqueceu corações e transformou o fim de semana em um manifesto artístico

Ao longo de três dias, o FIU fez rir, arrepiar e pensar, provando que a arte ainda é uma das melhores formas de imaginar o futuro

Plateia do cineteatro

De pé ou sentado, palmas não faltaram nesse fim de semana. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Existe uma tendência curiosa quando se fala em festival universitário. Muita gente imagina oficinas, mesas de debate e apresentações espalhadas pela cidade. É verdade. Mas, às vezes, uma programação produz um efeito que a gente só percebe quando  termina.

Foi o caso do último fim de semana de Festival de Inverno Universitário (FIU) da UFOP.

Entre sexta e domingo, parecia que todos os espetáculos, mesmo sem qualquer ligação direta entre si, ficavam martelando em uma mesma pergunta: que futuro estamos construindo?

A resposta começou na sexta-feira, no anfiteatro do Horto dos Contos. Pouco antes das seis da tarde, os bancos já estavam todos ocupados, quem chegou depois ou assistiu de pé, ou se acomodou pedindo licença para quem estava presente. Estudantes dividiam espaço com lideranças indígenas, pesquisadores, moradores de Ouro Preto e visitantes de diversas partes do mundo.

O Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza(evento indicado pelo FIU), abria sua programação propondo uma solução: tirar a natureza do papel de recurso e colocá-la em um local merecedor de direitos. Se é natureza, desde 89, precisava andar e ser respeitada, assim como definido na constituição.

A simbologia do Fórum de Direitos da Natureza acontecer na Região dos Inconfidentes - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Entre discursos e apresentações, subiu ao palco a Deputada Federal Célia Xakriabá, presença que ao entoar lutas e falas fortíssimas, trouxe arrepios aos presentes. A deputada dispensou discursos técnicos e preferiu imagens. "Antes do Brasil da coroa, existe o Brasil do cocar.", relembrou antes de voltar às regiões assombradas pela consequência da mineração:

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Mariana.

Brumadinho.

Rio Doce.

Rio Paraopeba.

Célia chamou tudo aquilo por uma palavra que com certeza não deveria estar fora de nenhum aurélio:"futuricídio". Segundo ela, destruir um rio não é “apenas apagar o presente. É eliminar também tudo aquilo que ainda poderia existir. É apagar o futuro.”

 

O ouro da terra é como se fosse a estrela, a lua do céu, porque se as pessoas pudessem lavrar a lua , elas continuariam lavrando. E nós compreendemos nesse momento que a maior riqueza está nesse lugar de pensar a continuidade da vida no planeta

Célia Xakriabá


 

De uma forma quase cantada, Celia emocionou o público. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

O evento foi muito mais que um debate ambiental, que claro, já é grande por si só. Mas havia ali uma discussão maior sobre arte, natureza, pertencimento, amor pela terra e principalmente, continuidade. "No século XXI o problema da humanidade é ‘desterrança’. A cada dia o planeta está mais aquecido... mas a cada dia a humanidade tá com o coração mais congelado. Nós temos um desafio importante de desaquecer o planeta para aquecer o coração", explicou a deputada.

Pertinho do Horto, o Centro de Artes e Convenções da UFOP foi tomado por todo o fim de semana pela arte. No palco, a banda Congadar prometia transformar de um jeito único a ancestralidade em música.

“Meu deus, que show é esse?”, refletia espectadora sobre a energia da Congadar - Foto: Joyce Campolina

À primeira vista, Congado, rock e mpb não se bicam, correto? Ou historicamente parecem linguagens pouco prováveis de dividirem o mesmo álbum, quiçá a mesma música. Mas bastou os primeiros 10 segundos de apresentação para desmontar qualquer impressão ou preconceito que qualquer um tivesse.

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A banda nasceu em Sete Lagoas, cidade que é um verdadeiro berço de talentos, tome Paula Fernandes, o trapalhão Zacarias ou essa que aqui escreve, como exemplo. Esse show, foi algo à parte e o arrepio era aparente no público, mesmo aqueles mais agasalhados.

Ao fim da apresentação, Carlos Saúva, ou como é conhecido, Mestre Saúva, vocalista e caixa da banda falou sobre o desejo de levar o Congado cada vez mais longe.

 

O mundo inteiro conhece o maracatu. O mundo também vai ouvir o Congado Aqui

Mestre Saúva


 

“Eu já toquei com você na orquestra na pandemia”, relembrou Saúva depois de uma tiéte(eu) ir tietar - Foto: Joyce Campolina/FIU UFOP

Marcão Avellar(baixo), um dos fundadores da banda, costuma dizer que a Congadar é uma "banda de palco". Faz sentido. As gravações impressionam, mas é ao vivo que a proposta ganha corpo. E só quem estava presente naquela noite conseguiu sentir a energia proporcionada pela banda.
 

Talento que vem do céu. - Foto: Joyce Campolina/FIU UFOP

"Foi um dos melhores shows que eu já vi. Só merecia muito mais gente." Quem dizia era a estudante de nutrição, Brenda Rogai, enquanto o público ainda deixava o auditório. E ela tinha razão. O desejo da ufopiana, foi completamente compartilhado por Saúva, que demonstrou total interesse e animação para um próximo show na Praça Tiradentes.

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Verdade seja dita, há uma ironia recorrente nos festivais de cultura. Grandes nomes costumam atrair grandes plateias naturalmente, claro. Já grupos que experimentam, misturam ou desafiam padrões e classificações frequentemente entregam alguns dos melhores momentos para públicos menores.

Quem esteve ali naquela noite viu uma banda que dificilmente cabe em um único gênero musical. O show da banda Congadar foi o ponto alto e o melhor jeito de terminar a sexta-feira.
 

Sábado na cabeça

Denúncia na arte. - Foto: Joyce Campolina/FIU UFOP

"Minério na Cabeça", espetáculo de dança dirigido por Gabi Augusta, partia da seguinte proposta: “unir danças urbanas, samba e danças afro-brasileiras para falar sobre mineração, mudanças climáticas e periferias”. 

No palco, a montagem se mostrou, se é que era possível, ainda mais ambiciosa. Ao lado da denúncia, tinha uma exaltação à vida, uma forma de lembrar que existe arte e produções culturais maravilhosas justamente nos territórios que só costumam aparecer nas manchetes quando alguma tragédia acontece.

Quatro grupos: Entre no Ritmo, Na Pegada, Academia Ritmo de Rua e Nós de Corpos ocuparam o palco como se fossem um só. A trilha sonora, composta por músicos da região, fazia parte do espetáculo ou era um espetáculo à parte, um casamento perfeito.

No fim da apresentação, a diretora Gabi Augusta chamou toda a equipe ao palco. Bailarinos, produtores, músicos, iluminadores e técnicos. Um a um, os nomes foram anunciados. 

Ao agradecer à mãe, à esposa e a todos os amigos. Gabi fez um discurso improvisado e emocionou à todos.

 

 

Há anos atrás, quando eu tinha desistido de dançar, eu conheci essa abençoada aqui que sonha alto, que eu sou muito pé no chão. Ela ela via em mim um potencial que eu não via. Porque quando você tá com fome, você não tem tempo para sonhar. E aí com o tempo que eu fui crescendo e convivendo com essas pessoas maravilhosas que sonham grande, eu comecei a ver potencial em mim também, comecei a acreditar em mim. Então, eu só queria agradecer as pessoas que também acreditam em mim, me dão essa força, agradecer minha mãe.Mãe, obrigada por toda vez que você levantou da cama, mesmo sem conseguir, para cuidar da gente. Obrigada pelas vezes que você deixou de comer para a gente comer. Obrigada por todos os cursos de graça que você via e me colocava. E juro gente, ela me colocava em tudo. E nunca imaginei que isso aqui estaria acontecendo

Gabi Augusta

 

A força de uma mulher. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

O teatro inteiro chorou. Foi curioso perceber que aquele agradecimento, feito diante de dezenas de pessoas, dizia muito sobre a diretora e sobre o próprio espetáculo. "Minério na Cabeça" nasceu da pesquisa, do ensaio e principalmente de trajetórias que normalmente ficam fora dos grandes palcos. 

Gabi elogiou inclusive a mudança do FIU em aceitar agora, não só artistas que estão dentro da universidade, mas quem é de fora, que nasceu aqui na região e como muito bem colocado pela dançarina, “tem muito a mostrar. Tem que deixar a gente subir no palco”.

Depois da apresentação, Drika Morais, ainda com a respiração acelerada, comentou sobre o espetáculo: "Foi muito trabalho. A gente passou a semana inteira preparando tudo. E foi até mais do que eu imaginava", resumiu.

Carinho entre artista e público - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

A impressão era compartilhada por quem estava na plateia. Lanabel, moradora de Ouro Preto e frequentadora assídua das programações do Festival de Inverno, observava outra coisa. Conhecia alguns daqueles artistas desde crianças. "É muito bom ver eles realizando sonhos", disse. "Ver esse potencial todo chegando até aqui."

Domingo guloso

A gula de impressionar todo mundo que estava presente naquela noite de domingo - Foto: Joyce Campolina/FIU UFOP

"O Último Ingresso para o Parque Gulosa", espetáculo solo de Marcos Ribeiro, começava como uma comédia policial. Um detetive bobalhão precisava investigar o desaparecimento de um adolescente em um parque frequentado pelos personagens mais excêntricos possíveis e um monstro cuja fome “não era de gente não”.

A sinopse não preparou ninguém para o que veio em seguida. Sozinho em cena, Marcos contracenava com projeções, vozes gravadas e animações que pareciam responder aos seus movimentos em tempo real.

Em alguns momentos, foi difícil decidir onde terminava o ator e começava o desenho. Ora o ator também aparentava uma animação, ora as animações me pareciam na verdade pessoas que estavam no palco atuando junto com ele. O sincronismo impressionava tanto quanto o texto.

Foi tudo pós irônico - Foto: Joyce Campolina/ FIU UFOP

A peça não tinha vergonha de fazer piadas de duplo sentido, brincar com referências absurdas ou recorrer ao humor de “quinta série”. E a forma como tudo era conduzido e repetido no momento certo levou o público às gargalhadas. Muito além daqueles “arzinhos” soltos pelo nariz, que indicam que “é foi até engraçado, mas não ao ponto de me fazer rir”.

Mas o curioso era perceber que isso nunca diminuía a inteligência do roteiro. Pelo contrário. Era justamente nos momentos de relaxamento, com a guarda baixa, que surgiam as melhores críticas ao falso moralismo, à escala 6x1, ao consumo desenfreado e, principalmente, à inteligência artificial.

Para quem não assistiu a peça: o tal monstro queria engolir todos os humanos, que segundo ele, haviam perdido a imaginação. O plano era então dominar o mundo com a IA(Imaginação artificial). Sem querer dar spoiler, mas já dando.

No fim, o detetive derrota o mostro com… advinhem… a sua imaginação que claro, era pra lá de fertil. Mas muito além da história principal, tem romance inimaginável, piadas maravilhosas, personagens engraçadíssimos, enfim.. No fim, a opinião era unânime: “Nunca vi algo tão bem montado na minha vida: a atuação no timing perfeito da animação, as vozes…”. Tava todo mundo encantado.

Foi difícil encontrar alguém indiferente ao espetáculo recém assistido. O fim de semana, olhando em perspectiva, durante três dias, me mudou e me lotou culturalmente. Foi como ir ao cinema e voltar pra casa cheia de ideias, questionamentos e vontade de viver a vida. E essa repórter que aqui escreve não conseguiu chegar a uma conclusão que não seja a mais óbvia, de que a arte sempre foi e continua sendo uma das formas mais bonitas e com toda certeza, mais necessárias de imaginar um mundo diferente.

 

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