Mariana (MG), 13 de agosto de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Lei de cotas completa 10 anos de vigência no Brasil

  • Brasil

Medida proporcionou profunda mudança no corpo discente das universidades federais do país, com demonstração da urgência do debate da desigualdade racial no ambiente universitário.

Durante o mês de novembro aconteceu a Semana da Consciência Negra em Mariana, com a presença da tradição do congado da região – Foto: Alexandre Anastácio/Agência Primaz

Em 2018, estudo do IBGE intitulado “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil” concluiu que, pela primeira vez, o número de estudantes negros (pessoas pretas e pardas) é maior que o de brancos nas universidades públicas do país, representando 50,3% do total dos estudantes. Em 2022, a Lei 12.711 completa 10 anos de implementação no Brasil, assegurando o direito que reserva uma quantidade de vagas destinadas à população negra e indígena.

Essa bandeira, esteve em pauta pelo menos desde a década de 80, quando Abdias Nascimento, importante intelectual e ativista do século 20, foi um dos primeiros parlamentares do congresso brasileiro a apresentar um projeto de lei discutindo a necessidade de políticas afirmativas para a população negra do país, em 1983. Após anos de luta, as cotas começam a ser implementadas nas universidades públicas no início dos anos 2000, em instituições como a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade de Brasília (UnB), entre outras.

A política tem como um dos pilares fundamentais a reivindicação da reparação histórica para a população negra, que foi escravizada por quase 400 anos, e que, após esse período, ainda é alvo da segregação e da desigualdade social. Como exemplo, dados colhidos na segunda edição do estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, de 2021, apontou que o rendimento médio mensal de pessoas brancas foi de R$1.866 por mês, praticamente metade dos R$945 pagos aos pardos.

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Outro fator é a violência, com a população negra inserida em um processo considerado de extermínio. Dados do Atlas da Violência, de 2021, apontam que a chance de uma pessoa negra ser assassinada é mais que o dobro de uma pessoa branca, mais precisamente 2,6 vezes. No ano passado, de acordo com estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de cada 100 pessoas mortas 78 eram negras. A população negra representa também 84% dos mortos pelas polícias e as mulheres negras são as maiores vítimas do feminicídio, chegando a 62% dos casos.

Política de cotas

Pesquisa recente, realizada pelo Datafolha, indicou que metade dos brasileiros são a favor das cotas, com 34% contrários, 12% que não souberam responder e outros 3% indiferentes. Em uma análise, o Observatório da Branquitude apontou críticas que foram feitas à política de cotas ao longo dos anos. Jornais da grande mídia como Globo e Folha de São Paulo, que se posicionaram contra desde que o debate começou a ser feito pela sociedade, hoje tendem a ser favoráveis à medida em algum nível.

Alguns professores universitários se manifestaram durante décadas contra as cotas, como é o caso da professora emérita da UFRJ Yvonne Maggie, antropóloga cuja pesquisa são as religiões de matriz africana. Coletivos negros denunciaram o racismo que quer colocar o negro sempre como objeto de estudo e nunca como sujeito na Academia. Lilia Schwarcz, historiadora, antropóloga e professora da USP, que também é pesquisadora de questões raciais no país, foi uma das intelectuais que assinou o manifesto contra as cotas raciais anos atrás. Mas, segundo ela, após testemunhar o impacto das cotas na sala de aula, mudou sua opinião e passou a defender a medida.

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Na região de Mariana e Ouro Preto, a população negra está ocupando o espaço acadêmico cada vez mais, mas ainda assim a luta por reconhecimento e para que o ambiente universitário seja cada vez mais diversificado acontece diariamente.

O professor Clézio Roberto Gonçalves, do Departamento de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da Universidade, aponta que “ainda hoje, a ação afirmativa costuma ser reduzida às cotas, o que é um equívoco. É certo que elas podem representar o seu primeiro passo na perspectiva da oferta de oportunidades aos grupos beneficiários. As cotas são um aspecto ou possibilidade da ação afirmativa que, em muitos casos, tem efeito pedagógico e político importante, posto que força o reconhecimento do problema da desigualdade e a implementação de uma ação concreta que garanta os direitos (ao trabalho, à educação, à promoção profissional) para pessoas em situação de inferioridade social”.

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Segundo ele o impacto das cotas no ensino superior é visível. “Do ponto de vista discente, a universidade não é mais a mesma. Os estudantes negros cotistas não impactam apenas o corpo, o cabelo, a vestimenta, mas a dimensão epistemológica: organizam-se em coletivos, reivindicam representação, questionam a dimensão eurocêntrica dos currículos e, por exemplo, a postura universalista da assistência estudantil”.

Questionado pela reportagem daAgência Primazsobre os problemas enfrentados e o futuro das ações afirmativas, Clézio analisa que “a falta de uma política de permanência que envolva também as cotas raciais utilizadas para o ingresso do aluno na universidade é um ponto crucial”, acrescentando que cursos como Medicina, Odontologia e Engenharias, que exigem dedicação integral, ainda são um entrave para estudantes que precisam trabalhar.

O objetivo das cotas não é apenas diversificar o ensino superior, mas dar condições para que os grupos discriminados possam competir em igualdade no mercado de trabalho. Enquanto houver fortes desigualdades de oportunidades entre brancos e negros no Brasil, as cotas devem continuar existindo”, conclui Clézio.

Sobre a contestação das ações afirmativas no ensino superior, o Pró-Reitor Adjunto de Graduação, Adilson Pereira dos Santos, explica que “as críticas são esperadas, pois o nosso sistema de ensino superior é marcadamente elitista, e a UFOP é parte deste sistema. No caso das instituições federais, como a UFOP, este elitismo era ainda mais agudo. Sendo assim, a instituição precisa lidar de maneira tal que se reconheça enquanto agente na perspectiva da democratização, como inclusão social deste importante espaço de prestígio social”.

O NEABI-UFOP promove debates relacionados à questão racial no Brasil, realizando inclusive um amplo ciclo de palestras e discussões sobre os 10 anos da lei de cotas no país, como a palestra “É possível assumir-se indígena e/ou negro(a) na Universidade?”, que aconteceu no último dia de novembro.

O NEABI realiza debates sobre as questões étnico-raciais dentro da UFOP – Foto: Alexandre Anastácio/Agência Primaz

Racismo

Estudantes do curso de História da UFOP e membros do Coletivo Negro Braima Mané, Vittor Policarpo e Maria Eduarda Câmara afirmam que as cotas representam uma mudança no cotidiano universitário que ultrapassa os muros do Campus. “Quando conseguimos ver uma pessoa negra estudando, fazendo uma pós-graduação, trabalhando como médico, advogado e o que mais ela quiser ser é muito bonito porque faz com que uma criança negra olhe para essas pessoas e sonhe também. Essa é uma oportunidade que historicamente foi negada à essa pessoa”, comenta Vittor.

Apesar desse fato, Maria Eduarda aponta que “muitas vezes o aluno cotista tem sua saúde mental afetada dentro da Universidade porque assume uma responsabilidade de ser sempre o melhor. Além do fato de que quando entramos na Universidade nos deparamos com a falta de uma bibliografia de autores negros. Dentro do curso de história nós vamos aprender sobre escravidão a partir da perspectiva de um autor que não é negro, então ainda falta essa representatividade para nós”.

Quando um estudante negro entra em uma Universidade que é historicamente branca, que tem uma bibliografia branca, professores brancos, um espaço exclusivamente feito de pessoas brancas para elas mesmas, essa pessoa negra começa a aplicar o seu conhecimento ali dentro, trazendo novas discussões, problemas e um outro olhar”, ressalta Vittor.

“Abandonando as noites de terror e medo

Eu me levanto

Para um amanhecer maravilhosamente claro

Eu me levanto

Trazendo as dádivas que meus ancestrais me deram,

Eu sou o sonho e a esperança dos escravos.

Eu me levanto

Eu me levanto

Eu me levanto”

Trecho da poesia “Ainda assim eu me levanto” (Still I rise), de Maya Angelou.

Vittor Policarpo e Maria Eduarda Câmara fazem parte da luta antirracista na UFOP com o Coletivo Negro Braima Mané – Foto: Alexandre Anastácio/Agência Primaz

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