Mulheres ocupam Praça Tiradentes em ato pelo 8 de março
Ato reuniu mulheres e movimentos sociais para denunciar a violência de gênero e defender direitos femininos na região dos Inconfidentes
Mulheres se reuniram em ato pelo Dia Internacional das Mulheres em Ouro Preto, mobilizando pautas de combate à violência de gênero/Foto: Larissa Antunes/Agência Primaz
Mulheres, movimentos sociais e apoiadores se reuniram na manhã do último domingo (8) em Ouro Preto para em ato pelo Dia Internacional das Mulheres. A mobilização, organizada pelo coletivo Marias das Minas, reuniu falas, músicas e manifestações políticas em defesa da vida das mulheres, contra a violência de gênero e por direitos trabalhistas e sociais.
Realizado na Praça Tiradentes, o encontro reuniu participantes de diferentes movimentos sociais, partidos políticos, coletivos feministas e mulheres independentes da região dos Inconfidentes.
Logo no início do ato, uma das organizadoras, Raisa Campos, secretária do Coletivo Mães da (R)existência, destacou o significado político da data. “Hoje é dia de luta. Luta por todas as mulheres que vieram antes da gente, por todas que permanecem e por todas que estão aqui. Nós partilhamos dessa luta contra a violência machista e vamos lutar para que as mulheres sejam respeitadas”, afirmou.

Denúncias de violência contra as mulheres
Durante o evento, participantes alertaram para o crescimento da violência de gênero na região e no país. Uma das falas destacou que a realidade vivida pelas mulheres tem se agravado nos últimos anos.
Conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o número de feminicídios bateu recorde no Brasil em 2025: 1.470 casos de feminicídio entre janeiro e dezembro. Os registros apontam ainda que a média no ano passado é de quatro mulheres mortas por dia, uma a cada seis horas.

Vocês devem estar vendo nos noticiários que nós estamos vivendo uma epidemia de violência contra nós, mulheres. Aqui na nossa região a gente tem visto cada vez mais as violências crescendo
Entre os casos mencionados estavam tentativas de rapto, estupros, violência doméstica e feminicídios.
As participantes também defenderam a ampliação de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Para Patrícia, é necessário que as medidas de enfrentamento à violência saiam do discurso e se transformem em ações concretas. “A minha vida não vale onze centavos e tenho certeza que a de cada uma de vocês também não vale”, disse a militante do PSTU ao criticar o baixo investimento em políticas de proteção às mulheres.

Trabalho, mineração e desigualdades
Além da violência de gênero, o ato também trouxe críticas às condições de trabalho enfrentadas por mulheres, especialmente na região. Entre as pautas levantadas esteve a defesa do fim da escala 6x1.
Patrícia Ramos reafirmou que “a escala 6x1 é um problema que não garante que os trabalhadores e as trabalhadoras tenham vida além do trabalho, para as mulheres que já têm a vida de jornada dupla, tripla, fica ainda mais sobrecarregado.”
Outra discussão recorrente durante o ato foi o impacto da mineração nos territórios e na vida das mulheres. Manifestantes apontaram que regiões mineradas enfrentam consequências sociais e ambientais que atingem especialmente a população mais vulnerável.

Patrícia convidou as participantes a refletir sobre o modelo de mineração presente na região. Segundo ela, “estamos numa região que é totalmente impactada por uma mineração que só explora, só filtra os nossos poderes aqui, nossas riquezas e leva tudo para fora. Nós ficamos com todos os homens, inclusive com as violências.”, denuncia.
A professora explica que o aumento dos casos de violência contra e mulher estão diretamente ligados aos mineradores, ela afirma que essas empresas vêm para a região “de maneira irresponsável e não fazem um trabalho real de conscientização dos seus próprios trabalhadores, ao mesmo tempo que exploram eles também.”

Relatos pessoais e denúncia de violências
O microfone aberto também possibilitou que diversas mulheres compartilhassem experiências e reflexões sobre a realidade da violência de gênero. Em diferentes falas, participantes relataram vivências pessoais e situações presenciadas ao longo da vida, reforçando o impacto que a violência contra as mulheres tem no cotidiano de muitas famílias e comunidades.
Durante os depoimentos, algumas mulheres destacaram o cansaço emocional diante da frequência com que casos de agressões, abusos e feminicídios aparecem nos noticiários e nas próprias vivências. As falas também ressaltaram a importância de redes de apoio, acolhimento e organização coletiva para enfrentar essas situações e incentivar denúncias.
Laura Muller, doula e formadora de doulas, relatou suas experiências pessoais e destacou o cansaço diante da repetição de casos de violência e abuso contra mulheres.
E eu trabalho vendo mulheres serem violentadas todos os dias. E eu tô cansada. Eu tô exausta de abrir o Instagram, de ligar a televisão, o rádio. Eu falo que qualquer hora vai sair sangue dos eletrônicos. Eu acho que todas nós estamos exaustas. Eu queria que todas estivessem aqui, mas tem as que morreram

Os relatos evidenciaram ainda a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à proteção das mulheres, ao atendimento às vítimas e à prevenção da violência, além de fortalecer espaços de escuta e solidariedade entre mulheres.
Política, cultura e mobilização
Além das falas, o ato foi marcado por gritos de protesto entoados pelas participantes, como “nem recatada e nem do lar, a mulherada está na rua para lutar” e “Arreda seu machista, a América Latina vai ser toda feminista”.
Segundo as organizadoras, o encontro buscou fortalecer a articulação entre diferentes movimentos e incentivar a participação política das mulheres.
Esse é um ato construído de forma coletiva por diversos movimentos sociais, partidos políticos e mulheres independentes que entendem que a luta das mulheres precisa estar presente em todos os espaços da nossa vida

O evento foi encerrado com o convite para que mais mulheres se somem às mobilizações ao longo do ano, reforçando que o 8 de março representa um marco simbólico dentro de uma luta que continua diariamente.

Larissa Antunes
É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.







