Mariana (MG), 18 de junho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Movimentos sociais denunciam "massacre social" em duplicação da BR-356

Com verbas do desastre crime de Mariana financiando estradas para mineradoras, moradores enfrentam o fantasma do despejo e o silêncio de um projeto que ignora bairros históricos

Uma fotografia colorida em plano médio-geral, em ambiente fechado, mostra um grupo de aproximadamente 30 pessoas reunidas para uma foto coletiva. Elas estão posicionadas no corredor central de um auditório, entre as fileiras de poltronas pretas com encosto cinza que ocupam o primeiro plano e as laterais.


O grupo é diverso em idade, gênero e etnia, composto por homens e mulheres negros, brancos e pardos. A maioria veste roupas casuais, como camisetas, camisas e calças jeans, enquanto alguns poucos vestem trajes mais formais, como paletós.


No centro do grupo, um homem de óculos, barba e terno escuro se destaca ao posar levemente inclinado para a frente com os braços abertos. À esquerda, duas mulheres estão sentadas no chão e, atrás delas, um pequeno grupo segura uma bandeira branca estendida na horizontal. Na bandeira, lê-se parcialmente a inscrição "MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR..." em letras pretas e vermelhas, contornando um logotipo circular verde e azul.


O auditório tem piso cinza claro e paredes ao fundo com painéis em tons de azul e branco formando desenhos geométricos abstratos. O teto é branco, plano, com várias luminárias embutidas e retangulares acesas, além de duas caixas de som pretas fixadas. No canto superior direito, uma tela de TV fixada na parede exibe um slide com fundo vermelho e elementos gráficos em branco. A iluminação do local é ampla e uniforme.

Moradores de Mariana e Ouro Preto apresentaram os questionamentos em audiência da Comissão de Transporte nesta quarta (13), na ALMG - Foto: Luiz Santana/ALMG

A duplicação da BR-356, vendida pelo Governo de Minas como a "Rota da Liberdade", foi duramente rebatizada por moradores e movimentos sociais em audiência na Assembleia Legislativa (ALMG) nesta quarta-feira (13): para os atingidos, o projeto é um "massacre social". 

O debate expôs a revolta contra o uso de R$2 bilhões do Novo Acordo de Mariana para financiar uma obra que, na visão das comunidades, servirá prioritariamente ao escoamento de minério das próprias empresas responsáveis pelo desastre.

O dinheiro do crime a serviço das mineradoras

A crítica mais ácida partiu de Stephanne Luíza Arcano Biondo, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Segundo ela, o uso dos recursos da repactuação é uma afronta ética. “A duplicação será feita com os recursos de um crime ambiental provocado pelas mineradoras Vale e Samarco, em favor das próprias”, denunciou Stephanne, apontando que o lucro das empresas está sendo priorizado em detrimento da indenização justa às famílias.

Marcela Gregório Barreto, assessora jurídica da Cáritas, questionou o cinismo do nome da concessão. “De que liberdade estamos falando? Liberdade para quem? Para as empresas?”, indagou, ecoando o sentimento de que a população local está sendo atropelada pelo interesse minerário.

O drama das desapropriações

Enquanto o Estado discute cifras de R$6 bilhões em investimentos, moradores como o "Seu Vicente" discutem o direito de continuar existindo. Morador de Mariana há 45 anos, ele resumiu a angústia de centenas de famílias que receberam notificações de despejo sem qualquer diálogo prévio. “Criei minha família naquela casa. Um dia o governo bateu na minha porta e disse que ela seria demolida”, lamentou o idoso, cuja história tornou-se o símbolo da resistência na audiência.

Gabriel Teixeira, representante do bairro Pocinho, de Ouro Preto, reforçou que as comunidades não aceitarão ser tratadas como obstáculos no mapa. “Ali não existem apenas imóveis, existem famílias. E cidadão não pode ser tratado como descarte”, afirmou, exigindo transparência sobre o traçado que ainda é tratado como um "projeto de papel" ou um simples desenho pelo governo federal.
 

O "fantasma" do projeto e a asfixia econômica

A incerteza é alimentada pela falta de um projeto executivo detalhado. Moradores de bairros consolidados, como a Vila São Vicente, vivem sob tensão constante, temendo que as escrituras registradas há 30 anos sejam ignoradas pela concessionária.

Além do impacto habitacional, o projeto ameaça asfixiar a economia local. Em Cachoeira do Campo, empresários alertam que o novo traçado pode isolar o distrito, onde 54,5% das empresas dependem diretamente do fluxo da rodovia. A construção de um anel rodoviário sem garantias de acesso pode destruir o comércio que sustenta o distrito há sete décadas.

Vereadores pressionam por mudanças

A audiência na ALMG contou com a presença estratégica de representantes políticos de Mariana e Ouro Preto, que utilizaram o espaço para cobrar garantias do Governo de Minas e do consórcio Rota da Liberdade. 

Entre os parlamentares presentes estavam os vereadores Alex Silva de Brito, Matheus Pacheco e Carlinhos Mendes da Van, de Ouro Preto, além de Preto do Cabanas e Ronaldo Bento, de Mariana. O vereador Carlinhos Mendes da Van exerceu pressão direta ao denunciar que o uso de recursos da reparação de Fundão só seria admissível se o montante fosse integralmente vinculado às indenizações das famílias desapropriadas. 

Já o vereador Ronaldo Bento reforçou a luta pela segurança jurídica dos moradores da Vila São Vicente, enquanto as lideranças de Ouro Preto pressionaram pela transparência imediata do projeto executivo, exigindo que o cidadão não seja tratado como "descarte" em nome de uma obra que, até o momento, é vista apenas como um "desenho" sem garantias sociais claras. 

Além da presença dos legisladores, o prefeito de Itabirito, Elio da Mata Santos, também acompanhou o debate sobre os impactos econômicos e habitacionais que a concessão trará para as cidades da região.
 

Promessa de resistência

O deputado Leleco Pimentel (PT) subiu o tom e garantiu que a obra não avançará enquanto houver comunidades ameaçadas sem garantias de moradia. O parlamentar prometeu visitas técnicas e novas frentes de pressão para que os recursos da repactuação sejam usados, primeiro, para indenizar e proteger quem vive no território.

Para a população que lotou o auditório da ALMG, a mensagem foi clara: a "Rota da Liberdade" não terá passagem livre se significar o apagamento de histórias e o uso do dinheiro de uma tragédia para pavimentar o lucro de mineradoras.

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