Marianense Dreisse Drielle lança Ritmos Invisíveis

No último sábado, Dreisse Drielle apresentou seu segundo livro na cidade onde nasceu, unindo afeto, maturidade literária e o retorno simbólico ao ponto de partida

Atualizado em 10/02/2026 às 15:02, por Joyce Campolina.

Dreisse Drielle sorri orgulhosa ao segurar o seu segundo livro Ritmos Invisíveis

Entre amigos e famílias, a marianense Dreisse Drielle iluminou a tarde de sábado do Museu de Mariana. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

No último sábado (7), o Museu de Mariana não foi apenas o cenário do lançamento de Ritmos Invisíveis. Foi ponto de partida, retorno e afirmação. A jornalista, escritora e comunicadora marianense Dreisse Drielle escolheu a cidade onde nasceu e que carrega tatuada no corpo, pelas coordenadas da Praça da Sé, para apresentar ao público seu segundo livro. Um gesto que diz muito sobre a autora e sobre a obra. Escrever, para Dreisse, é sempre um movimento íntimo, mas nunca solitário.

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“Gosto de começar pelo fato de eu ser marianense e jornalista. Acho que são as duas coisas que eu mais carrego com orgulho”, afirma. Leitora voraz desde a infância, Dreisse construiu uma relação orgânica com a escrita. “Eu fui uma criança que leu muito e, consequentemente, escreveu muito. Me tornei uma adolescente e uma adulta que lê muito e, consequentemente, escreve muito. Tanto que eu fiz jornalismo depois”, brinca.

Publicado dez anos após Doce Primavera (2016), também lançado em Mariana, Ritmos Invisíveis nasce de um processo que a autora descreve como natural e inevitável. “Pensar criativamente, pra mim, é um processo muito gostoso. Eu sou uma pessoa curiosa pela vida, pelo universo, pelas relações, pelas pessoas. Então, escrever um livro é sempre tirar um pedaço de mim e colocar no mundo”, comenta.
 

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Eva, erro e aprendizagem

Ritmos Invisíveis mergulha na história de Eva, personagem que segundo Dreisse, surgiu a partir de observações das pessoas a sua volta. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

No centro da narrativa está Eva, personagem que se apresenta ao leitor já abalada, marcada por um episódio que atravessa o primeiro capítulo do livro: um beijo que ela não deveria ter recebido. A partir daí, a história se desdobra em camadas emocionais, morais e sociais.

“Pra muito além de ser mocinha ou vilã, Eva é uma pessoa cheia de erros e cheia de acertos”, explica Dreisse. “À medida que a história avança, ela vai se mostrando como pessoa, como mulher, como alguém preparada ou não pra viver aquilo.”

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A autora não esconde a dicotomia entre proximidade e o distanciamento que mantém da personagem. “Eu acho que todas as decisões que ela toma no livro, eu também teria tomado na minha vida. Porque no fundo fui eu que escrevi. Quando a gente escreve, coloca muito da gente, por mais que exista o desejo de se distanciar.”

Eva é fruto de observação, de escuta e de encontros ao longo do tempo. Uma personagem que pode gerar identificação, incômodo ou rejeição. “Quem lê pode gostar muito dela, mas também pode odiar muito. Porque pode ou não se encontrar nas decisões que ela vai tomando.” Ainda assim, Dreisse resume o que deseja provocar no leitor: “Apesar das muitas flutuações que a vida passa, de alguma forma todas elas nos ensinam a dançar dentro do nosso próprio ritmo.”
 

Um livro atravessado pelo tempo presente

O intervalo de uma década entre o primeiro e o segundo livro marca uma mudança evidente na escrita e no olhar da autora. “Eu envelheci e amadureci dez anos. Isso amadureceu meu olhar sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre as minhas opiniões e a minha forma criativa de pensar.”

Ritmos Invisíveis dialoga diretamente também com o tempo presente, abordando temas como exposição, redes sociais e cancelamento virtual. “Em 2016, o Facebook estava começando a bombar, o Instagram ainda tinha aqueles filtros que craquelavam o rosto. Hoje, todo mundo é produtor de conteúdo, todo mundo grava tudo o tempo todo. A gente lida com a internet de outra forma, e o livro é reflexo disso”, afirma a escritora.


Lançar em Mariana: um gesto de afeto

 

Mariana é parte de mim, da minha vida, da minha alma. Eu tenho Mariana literalmente tatuada na pele. Logo que assinei com a editora, eu não tinha outra opção a não ser estar aqui

Dreisse Drielle


 

Marcada para sempre em seu corpo pela Igreja da Sé, Dreisse volta a Mariana para o lançamento do seu segundo livro. “Não tinha como ser em outro lugar”, resume a jornalista. -Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Para Dreisse, o momento foi também de partilha. “Eu queria poder abraçar todo mundo, dividir isso com a cidade. Estou muito feliz de viver isso aqui.” A autora celebra o encontro com amigos, leitores antigos e novos leitores que agora conhecerão Eva, Levy e, em alguma medida, uma nova Dreisse. “Um lado meu escritora que muitos ainda não conheciam.”
 

Orgulho que vem de casa

Entre os presentes no lançamento, família e amigos de longa data compartilhavam de um mesmo sentimento, orgulho. A mãe, Irlanda Ferreira, resume com emoção. “Eu sempre dei força em todos os projetos dela. Esse é o segundo filho dela. Desde pequenininha, ela sempre teve alma de escritora. Foi alfabetizada muito cedo, aos quatro anos, já lia e escrevia”. E pra quem decorou a bíblia infantil com quatro anos, a mãe dela afirma que “sempre soube que seu futuro escrevendo seria brilhante”.

O orgulho pela filha era visto no olhar singelo dos pais, que acompanham o desenvolvimento da escrita de Dreisse desde a infância. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Irlanda conta, rindo, que não teve acesso antecipado ao livro. “Ela não me deixou ler. Disse que eu tinha que esperar pra ler junto com todo mundo.”

De resumos escritos na terceira série ao lançamento do seu segundo livro, Dreisse sempre soube o que queria para a sua vida, se tornando inclusive inspiração para a sua amiga de infância Larissa Souza. “Eu falo que ela é um pouco da minha inspiração, pela resiliência dela assim. Eu lembro que a gente tava na quarta série, aí teve uma feira de profissões, ela viu o estande de jornalismo, virou pra mim e falou: Larissa, eu vou ser aquilo ali. E foi, afirma a advogada com orgulho. 

Entre risadas e olhares emocionados, familiares e amigos prestigiaram o lançamento de Ritmos Invisíveis. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

 

Um amor que apoia

Emocionado, o marido Adriano Santos falou com cuidado, quase contendo as lágrimas. “Foi encontro de almas. Uma vontade de crescer juntos, muito intensa.” Ele descreve a rotina compartilhada entre páginas e páginas de livros, ao som de discos de vinil. “Ela lê o tempo inteiro, de tudo. É uma garimpeira de livros. Isso é natural dela.”

Sobre o próprio papel, Adriano é direto: “Eu sou coadjuvante. Tento apoiar e tirar a neblina da estrela que ela é. Estou aqui pra fazer ela subir.” E afirma que o amor por Dreisse o levou a amar Mariana: “Meu sonho é receber o título de cidadão marianense. Porque aqui estão o coração, a mente e a alma da Dreisse.”
 

O que vem depois

Dreisse já escreve o próximo livro, retomado após anos de pausa, com previsão de publicação entre 2027 e 2028. “Livro é uma sementinha que você planta. Se não regar todo dia, você nunca colhe.”

A nova história acompanha uma mulher mais madura, atravessada por um término conturbado e pelo adoecimento emocional. “É sobre como ela sai desse buraco, com muitas dores, mas também com momentos de luz.”

Por enquanto, Ritmos Invisíveis chega ao mundo do jeito que precisava: no ritmo da própria autora, começando exatamente onde tudo começou. Mariana.


Joyce Campolina

É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas