Mariana se arrasta em mais uma crise hídrica
Falta d’água atinge bairros inteiros, gera revolta e expõe falhas na gestão e na comunicação
Na 7ª reunião ordinária da Câmara realizada na última segunda, moradores desabafam sobre a falta de água recorrente nos bairros - Foto: SAAE Reprodução
A falta de água em Mariana deixou de ser um problema pontual para se tornar uma crise cotidiana que atravessa bairros inteiros e expõe um contraste incômodo: mesmo com alta arrecadação municipal, moradores seguem convivendo com torneiras secas, racionamentos, muitas vezes não informados e soluções que ainda caminham a passos lentos. O tema dominou a 7ª reunião ordinária da Câmara Municipal, realizada na última segunda-feira (16), com participação direta da população atingida.
Bairros como São Gonçalo, Passagem, Cabanas, Santa Clara, Jardim dos Inconfidentes, Colina e Santo Antônio têm enfrentado interrupções frequentes no abastecimento. Em muitos casos, a água simplesmente deixa de chegar por dias. A situação levou moradores a ocuparem o plenário em busca de respostas e, sobretudo, de providências.
Drama cotidiano e relatos de abandono
Durante a sessão, o vereador Marcelo Macedo vocalizou a indignação que ecoa nos bairros. “A cidade toda está clamando, estão sem água”, afirmou. O parlamentar deu voz ao caso de uma idosa de 84 anos, moradora de Passagem de Mariana, que estava há uma semana sem abastecimento. Um fato que para além de desconfortável, se tornou uma violação direta de condições básicas de dignidade.
Além da escassez, moradores denunciam a precariedade no atendimento emergencial. Caminhões-pipa, quando chegam, muitas vezes aparecem apenas à noite, exigindo que moradores se mobilizem às pressas para garantir o mínimo necessário. “A cidade é rica como Mariana, rica. que arrecadou mais de um bilhão de reais e o povo tá sem água, o povo não tem esgotamento sanitário. Enfim, tá uma vergonha”, criticou o vereador.
Sistema antigo e soluções em andamento
Parte do problema está na própria estrutura de abastecimento. Em Passagem de Mariana, por exemplo, o fornecimento depende há mais de 80 anos de nascentes como Efigênia e Pantera, sistemas que já não comportam a demanda atual. Segundo o vereador Ronaldo Bento, há estudos para uma nova captação que complemente o abastecimento, conectando à ETA Sul.
Outro ponto crítico é o Bairro São Gonçalo, a ausência de um reservatório próprio agrava a situação. Atualmente, o bairro depende de sistemas compartilhados com outras regiões, o que compromete a regularidade do fornecimento. Um projeto para construção de um reservatório com capacidade de 1 milhão de litros já foi aprovado, mas enfrenta entraves burocráticos: a obra depende da desapropriação de um terreno, ainda em negociação.
Hoje nós não temos um reservatório exclusivo para atender a demanda do São Gonçalo.Mas isso já é uma demanda que já foi aprovada nesta casa, onde o prefeito já assumiu o compromisso para que de fato possa atender essa demanda do reservatório
A expectativa é que, com a nova estrutura, o abastecimento ganhe mais autonomia e estabilidade.
SAAE, clima, queimadas e seca
Em nota à reportagem, O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Mariana atribui a crise no abastecimento a fatores ambientais e estruturais. Segundo a autarquia, queimadas em áreas próximas às captações que abastecem a ETA Sul e o distrito de Passagem de Mariana, somadas às chuvas recentes, provocaram o assoreamento de mananciais como Belém, Pantera e Efigênia.

O órgão também aponta o avanço de ocupações irregulares, que são crônicas e intrínsecas na cidade, como agravante. De acordo com o SAAE, ligações clandestinas têm causado rompimentos em redes adutoras, ampliando as interrupções no fornecimento em regiões como Santa Rita de Cássia, Jardim Santana e São Cristóvão.
Em resposta, equipes atuam na limpeza e desassoreamento das captações, além de manutenções na rede e manobras para redistribuição da água. O abastecimento começou a ser retomado gradualmente em bairros como Passagem de Mariana, São Gonçalo e Cabanas, ainda de forma instável, com apoio de medidas emergenciais como o abastecimento suplementar de reservatórios.
O SAAE também destaca a queda na vazão dos mananciais durante a estiagem e afirma que executa obras para ampliar o sistema e reduzir a dependência de caminhões-pipa, como o novo sistema do bairro Nossa Senhora Aparecida e a estrutura já concluída no Gogô. Enquanto isso, moradores seguem enfrentando um abastecimento irregular, em meio a uma crise que ainda não tem solução imediata.
Racionamento sem aviso revolta moradores
Se as causas são complexas, a comunicação, ou a falta dela, tem agravado a insatisfação popular. O morador Stanley Santos, do bairro São Gonçalo, relata que a falta de água se prolongou por dias sem qualquer aviso oficial.
Em um sábado, descobri que há um racionamento, mas eles não informam. Chamam de ‘manobra’, mas é racionamento
Segundo o morador, a distribuição seria interrompida diariamente entre 5h e meio-dia, informação obtida informalmente com um funcionário, não pelo SAAE.
O problema vai além, mesmo fora desse intervalo, o abastecimento não é normalizado. “O bairro inteiro está sem água”, relatou Stanley no início deste mês. O morador já registrou diversos protocolos sem retorno efetivo, ele também chama atenção para a dificuldade de moradores idosos em acessar os canais de atendimento.
Estiagem preocupa e pressiona por respostas
Com a aproximação do período de seca, a tendência é de agravamento da crise. A redução da vazão dos mananciais já impactou o sistema nos últimos meses, e a população teme que o cenário se repita ou piore.
O SAAE afirma que vem realizando campanhas de conscientização para o uso racional da água e investindo em obras estruturantes para reduzir a dependência de caminhões-pipa. Entre elas, destaca-se um novo sistema de abastecimento com capacidade de 1 milhão de litros, em fase final de implantação, que deve beneficiar bairros como Nossa Senhora Aparecida, São Sebastião e Colina, além de contribuir para outras regiões.
Entre promessas e pressão popular
A crise da água em Mariana escancara um paradoxo difícil de ignorar: enquanto o município ostenta cifras bilionárias em arrecadação, serviços básicos seguem falhando. Na Câmara, a pressão popular já começa a surtir efeito, o Executivo se comprometeu a receber moradores do São Gonçalo para discutir a situação.
Mas, como ficou evidente na sessão, a mobilização parece ser o principal motor de resposta. “Só faz ação se tiver pressão”, resumiu um dos vereadores.

Joyce Campolina
É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas







