Infiltrados na Klan: a importância de não ficar parado no tempo

Filme de Spike Lee entrou recentemente no catálogo da Netflix e mostra como um policial negro se infiltrou no mais terrível movimento supremacista dos EUA.

Atualizado em 19/07/2021 às 09:07, por Kael Ladislau.

Foto: Divulgação

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Há mais ou menos um ano, a Netflix lançou em seu catálogo Destacamento Blood, de Spike Lee. Naquela oportunidade, a coluna apresentou a obra de Lee como um filme sem sutilezas, como bem pede um filme de Guerra.

Recentemente, entrou na plataforma mais um filme do diretor: Infiltrado na Klan. Lançado antes de Destacamento Blood, em 2018, o filme passa longe da sutileza, bem como toda a obra de Spike Lee.

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Aqui, conhecemos Ron Stallworth, um policial negro que se infiltra na tenebrosa Ku Klux Klan com a ajuda de seu parceiro judeu Flip Zimmerman.

Obviamente, Lee não usaria de sutilezas para falar da KKK em plena década de 70, época em que se passa a história.

Por isso, não é de se estranhar que o longa seja um filme denúncia dos mais importantes dos últimos anos – pelo menos, dos que saem de Hollywood.

O preconceito daquela época não terminou e se o espectador acredita no contrário, Lee joga na cara cenas recentes de manifestações raciais como se fosse um documentário ao longo do filme. Sem perder o ritmo.

A história, sem essa camada um pouco mais profunda, mostra como o personagem de John David Washington consegue desmoronar uma célula do grupo supremacista branco. A maneira como Lee nos conta esse roteiro é carregado por elementos que remontam ao Blacksploitation, um subgênero cinematográfico em que as obras eram quase totalmente produzidas por pessoas negras, na década de 60.

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Como esse movimento cinematográfico é carregado por um humor, Spike Lee não deixa de utilizá-lo aqui, com doses certeiras que nos levam à reflexão sobre o debate racista. Talvez por isso mesmo, o movimento da KKK é mostrado de uma maneira tola, absolutamente caricato.

Essa escolha de Lee não é à toa, levando em consideração o quão tolo esse tipo de crime é. A verdade, porém, é que a KKK foi sim um movimento sério que vitimizou milhares de Negros nos EUA ao longo dos anos.

Lee, com absoluta certeza, não faz isso para banalizar o movimento – não mesmo!! Talvez o retrate como deveria ser mesmo mostrado.

O retrato que Lee nos coloca em cena da luta racial nos EUA não pode ficar parado no tempo. Até porque ainda hoje se discute e se combate isso. Ainda assim, é importante localizar a obra no tempo, quando os negros travaram batalhas e lançavam líderes de muita influência.

As pessoas podem até torcer o nariz para a forte “idealização” que Lee faz ao longo do filme. E isso, sinceramente, é um problema delas. E me repito ao dizer o que citei na crítica que fiz de Destacamento Blood em 2020: com Lee, ou você escuta ou você se choca. Na verdade, os dois.

O racismo deve ter seu lugar contato com muita verdade, com muita justiça e quando Lee faz isso, não podemos, nunca, julgá-lo. Seu grito, mais uma vez me recorrendo ao texto passado, não é vão.

Um dos diretores mais importantes de nossa geração tem em “Faça a Coisa Certa” de 1989, talvez sua obra máxima. Mas, Infiltrado na Klan é mais um daqueles filmes que colocam Spike Lee em seu devido lugar: o de quem PRECISA ser escutado e assistido.

Não concordar com Lee e criticá-lo num lugar de privilégio que pessoas negras jamais estiveram, coloca quem o faz também em seu devido lugar. E não é o lugar mais certo de estar.

Assista a Spike Lee, procure entender Spike Lee. Infiltrado na Klan está disponível na Netflix.


Kael Ladislau

Kael Ladislau é Jornalista graduado pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).