Mariana (MG), 10 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
Publicidade
https://agenciaprimaz.com.br/apidata/imgcache/cee425344cbf7752cf63b2c44c83561a.webp

In memoriam

*

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Giseli Barros:

Mais um dia de inverno. Algumas janelas timidamente abertas e poucos passos lá fora. As casas respiram o ar gélido da manhã, enquanto os primeiros raios de sol tentam aquecer aqueles que não puderam estender mais alguns minutos de sono. Em uma delas, uma vela queima desde a véspera. Há um som abafado como se uma conversa ocorresse em segredo. Na cama, que não foi desfeita, uma caixa aberta e fotografias dispostas sequencialmente. As mãos envelhecidas acariciam o bebê, a criança, o jovem. E, de repente, ao seu redor, a vida luta para continuar através das lembranças de um passado que lhe escapa. Inevitavelmente, há medo de que o presente também lhe seja traiçoeiro. Corre até a mesinha, pega a caixa de fósforos e reacende a vela. Puxa as cortinas para barrar o vento. Olha para o telefone. O silêncio é aterrador. “Que não toque nas próximas horas!”, é o seu pedido nas orações que não cessam. “Há de resistir!”, suplica. Há um fio de esperança queimando o peito. Volta os olhos para a foto preferida e vê a criança vestida para o seu primeiro dia de aula: “Mãe!”.

Lembra-se da primeira despedida. Sua criança chorava no colo da professora. No fim da tarde, a recepção calorosa, com o trabalho de artes entre as pequenas mãos ainda borradas de tinta. Orgulhosa, fez uma moldura e colocou a arte na parede. Todos os sonhos registrados nas cores dispostas no papel em branco. Era o começo de tudo. Dali em diante, dividiria o seu filho com o mundo. Teria de deixá-lo sentir os sabores da vida, mas também os dissabores que viessem dela. E a cada armadilha que, porventura, surgisse, estaria lá para estender a mão amiga. Felizes foram os dias da infância. O primeiro diploma. A letra cursiva, desenhada no papel cintilante, indicava, para a mulher, o futuro da criança que aspirava ser astronauta. “Quero ver tudo lá de cima, mãe!”, dizia entusiasmado. “De lá, a gente vê Deus em tudo. Eu acho. Todas as estrelas. As pessoas viram mesmo estrelinhas?”, perguntava o que a mãe não poderia responder não fosse com um abraço apertado e muitos beijos. E os anos foram passando.

A vida, seus enlaces e desenlaces. Em certas ocasiões, o susto de um tombo, o corte, o sangue, a sutura. A briga na escola. Uma nota perdida e o choro da promessa de mais esforço na etapa seguinte. Sentiu a morte do pai. Menos uma voz na casa. O silêncio que machuca. Em seu colo, ficava mais perto das estrelas. Era seguro o colo do pai. Era macio o colo da mãe, e, com medo, aconchegou-se nele bem forte, para não perder esse conforto jamais. Chegou ao Ensino Médio. Chorou os amores perdidos. Não se tornou astronauta. Partiu da casa materna para viver a universidade. Diplomou-se. Viu os cabelos da mãe e as feições dela se transformarem. Gostava de acariciar as mãos que agora traziam as marcas dos anos vividos. Tão macias e quentes. Eram as mesmas mãos de afeto dos primeiros anos.

Publicidade
/apidata/imgcache/e9bd5514f213916015e37de1ab9ceab3.jpeg?banner=postmiddle&when=1783672794&who=345

E entre os planos que fazia, chegou o dia em que não acordou muito bem. Esperava a vacina. Fez o que os médicos disseram. Seguiu os protocolos, mas as coisas não andavam bem. Contaminou-se. Só conversava com a mãe pelo telefone. Não atendeu a ligação numa manhã. Teve de ser levado ao hospital. O quadro se agravou e a transferência para o tratamento intensivo foi necessário. Notícias. Esperanças da cura. Novamente, a voz pelo telefone. Chamadas de vídeo. Notou a mãe mais envelhecida. Desejou curar-se logo. Mas, não se sabe por que o vírus é, por vezes, bem traiçoeiro. Instalou-se com todas as forças nos pulmões. De volta o silêncio. Só as máquinas continuavam a falar sem parar, na rotina ininterrupta de seu trabalho. Horas sem fim. Dias. Semanas. As máquinas trabalhando. Em seu sono veria as estrelas?

De casa, a mãe receava olhar o céu. Não queria trazer para perto de si nenhum mau agouro. Quantas velas queimou ao longo dos dias? Agradecia a cada oração. E, a cada mensagem recebida, mentalizava o sorriso do filho. Mas, naquela manhã, seu coração estava doendo mais forte. Queria pensar que fosse efeito de mais uma noite em claro. Desviou o pensamento. Aqueceu a água para o café. Olhou novamente as fotos da criança cheia de vida e chorou o que não conseguia mais suportar. E o telefone tocou.

Lá fora, o céu azul bem límpido. Vivo. O sol de julho acariciando todas as casas. Mais pessoas na rua. O dia vivo. Movimento. Algumas usando máscara. Quem saberia da dor da casa em vigília? Apagou a vela. Da janela não era visível nenhuma estrela, mas ele agora estaria do outro lado. Naquele instante, enquanto as máquinas também silenciavam, a mãe sabia que para o universo seguia o menino que desejava tocar as estrelas.

Compartilhar

Leia também

Comerciantes do Jardim articulam evento para fortalecer comércio local Economia

Comerciantes do Jardim articulam evento para fortalecer comércio local

Festival de Inverno de Mariana homenageia Erna Antunes Festivais

Festival de Inverno de Mariana homenageia Erna Antunes

IV JURA UFOP reacende a discussão sobre reforma agrária no Brasil Política

IV JURA UFOP reacende a discussão sobre reforma agrária no Brasil

Publicidade
/apidata/imgcache/344ad284c9449987f546068863030cfc.jpeg?banner=middle&when=1783672794&who=345