Mariana (MG), 6 de setembro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Florescer

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Foto: Reprodução

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Giseli Barros:

Desde sempre no mesmo lugar. Nasceu fora do núcleo da cidade, bem entre montanhas, numa casinha com chaminé. Nos dias mais frios, despertava com o aroma da relva que entrava pelas frestas da janela. Corria, então, para a cozinha, beliscando a broa ainda quente, aguardando o sol acordar.

Para ela, o mundo cabia no espaço verde da infância. Quando aparecia vizinho ou parente, o café animava as histórias que depois fantasiava por longos dias. “O que haveria após o fim da única estrada que dava acesso ao rancho?”, sonhava, enquanto, no chão de terra, alongava as pegadas dos visitantes. E, assim, seguia o curso da vida, com as estações em seu papel renovador. Admirava a chuva que lavava o céu; as semanas longas de dias ensolarados demorando as noites; o desabrochar mágico das flores e os sabores das frutas no quintal.

Crescia. Sentia o mundo vibrando dentro dela. Em revelação, pressentiu saudade do tempo que lhe escapava. Decidiu seguir. Pela primeira vez, caminhou entre as árvores que protegiam o universo conhecido, tangível. Observando as marcas de seus pés, no chão materno, pisou firme, no desejo de que nem vento e chuva pudessem apagar sua história. Foi nessa hora, então, que tudo paralisou e, demoradamente, contemplou a chaminé ao fim de onde os olhos ainda conseguiam alcançar. Partiu.

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Para longe, ia com a mente divagando entre histórias ouvidas e sentidas, repletas de lembranças alheias. E, depois de tantos passos, chegou. Tudo tão diferente. De início, não capturou aromas que afagassem a alma. Era a dificuldade do começo. Disso sabia. Permitiu, portanto, o desafio do novo, banhando-se de chuva. Esperou um pouco. Ficou de longe, procurando semelhanças. Arriscou um “Oi?”, mas, sem resposta, considerou ser prudente. Semblantes vazios. Silêncio em ruas barulhentas. “Ninguém a via?”, queria saber. Procurava, atenta, fotografar na memória o que pudesse, mas tanto cinza.

No ponto em que fez pouso, ensaiando nova morada, fechou os olhos e recordou os sonhos pueris. Arriscou outra incursão. E parecia que ao redor as ruas se embaralhavam, que as pessoas se embolavam e se repeliam, que as vozes não eram sentidas, porque não se ouvia ali nenhum canto vindo das copas das árvores. Só o som furioso de uma vida-máquina invadia o seu corpo. “Tudo cinza como no inverno, quando a natureza prepara a casa.”, conjecturou. Mas, mesmo com o sol forçando a presença, os ventos querendo semear, a chuva varrendo o que os outros deixavam em qualquer lugar, o cenário parecia em nada ser alterado. “Tudo cinza.”, repetiu. Olhou mais uma vez e se assustou. Viu que o entorno descoloria. Pela primeira vez, teve medo. Não queria marchar pelas ruas. Do trabalho que iniciou na cidade, sua tarefa era contribuir com a limpeza das vias públicas. Bem cedinho, as vassouras corriam no mesmo ritmo. Ela mudava o tom, parava, agradecia o afago da manhã e inspirava o que ainda não havia sido coberto de névoa espessa. As demais pessoas, maquinalmente, no mesmo ritmo. De cima, um canto-assobio escondido. “Pois é isso. Eles estão aqui.”, descobriu. Resolveu colorir de azaleias, margaridas, jasmins e girassóis os cantinhos da casa. Para cada canto-assobio que se aproximava, ela, mais animada, imprimia colorido aos cantinhos das ruas.

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As companheiras, um dia, entre o ritmo mesmo seguido em compasso, passaram também a assobiar. Com timbres diversos, sem que fosse preciso combinação, seguiram a semeadura iniciada timidamente pela outra, enfrentando as máquinas, sem que a realidade tivesse de ser como névoa fria. “Oi?”, ela insistiu mais uma vez. Dessa vez, obtendo resposta. Feliz em ter encontrado, assim, a casa procurada, soube, no mesmo instante, que seguiria construindo memórias. Casa-afeto como aquela pequenina, do início da sua estrada, de chaminé, depois das montanhas.
 

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